Webb encontra anãs marrons com só 2 vezes a massa de Júpiter
Todo livro de astronomia faz a mesma pergunta: qual é o menor objeto que nasce como uma estrela? Em 2022, o Webb apontou 3 a 4 massas de Júpiter. Agora, em IC 348, a 1.000 anos-luz, ele achou objetos com só 2, algo como 42 vezes mais leves que a menor estrela.
Parte da imagem de IC 348, uma das maiores já divulgadas do Webb. Imagem: ESA/Webb, NASA, CSA, K. Luhman, C. Alves de Oliveira, M. Zamani (ESA/Webb), licença CC BY 4.0, ESA/Webb.
O Webb encontrou anãs marrons com apenas 2 vezes a massa de Júpiter, as mais leves já conhecidas, no aglomerado IC 348, em Perseu. Segundo a ESA/Webb, que divulgou o achado em 15 de setembro de 2026, o piso medido pelo mesmo grupo em 2022, de 3 a 4 massas de Júpiter, caiu.
A equipe é liderada por Kevin Luhman, da Universidade Estadual da Pensilvânia, e Catarina Alves de Oliveira, da ESA. O estudo saiu no The Astrophysical Journal Letters. A NASA e a ESA divulgaram, junto com ele, uma das maiores imagens que o Webb já mostrou ao público.
Quanto pesa uma anã marrom de 2 massas de Júpiter?
Pouco. Segundo a ESA/Webb, 2 massas de Júpiter equivalem a 0,19% da massa do Sol. A menor estrela conhecida tem cerca de 8% da massa solar. A conta da redação: o menor desses objetos é uns 42 vezes mais leve que a menor das estrelas.
É um peso de planeta gigante com origem de estrela. Esse é o enigma. Em tese, nuvens pequenas de gás têm pouca gravidade para se fechar sobre si mesmas, e quanto menor a nuvem, mais difícil o colapso. A NASA diz que o resultado fica bem abaixo do que a teoria previa para anãs marrons.
O que são as anãs marrons, afinal
Anã marrom é o astro que ficou no meio do caminho. Nasce igual a uma estrela, quando uma nuvem de gás molecular desaba sobre si mesma. Só que o núcleo nunca esquenta o bastante para fundir hidrogênio em hélio, que é o que mantém uma estrela acesa por bilhões de anos.
Muitas queimam por pouco tempo o deutério, uma forma pesada de hidrogênio, no começo da vida. Depois esfriam devagar. Por isso brilham sobretudo em infravermelho, a luz do calor, que o Webb enxerga melhor do que qualquer outro telescópio em órbita.
A pergunta que move a equipe, nas palavras do comunicado da ESA, é simples: qual é o tamanho da menor anã marrom? Ninguém sabe ainda onde a natureza para de fazer estrelas, nem por quê.
IC 348, o berçário a 1.000 anos-luz
IC 348 é um aglomerado jovem no complexo de formação de estrelas de Perseu. A NASA lembra que ele tem só uns 5 milhões de anos, um piscar de olhos para um astro. Objetos tão novos ainda brilham forte em infravermelho, com o calor da formação, e ficam mais fáceis de achar.
No artigo, Luhman e Alves de Oliveira descrevem o aglomerado como um dos melhores lugares para essa caça. Ele fica perto, a cerca de 300 parsecs, tem em torno de 500 membros e pouca poeira na frente. Também é compacto o bastante para caber no campo de visão pequeno do Webb.
O grupo vasculha IC 348 há três décadas, com telescópios de solo e de espaço. O Webb entrou depois, com um poder que nenhum outro tinha: segundo o artigo, ele detecta membros de regiões próximas de formação até a massa de cerca de 1 Júpiter.
Como o Webb pescou os objetos mais leves
A caça teve duas etapas. Em 2024, a equipe usou a câmera NIRCam para fotografar o brilho morno das anãs marrons jovens e das estrelas recém-nascidas. Das imagens, o artigo tirou 39 candidatas, escolhidas pela cor e pelo brilho.
Em 2025 veio o espectrógrafo NIRSpec. Ele abriu a luz de 15 desses objetos para estudar a massa de cada um. Nove foram classificados como anãs marrons, membros do aglomerado. As mais fracas pesam cerca de 2 massas de Júpiter, com temperatura em torno de 900 kelvin, algo como 630 graus Celsius.
Esse peso não vem de uma balança. Os autores combinaram a luminosidade de cada objeto com modelos de evolução, para uma idade de 5 milhões de anos. Por isso o número é uma estimativa, e vale lembrar disso nas comparações.
O piso desceu de 3 a 4 para 2 massas de Júpiter
A busca começou com as observações de 2022, divulgadas pela NASA em dezembro de 2023. Na época, o grupo achou três anãs marrons no centro do aglomerado, a mais leve com 3 a 4 massas de Júpiter. Luhman disse então que a pergunta sobre as menores estrelas aparece em todo livro de astronomia.
