Curiosidades

É mito que tocar em um filhote de ave abandonado faz os pais deixarem de cuidar dele, segundo a Cornell University e a Audubon Society, e um terço dos brasileiros ainda acredita nisso

Quase todo mundo já ouviu o aviso: não toque no filhote de ave, porque a mãe sente o cheiro humano e abandona o ninho para sempre. A Cornell University, a Audubon Society e um estudo da Universidade Federal de Ouro Preto mostram uma explicação bem diferente para o olfato das aves.

Filhote de ave recém-nascido, sem penas, apoiado na palma da mão de uma pessoa, ilustrando o mito de tocar em filhote de ave.

Filhote recém-nascido de tico-tico-do-campo (Ammodramus savannarum) na palma da mão: o toque humano é o centro do mito que a ciência já derrubou. Foto: Birdfiddler, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Um filhote caiu do ninho, alguém o recolhe com cuidado e, no mesmo instante, ouve de um vizinho ou parente que aquele toque acabou de condenar o bicho: os pais vão sentir o cheiro humano e nunca mais voltar. A frase circula em famílias brasileiras há gerações, quase sempre dita com total convicção.

A crença é tão forte que virou senso comum, repetida em rodas de conversa muito antes de qualquer um checar se ela tinha respaldo científico. Só que pesquisadores que estudam aves há décadas, nos Estados Unidos e no Brasil, chegaram a uma conclusão bem diferente sobre o papel do olfato nesse comportamento.

É mito. Segundo o Cornell Lab of Ornithology e a Audubon Society, a maioria das aves tem olfato pouco desenvolvido e não percebe o cheiro humano num filhote tocado; os pais reconhecem a cria pelo som e pelo ninho. Um estudo brasileiro de 2019 achou 31,1% da população ainda acreditando no contrário.

De onde vem a ideia de que o cheiro humano afasta os pais

Ninguém sabe apontar a origem exata do aviso. Ornitólogos americanos têm uma hipótese recorrente: a frase funcionava como um jeito prático de afastar crianças de ninhos. Servia para proteger os filhotes de mãos curiosas, e também para proteger as crianças de bicadas de pais defensivos.

Frank Gill, que presidiu a União dos Ornitólogos Americanos, resume o consenso sobre o comportamento parental das aves. Por mais estressado que um casal fique com a presença humana, abandonar a cria por causa de um único toque é raríssimo, mesmo quando o medo do cheiro é real na cabeça de quem encontra o filhote.

O que a Cornell University descobriu sobre o olfato das aves

O Cornell Lab of Ornithology, ligado à Cornell University e responsável pelo site All About Birds, é uma das maiores autoridades do mundo em comportamento de aves. Segundo a instituição, a grande maioria das espécies de aves canoras tem um sistema olfativo pouco desenvolvido, insuficiente para detectar o cheiro humano deixado em um filhote.

Existem exceções conhecidas, como urubus, albatrozes e kiwis, que dependem do olfato para achar comida ou parceiros. Mas nenhuma dessas espécies costuma aparecer caída de ninho em quintal de casa no Brasil, onde predominam pássaros de olfato fraco, como sabiás, bem-te-vis e pardais.

O toque humano realmente confunde os pais de um filhote?

Susan Elbin, diretora de conservação e ciência da NYC Audubon, é direta sobre o ponto central do mito. "Birds have a sense of smell, but it's not very well developed", disse ela à Audubon: as aves têm olfato, mas pouco desenvolvido, e por isso não vão abandonar o filhote por causa do toque.

O reconhecimento do filhote pelos pais depende, segundo a mesma organização, muito mais do canto e da posição do ninho do que de qualquer rastro de cheiro. É por isso que devolver o filhote ao local exato onde foi encontrado costuma funcionar, mesmo depois de manuseado.

Filhote de cardeal-do-norte já emplumado, fora do ninho, parado sobre o chão coberto de folhas secas.
Filhote de cardeal-do-norte fora do ninho: fase normal de aprendizado de voo, quando os pais continuam alimentando a cria por perto. Foto: Designism, via Wikimedia Commons, domínio público (CC0).

Quase um terço dos brasileiros ainda acredita no mito, mostra estudo da UFOP

Em 2019, pesquisadores do Departamento de Biodiversidade, Evolução e Meio Ambiente da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) aplicaram um questionário sobre filhotes de aves a 158 pessoas de 13 estados brasileiros, publicado na Revista Brasileira de Educação Ambiental (Revbea).

O resultado: 49 dos 158 participantes, ou 31,1%, disseram que não colocariam a mão em um filhote no ninho porque o odor afastaria os pais. O dado mostra que o mito não é só uma lenda ultrapassada, mas uma crença ativa que ainda molda o comportamento de quem encontra um filhote hoje.

Por que, mesmo sem o problema do cheiro, ainda assim não se deve pegar o filhote

Derrubar o mito do olfato não significa que manusear filhotes seja inofensivo. A Audubon lista motivos reais para manter distância, e nenhum deles depende do nariz dos pais: o risco está no que acontece com o próprio filhote depois que um humano interfere no processo.

