Ciência e tecnologia

A sonda europeia Juice passou a 8.640 km da Terra na segunda-feira, usou a gravidade do planeta para ganhar velocidade rumo a Júpiter e fotografou a África, Madagascar e a Lua

A sonda Juice, da Agência Espacial Europeia, cruzou o céu sobre o Oceano Índico às 8h45 de segunda-feira, no horário de Brasília, a 8.640 km de altura. Saiu com 3,5 km/s a mais de velocidade, a rota corrigida para Júpiter e fotos da África e da Lua.

Sonda Juice: à esquerda, a Lua em fase crescente fotografada pela câmera de navegação; à direita, a Terra com a África e Madagascar vista pela câmera de monitoramento, com peças da sonda em primeiro plano

A Lua (esquerda) e a Terra (direita) vistas pelas câmeras da Juice durante a passagem. Fotos: ESA/Juice/NavCam e ESA/Juice/JMC, CC BY-SA 3.0 IGO.

Uma sonda que vai para Júpiter voltou para perto de casa nesta semana. A Juice, da Agência Espacial Europeia, a ESA, passou raspando a borda mais externa da atmosfera da Terra na segunda-feira (28) e seguiu viagem mais rápida e na direção certa.

O balanço saiu no comunicado da ESA sobre a passagem da Juice pela Terra, publicado na terça (29).

Resumo: a sonda Juice passou a 8.640 km da Terra às 8h45 de Brasília de 28 de setembro, ganhou 3,5 km/s de velocidade, desviou a rota em 20 graus e fotografou a África, Madagascar e a Lua. Ela volta em janeiro de 2029 e chega a Júpiter em 2031.

O que a sonda Juice fez perto da Terra

A Juice usou a gravidade da Terra como um estilingue. Ao passar perto do planeta, a sonda foi puxada, fez uma curva e saiu do outro lado com mais velocidade. O desvio foi de 20 graus em relação ao caminho de antes, e o ganho foi de 3,5 km/s.

Numa conta simples, 3,5 km/s são 12.600 km/h a mais. Tudo isso quase sem queimar combustível, porque quem fez o trabalho foi a gravidade da Terra.

Por que a Juice não vai direto para Júpiter?

Ir em linha reta seria mais rápido, mas a ESA explica o preço: seria preciso um foguete enorme e uma quantidade impensável de combustível para ganhar velocidade. E ainda mais combustível para frear na chegada, senão a sonda passaria direto por Júpiter.

Por isso a rota da Juice é cheia de voltas. Desde o lançamento, em 14 de abril de 2023, num foguete Ariane 5 na Guiana Francesa, ela já passou pela Lua, pela Terra e por Vênus, sempre pegando carona na gravidade. Até a passagem desta semana, foram 1.263 dias de viagem.

Linha do tempo da viagem da sonda Juice: lançamento em 14/04/2023, passagem pela Lua e pela Terra em agosto de 2024, passagem por Vênus, Terra em 28/09/2026, Terra de novo em janeiro de 2029, chegada a Júpiter em julho de 2031 e órbita de Ganimedes em 2034
A viagem da Juice do lançamento até Ganimedes. Ilustração: Watts & Wild, com dados da ESA.

A passagem, minuto a minuto

A ESA começou a vigiar a rota da sonda em 17 de agosto. Foram reservadas seis janelas para pequenos ajustes antes da passagem. Só uma foi usada, quatro semanas antes.

O ponto mais perto foi às 11h45 no horário universal, 8h45 em Brasília, a 8.640 km acima do Oceano Índico. Entre 15 e 30 minutos antes, a Juice cruzou o céu da Austrália, do nordeste para o noroeste do país. O acompanhamento reforçado segue até 10 de outubro.

Linha do tempo da passagem da sonda Juice pela Terra no horário de Brasília: campanha de navegação em 17/08, instrumentos ligados em 23/09, sombra da Terra de 16h29 de 27/09 a 1h09 de 28/09, foto da Lua às 22h27 de 27/09, ponto mais perto às 8h45 de 28/09 a 8.640 km, foto de Madagascar às 8h47, foto da Terra às 8h56, despedida em 02/10 e correção final em 04/10
A passagem da Juice hora a hora, convertida para Brasília. Ilustração: Watts & Wild, com horários da ESA.

A noite no escuro, só com bateria

Horas antes do ponto mais perto, a sonda entrou na sombra da Terra. Sem luz do Sol nos 10 painéis solares, a Juice ficou cerca de 8 horas e 40 minutos vivendo só de bateria, entre o fim da tarde de domingo (27) e a madrugada de segunda (28), no horário de Brasília.

