As duas sondas da missão BepiColombo, a europeia MPO e a japonesa Mio, ainda coladas uma na outra, serão capturadas pela gravidade de Mercúrio em 21 de novembro, e a chegada completa leva seis meses de manobras
Duas sondas viajaram oito anos empilhadas e chegam a Mercúrio ainda coladas: em 21 de novembro, a gravidade do planeta vai capturar as duas de uma vez. A separação fica para dezembro e a órbita final para março de 2027. Este é o roteiro da chegada, etapa por etapa.
Sala de controle da BepiColombo no Centro Europeu de Operações Espaciais, em Darmstadt (Alemanha), em 3 de setembro de 2026, dia da separação do módulo de transferência. Foto: ESA, ESA, licença padrão da ESA, recortada.
A captura de 21 de novembro é o momento em que a gravidade de Mercúrio prende a BepiColombo e a coloca em órbita do planeta, com as duas sondas ainda unidas. Segundo a Agência Espacial Europeia (ESA), o MPO e o Mio entram juntos e só se separam em 9 e 10 de dezembro.
Oito anos e nove sobrevoos até a porta
Missão conjunta da ESA e da agência espacial japonesa JAXA, a BepiColombo percorreu, segundo a ESA, 9,9 bilhões de quilômetros pelo Sistema Solar interno e fez nove sobrevoos de planetas: um da Terra, dois de Vênus e seis do próprio Mercúrio.
Em 15 de junho, a propulsão solar elétrica do módulo de transferência foi desligada, e em 3 de setembro o módulo se soltou das duas sondas. Naquele dia ainda faltavam mais de 3 milhões de quilômetros até Mercúrio.
Como a BepiColombo chega a Mercúrio em seis meses de manobras
Para a ESA, a chegada é uma sequência de cerca de seis meses de manobras combinadas, e não um evento único. É uma das chegadas planetárias mais complexas que a agência já tentou.
Nesse intervalo, o controle de missão usa o sistema de propulsão química do MPO para afinar a trajetória antes da captura. O módulo de transferência não participa mais: sem antena nem computador próprios, ele ficou inoperante e segue em órbita estável ao redor do Sol.
O que acontece em 21 de novembro
Nesse dia o MPO e o Mio, ainda empilhados, são capturados pela gravidade de Mercúrio, segundo a ESA. No gráfico da agência, a captura leva o conjunto a uma órbita polar em torno do planeta, passando sobre os polos.
Ficar unidas não é capricho. Durante toda a viagem o Mio vai montado em cima do MPO e não pode girar. Ele é protegido por um escudo solar de 1,8 por 3 metros, o MOSIF, que só será descartado depois da separação.
Por que são duas sondas e não uma
É a primeira missão a colocar duas naves em órbita de Mercúrio ao mesmo tempo, segundo a ESA. O MPO, da ESA, estuda o planeta em si, e o Mio, da JAXA, estuda o ambiente magnético e de partículas em volta dele. Cada uma terá uma órbita própria.
| MPO (ESA) | Mio (JAXA) | |
|---|---|---|
| O que estuda | O planeta em si: relevo, composição da superfície, interior e campo magnético | O entorno: magnetosfera, plasma, sódio na exosfera e poeira interplanetária |
| Instrumentos | 11 experimentos | 5 instrumentos |
| Órbita final | Polar, de 2,3 horas, entre 480 e 1.500 km de altitude | Polar elíptica, de 9,3 horas, entre 590 e 11.640 km de altitude |
Arte: Watts & Wild, com dados das páginas do MPO e do Mio na ESA.
Dezembro: as duas sondas se separam
Em 9 e 10 de dezembro, o MPO solta o Mio. A ESA afirma que a separação marca oficialmente a chegada da BepiColombo a Mercúrio, e nessa etapa o Mio já terá entrado na órbita de ciência dele.
Em Darmstadt, a agência vai esperar o primeiro sinal depois da separação num evento na noite de 9 de dezembro, que começa às 22h CET (18h em Brasília). Em 16 de dezembro, segundo o gráfico da ESA, o MPO solta o escudo do Mio e desce para a própria órbita com os propulsores.
Da órbita final ao primeiro dado
O MPO chega à órbita final de ciência em 19 de março de 2027, de acordo com a ESA. Nela, ele dá uma volta ao redor de Mercúrio a cada 2,3 horas, entre 480 e 1.500 km de altitude. O Mio completa a dele a cada 9,3 horas.
O gráfico de julho da ESA marcou o começo da fase de ciência para 6 de abril de 2027. Até lá, segundo a agência, as duas naves passam por testes extensos da nave e dos instrumentos, e só depois a ciência começa de fato.
A linha do tempo da chegada em uma tabela
| Data | O que está previsto |
|---|---|
| 3 de setembro de 2026 | O módulo de transferência se separa (feito, confirmado às 15h49 CEST) |
| 21 de novembro | MPO e Mio, ainda unidos, são capturados pela gravidade de Mercúrio |
| 9 e 10 de dezembro | As duas sondas se separam; o Mio entra na órbita de ciência |
| 16 de dezembro | O MPO solta o escudo solar do Mio e desce para a própria órbita |
| 19 de março de 2027 | O MPO chega à órbita final de ciência |
| 6 de abril de 2027 | Início da fase de ciência, segundo o gráfico de julho da ESA |
Arte: Watts & Wild, com dados da ESA (páginas de 7 e 24 de setembro de 2026 e gráfico atualizado em julho). A ESA avisa que as datas podem mudar por razões operacionais.
O que isso tem a ver com outras histórias do espaço
O Mio vai estudar a magnetosfera de Mercúrio e a interação dela com o vento solar, tema vizinho da missão Smile, que filmou a aurora boreal por 45 horas seguidas. Para entender o Sol por trás disso, vale ler quantas Terras cabem dentro dele e como uma erupção solar pode afetar internet, celular e Pix.
Mercúrio é o planeta mais próximo do Sol. Quer comparar com outro mundo que a ciência segue de perto? Veja o decágono de Saturno visto pelo Hubble.
Datas podem mudar e a ciência ainda não começou
No gráfico da chegada, a ESA avisa que as datas podem mudar por razões operacionais. A prova está nos próprios números: o gráfico de julho dava 10 de março de 2027 para a órbita final do MPO, e a página de 24 de setembro já cita 19 de março.
A data de 6 de abril de 2027 para o começo da ciência vem só do gráfico de julho. Até a captura de 21 de novembro, nada dessa lista é fato consumado, e a hora da captura ainda vai depender do que o controle de missão definir.
Fontes: ESA, 24 de setembro de 2026. ESA, separação do módulo de transferência, 7 de setembro de 2026. ESA, gráfico da chegada, atualizado em julho de 2026. ESA, página do MPO. ESA, página do Mio. ESA, replay da transmissão de 3 de setembro.