Rita McMahon, cofundadora e diretora do Wild Bird Fund, centro de reabilitação de aves de Nova York, explica o risco. Filhotes criados por pessoas podem "confuse humans as their parents": passam a associar seres humanos aos próprios pais e não aprendem os comportamentos de uma ave silvestre.

O filhote que aprende a ser humano tem menos chance de sobreviver solto

Esse fenômeno, chamado de impressão ou imprinting, compromete habilidades essenciais, como reconhecer predadores, encontrar comida sozinho e até identificar parceiros da própria espécie quando adulto. Quanto mais cedo e mais tempo o contato humano acontece, maior o estrago.

Um filhote imprintado dificilmente é solto de volta à natureza com segurança, mesmo depois de tratado por um centro especializado, porque o comportamento alterado o deixa vulnerável a ataques e incapaz de reconhecer o próprio grupo.

Filhote de coruja-listrada, ainda com penugem, em cima de um tronco caído na floresta.
Filhote de coruja-listrada (Strix varia) fora do ninho: espécies assim também passam por uma fase normal de exploração no chão. Foto: U.S. Fish and Wildlife Service, Midwest Region, via Wikimedia Commons, domínio público.

Alimentação errada pode matar o filhote antes mesmo da soltura

Melanie Furr, diretora de educação da Atlanta Audubon Society, cita um risco direto de quem tenta alimentar um filhote por conta própria. No centro Atlanta Wild Animal Rescue Effort, ela já viu filhotes com comida alojada nos pulmões por causa de alimentação feita de forma incorreta.

Cada espécie tem uma dieta e uma técnica de alimentação específicas, que uma pessoa leiga não domina. Água ou comida oferecida do jeito errado pode entrar pelas vias respiratórias em vez do sistema digestivo, o que os centros de triagem sabem evitar e um cuidador improvisado, não.

A doença que pode passar da ave silvestre para quem manuseia o filhote

Existe ainda um risco que corre na direção contrária, da ave para o ser humano. Aves silvestres podem carregar a bactéria Chlamydia psittaci, causadora da clamidiose (ou psitacose), transmitida por contato com secreções e fezes do animal, segundo levantamentos de medicina veterinária sobre zoonoses de aves no Brasil.

A infecção em humanos pode causar quadros respiratórios que vão de sintomas leves a pneumonia, e o risco cresce no manuseio direto e prolongado, o tipo de contato que acontece quando alguém decide cuidar de um filhote em casa. O mesmo alerta vale para outros bichos silvestres, como o morcego dentro de casa e o risco de raiva.

Ave marinha jovem, ainda com penas de filhote, dentro de um viveiro de reabilitação com tela verde ao fundo.
Filhote de atobá-de-Abbott em viveiro de reabilitação: cuidar de um filhote silvestre exige estrutura e treinamento que uma casa comum não tem. Foto: Christina Lipka, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Manusear um filhote de ave silvestre é crime no Brasil?

Sim, quando o filhote é levado para casa e mantido sem autorização. A Lei de Crimes Ambientais trata a guarda de fauna silvestre nativa sem licença como infração, independentemente de a pessoa ter agido com boa intenção ao tentar salvar o animal.

Por isso a orientação de órgãos ambientais brasileiros nunca é "leve para casa e cuide você mesmo". A recomendação é observar, avaliar o risco real e, se for o caso, acionar quem tem autorização para agir, como já detalha o guia completo do Watts & Wild sobre o que fazer ao encontrar um filhote caído do ninho.

Quando o abandono realmente acontece, e a causa nunca é o cheiro

O mito do olfato tira o foco do que de fato preocupa quem estuda aves. Perturbação repetida no ninho, como barulho, movimento e visitas constantes de pessoas ou animais domésticos por perto, pode levar os pais a abandonar a área, num cálculo de custo e benefício para a própria sobrevivência.

Ninho destruído, predador rondando com frequência e falta de alimento na região também entram nessa conta. Nenhum desses gatilhos tem relação com o nariz da ave, o que reforça por que a explicação popular do cheiro nunca fez sentido biológico.

O que muda na prática para quem encontra um filhote agora

Saber que o mito é falso não transforma o manuseio em algo recomendado. A lição prática é a mesma que zoológicos e órgãos ambientais repetem: tocar uma vez, para devolver o filhote a um local seguro não é o problema; o problema é levar para casa ou alimentar por conta própria.

Quem passa por essa situação no Brasil pode seguir o passo a passo completo já linkado acima, que detalha como diferenciar um filhote em risco de um que só está aprendendo a voar. Outros bichos silvestres em área urbana passam por dilemas parecidos, como o tamanduá-bandeira atropelado no Cerrado paulista.

Você já ouviu essa história do cheiro humano na sua própria família, e mudou de ideia depois de ler isso? Deixe sua resposta nos comentários.

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