Para não esgotar a bateria, a equipe escolheu quais instrumentos ficariam ligados. A prioridade foi o que ajuda a preparar o trabalho em Júpiter.

As fotos da Terra que a sonda Juice mandou

Às 8h56 de Brasília, já se afastando, a câmera de monitoramento 1 da Juice registrou boa parte da África. À direita do continente aparece Madagascar, e a Lua ficou como um pontinho cinza no alto da foto, segundo a ESA.

O detalhe curioso: essas câmeras não foram feitas para ciência. Elas servem para vigiar as antenas e as hastes da própria sonda, por isso as peças aparecem em primeiro plano. Cada foto tem 1.024 por 1.024 pixels. A imagem foi processada por Simeon Schmauß.

A câmera de navegação, a que vai guiar a sonda entre as luas de Júpiter, também foi testada. Ela fotografou a Lua às 22h27 de domingo, horário de Brasília, cerca de oito horas antes do ponto mais perto, e parte de Madagascar às 8h47 de segunda, dois minutos depois.

Foto em preto e branco de parte da ilha de Madagascar feita pela câmera de navegação da sonda Juice dois minutos depois do ponto mais perto da Terra, com nuvens espalhadas sobre o relevo e o mar à direita
Madagascar pela câmera de navegação da Juice, às 8h47 de Brasília. Foto: ESA/Juice/NavCam, CC BY-SA 3.0 IGO.

Um treino para os instrumentos antes de Júpiter

Foi a terceira chance de testar os 10 instrumentos científicos num alvo real no espaço. A primeira foi a passagem dupla pela Lua e pela Terra em 2024. A segunda, as observações do cometa 3I/ATLAS, em 2025.

Durante vários dias, a Juice também atravessou a cauda do campo magnético da Terra, que se estica para longe do Sol como uma biruta de aeroporto. A missão europeia e chinesa Smile, ao mesmo tempo, observava as auroras perto dos polos, e os dados das duas podem ser combinados.

Infográfico da ESA com a rota da sonda Juice passando pela Terra em setembro de 2026: início da navegação em 17 de agosto, instrumentos ligados em 23 de setembro, sombra da Terra, ponto mais perto a 8.640 km em 28 de setembro e fotos de despedida em 2 de outubro
O plano da passagem, no infográfico da agência europeia. Ilustração: ESA (ATG Europe), CC BY-SA 3.0 IGO.

As melhores fotos ainda não chegaram

As imagens divulgadas até agora são das câmeras simples. As de alta resolução da câmera científica, a JANUS, com a Terra e a Lua, ainda precisam chegar e ser avaliadas pelos cientistas. A ESA diz que deve publicá-las nas próximas semanas.

E a passagem da Terra ainda é a parte fácil. Em Júpiter, a sonda vai fazer 35 passagens por Ganimedes, Europa e Calisto. As conversas sobre como operar os instrumentos na lua Europa começaram há 10 anos e vão até o começo da década de 2030.

O que a sonda Juice vai procurar em Júpiter?

As três luas geladas têm oceanos debaixo do gelo, e a missão quer saber se esses lugares poderiam abrigar vida. A sonda pesa cerca de 2.400 kg sem combustível e 6.000 kg com os tanques cheios, e tem cerca de 85 metros quadrados de painéis solares.

O combustível que sobrou nesta passagem vai fazer diferença lá. Segundo a gerente de operações Angela Dietz, a equipe usou só uma pequena parte do combustível reservado, e o resto fica para as observações nas luas.

Próxima visita: janeiro de 2029

A Juice volta à Terra uma última vez em janeiro de 2029, para entrar na reta final. A chegada a Júpiter está prevista para julho de 2031, e a órbita em torno de Ganimedes, para 2034. Você imaginava que uma sonda precisasse voltar para casa para chegar mais longe?

Aqui no site, tem também o ano novo em Marte, que começou nesta quarta, o lançamento da Crew-13 para a estação espacial e a nova cratera que apareceu na Lua.

Perguntas rápidas

Quando a sonda Juice passou perto da Terra?

Na segunda-feira, 28 de setembro de 2026, às 11h45 no horário universal, que são 8h45 em Brasília. O ponto mais perto foi a 8.640 km de altura, sobre o Oceano Índico.

Por que a Juice passou pela Terra se vai para Júpiter?

Para usar a gravidade da Terra como um estilingue. A passagem desviou a rota em 20 graus e aumentou a velocidade em 3,5 km/s, quase sem gastar combustível, segundo a Agência Espacial Europeia.

Quando a Juice chega a Júpiter?

A previsão da ESA é julho de 2031. Antes, a sonda volta à Terra uma última vez, em janeiro de 2029. Em 2034, ela deve entrar em órbita de Ganimedes, a maior lua de Júpiter.

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