Um levantamento da UFRGS com 32 anos de dados mostra por que o Sul, com Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, é a região do Brasil mais castigada pelo granizo
Entre 1991 e 2022, a Defesa Civil registrou 2.099 episódios de granizo no Sul do Brasil, mostra um levantamento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul de 2025. A posição geográfica da região, entre massas de ar quente e frentes frias, explica por que o fenômeno se repete tanto ali.
Pedra de granizo momentos depois de cair durante um temporal em Piracicaba (SP), em março de 2024. Foto: A.O Mapping/Wikimedia Commons, domínio público (CC0).
Entre 1991 e 2022, a Região Sul do Brasil, formada por Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, acumulou 2.099 episódios de granizo reconhecidos pela Defesa Civil, segundo levantamento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Assinado pela geógrafa Bruna Cavalcanti Gautério e pelo professor Francisco Eliseu Aquino, do Departamento de Geografia da UFRGS, o estudo foi publicado em 2025 na revista Paraonde!?. Os autores cruzaram dados do Atlas Brasileiro de Desastres Naturais com o Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), da Defesa Civil nacional.
A resposta está na geografia. O Sul do Brasil fica em latitudes médias, onde o ar quente do norte da Argentina e da Amazônia esbarra direto no ar frio que desce do polo. Essa fricção, mais planaltos e serras acima de 500 metros, cria as tempestades cumulonimbus que derrubam mais granizo do que em qualquer outra região do país.
O que 32 anos de registros da Defesa Civil mostram sobre o granizo no Sul do Brasil
Entre 1º de janeiro de 1991 e 31 de dezembro de 2022, a plataforma S2iD e o Atlas Brasileiro de Desastres Naturais somaram 2.099 registros e reconhecimentos de granizo nos três estados do Sul. O Rio Grande do Sul liderou com 791 episódios, seguido por Santa Catarina, com 773, e pelo Paraná, com 535.
No período, 75% dos 497 municípios gaúchos, 82% dos 295 catarinenses e 61% dos 399 paranaenses tiveram ao menos um episódio reconhecido pela Defesa Civil. Só 27% das cidades do Sul, ou 327 no total, nunca entraram nesse levantamento em três décadas.
Leia também: o alerta de granizo e vendaval que atingiu Santa Catarina em 18 de setembro e o alerta vermelho de tempestade que veio na sequência.
Por que a posição do Sul, em latitudes médias, favorece o choque de massas de ar
Banhado a leste pelo oceano Atlântico e situado em faixa de latitudes médias, o Sul do Brasil reúne condições que os pesquisadores da UFRGS descrevem como favoráveis à passagem de sistemas frontais, convectivos e dos chamados Complexos Convectivos de Mesoescala.
Nessa faixa, o ar polar que desce do continente esbarra no ar quente e úmido que vem do norte da Argentina e da Amazônia. O choque entre essas massas, somado a um forte gradiente de temperatura, favorece a formação de tempestades severas, segundo o estudo.
O papel dos planaltos e das serras na formação de granizo mais destrutivo
Segundo o Centro Universitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastres (Ceped), o granizo é mais recorrente em áreas elevadas, acima de 500 metros de altitude, caso de Itaiópolis, no planalto Norte catarinense, e de Guarapuava, no planalto de mesmo nome, no Paraná.
Esse relevo empurra o ar quente para cima com mais força, o que alimenta as correntes ascendentes dentro da nuvem de tempestade. Quanto mais alta e vertical essa corrente, maior o tempo que a pedra de gelo passa subindo e descendo antes de cair no chão.
Como uma pedra de granizo cresce dentro de uma nuvem cumulonimbus
Dentro das nuvens cumulonimbus, as de tempestade com desenvolvimento vertical mais alongado, gotas de água sobem com as correntes de ar até uma altura em que a temperatura já está abaixo de zero e congelam em cristais de gelo.
Esses cristais sobem e descem várias vezes dentro da nuvem, e cada passagem acrescenta uma nova camada de gelo, processo chamado de coalescência. A pedra só cai quando fica pesada demais para as correntes ascendentes seguirem sustentando o peso no ar.
As cidades do Sul que mais registraram granizo destrutivo em três décadas
Itaiópolis, no planalto Norte de Santa Catarina, lidera a lista com 22 episódios de granizo reconhecidos entre 1991 e 2022, o maior número entre os 1.191 municípios do Sul. Em novembro de 2011, um temporal de granizo na cidade afetou cerca de 2,5 mil pessoas e destruiu plantações de soja, trigo, fumo, milho e feijão.
Depois de Itaiópolis aparecem Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, com nove episódios, e Salto do Lontra, no Paraná, com oito. Em julho de 2016, uma tempestade de granizo em Salto do Lontra danificou 800 casas e atingiu cerca de 3.200 pessoas, segundo o levantamento da UFRGS.
Por que a primavera concentra o maior risco de granizo na região
A primavera aparece no levantamento da UFRGS como a estação de maior risco no Rio Grande do Sul, seguida pelo inverno, padrão que os pesquisadores associam à troca de gradiente de temperatura típica da passagem para os meses mais quentes.
Já o ano mais expressivo da série foi 1998, quando Paraná e Santa Catarina somaram, juntos, 137 episódios, dentro de um total de 154 registrados nos três estados do Sul naquele ano. O período coincidiu com um dos El Niños mais fortes já registrados, fenômeno que volta em 2026 e pode ser o mais forte desde 1950.
O Sul é mesmo a região do Brasil com mais granizo?
O levantamento da UFRGS não comparou diretamente o Sul às demais regiões do país, porque os dados do S2iD cobrem só Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Mas o próprio estudo cita uma pesquisa publicada em 2025 na revista Paraonde!?, da UFRGS, que por sua vez remete a um estudo de climatologia de 2017.
Essa pesquisa de 2017, assinada por Martins e outros autores na revista científica Atmospheric Research, mapeou a climatologia das tempestades de granizo destrutivas em todo o território brasileiro. Ela concluiu que a posição geográfica do Sul favorece o maior número desses eventos no país, conforme relatam os pesquisadores da UFRGS.
O que a contagem oficial de 2.099 episódios não inclui
Esse número só reúne o granizo forte o bastante para virar um decreto de situação de emergência ou de calamidade pública, assinado pelo prefeito e homologado pelo governo federal. Chuva de granizo mais fraca, que não chega a esse ponto, fica de fora da conta.
Os próprios autores do levantamento reconhecem esse limite: a ausência de registro num município não garante que o granizo nunca caiu ali, só mostra que o episódio não foi grave o bastante para pedir ajuda federal. O número real de quedas de granizo no Sul tende a ser maior do que os 2.099 documentados.
Curitiba, Porto Alegre e Florianópolis quase escapam do granizo destrutivo
Concentrando a maior densidade populacional do Sul, as três capitais raramente aparecem entre os municípios mais atingidos: Curitiba, Porto Alegre e Florianópolis registraram só um episódio destrutivo cada uma em 32 anos, nos anos de 2022, 2019 e 2021, respectivamente, segundo o levantamento.
O clima mais ameno perto do litoral, que funciona como termorregulador, e a menor exposição das áreas urbanas centrais ajudam a explicar a diferença apontada pelos pesquisadores. Na sua cidade, o granizo já causou algum estrago que você se lembre? Conta pra gente nos comentários.