Alves de Oliveira, principal pesquisadora do programa, contou na ocasião que era improvável que aquele objeto tivesse nascido num disco em volta de uma estrela. A formação seria a mesma das estrelas. Agora, com um campo maior e mais fundo, o gráfico vai mais longe.
| O que o Webb mediu | Estudo de 2022 | Estudo de 2024 e 2025 |
|---|---|---|
| Área vista em IC 348 | Centro do aglomerado | Campo maior, o da imagem desta página |
| Candidatos a anã marrom | Poucos alvos, três confirmados | 39 candidatos nas imagens |
| Espectros feitos com o NIRSpec | Os alvos mais promissores | 15 objetos, nove deles anãs marrons do aglomerado |
| Menor massa estimada | 3 a 4 vezes a de Júpiter | Cerca de 2 vezes a de Júpiter |
| Marca do hidrocarboneto | Em dois dos três objetos | Em oito dos nove novos |
| Disco em volta do objeto | Sem registro no comunicado de 2023 | Em dois membros novos, de cerca de 2 e 10 massas de Júpiter |
Arte: Watts & Wild, com dados do comunicado da NASA de 2023, do comunicado da ESA/Webb de 15 de setembro de 2026 e do artigo de Luhman e Alves de Oliveira (The Astrophysical Journal Letters).
A tabela mostra o salto. De três confirmados para nove, e de 3 a 4 para 2 massas de Júpiter. Os dois estudos usaram o mesmo telescópio e a mesma equipe, o que ajuda a comparar um com o outro.
Um disco em volta de um astro do tamanho de um planeta
O achado traz outra surpresa. Dois dos novos membros, com cerca de 2 e 10 massas de Júpiter, mostram excesso de luz infravermelha que vem de discos de poeira e gás em volta deles. Segundo o artigo, isso prova que eles têm a matéria-prima para formar planetas.
A NASA resume a ideia: pequenos planetas poderiam estar se formando em torno de um objeto que tem, ele mesmo, a massa de um planeta. Um sistema solar em miniatura, com o astro central do tamanho de Júpiter.
Outros discos jovens já apareceram no Webb. A matéria sobre 21 discos de detritos extremos em estrelas jovens mostra o que acontece depois, quando o disco já esfriou e os choques entre corpos começam.
O hidrocarboneto que nenhum modelo previa
Nos espectros, oito das nove anãs marrons novas e um membro já conhecido mostram uma assinatura de hidrocarboneto, molécula feita só de hidrogênio e carbono. Com os dois casos da primeira rodada, são 11 objetos de IC 348 com a marca, segundo o artigo.
Quanto mais fraco o objeto, mais forte o sinal. Para os autores, isso indica que o hidrocarboneto é parte natural da atmosfera das anãs marrons mais frias e recém-nascidas. A NASA conta que o mesmo sinal foi visto pela sonda Cassini em Saturno e em Titã, e no gás entre as estrelas.
Os modelos de atmosfera de anã marrom não previam nada disso. Em 2023, Alves de Oliveira disse que era a primeira vez que a molécula era detectada na atmosfera de um objeto fora do Sistema Solar. Agora o grupo propõe uma classe espectral nova, chamada H, definida pela banda de 3,4 micrômetros do hidrocarboneto.
Jatos de estrelas bebês no canto da imagem
As anãs marrons dividem a imagem com outro espetáculo. No canto superior direito há um conjunto de protoestrelas, algumas com objetos Herbig-Haro, regiões que brilham quando jatos de estrelas em crescimento se chocam com o gás e a poeira em volta.
O traço comprido na horizontal é o HH 797. De perto, ele se revela duas protoestrelas com jatos quase paralelos. Logo à direita aparece o HH 211, com formato de hélice, jatos finos e um fluxo mais largo.
Quem curtiu esse tipo de cena pode ver outro berçário em a nebulosa NGC 7129, também fotografada pelo Webb. A colagem de recortes mostra ainda galáxias espirais ao fundo e um efeito de lente gravitacional, que dobra a luz de objetos mais distantes.
Uma das maiores imagens do Webb
O campo da imagem tem 16,09 por 19,92 minutos de arco. A versão completa no site da ESA/Webb mede 30.866 por 38.204 pixels. A redação fez a conta: são cerca de 1,18 bilhão de pixels, o que dá para dar zoom por muito tempo.
As cores vêm de filtros infravermelhos de 1,62 e 1,82 micrômetro (azul), 3,6 (verde) e 4,44 (vermelho), segundo a ESA/Webb. O dourado e o laranja são a cor escolhida para o calor da poeira, não a que o olho veria.
O Webb tem imagens de galáxias próximas na mesma faixa, como o Cata-vento do Sul, a galáxia M83 vista pelo gás frio, mas com outro foco: ali o assunto é gás, aqui são estrelas pequenas demais para brilhar de verdade.
Onde o resultado ainda não fecha a conta
A massa de 2 Júpiteres vem de modelos, não de pesagem direta, e depende da idade assumida para o aglomerado, 5 milhões de anos. O artigo trata o número como a nova restrição para o limite mínimo da massa dos astros que nascem como estrelas, não como o fim da busca.
Das 15 observações no NIRSpec, nove viraram anãs marrons do aglomerado. É uma amostra pequena. Em 2023, o grupo admitiu que não conseguia descartar que objetos de poucas massas de Júpiter fossem planetas ejetados de seus sistemas, embora visse essa hipótese como menos provável.
O limite do Webb é perto de 1 massa de Júpiter, segundo o artigo, então ainda pode haver objetos mais leves. O programa 4866 também quer comparar a população de objetos de massa planetária entre regiões diferentes de formação de estrelas e descobrir a origem da marca do hidrocarboneto.
A imagem completa, com zoom, fica na página do ESA/Webb, com créditos e as quatro cores do filtro. O artigo está aberto no site da revista.
Fontes: ESA/Webb, release weic2619, 15 de setembro de 2026. NASA, comunicado de 15 de setembro de 2026. NASA, comunicado de 13 de dezembro de 2023 sobre as três anãs marrons de 2022. Luhman e Alves de Oliveira, The Astrophysical Journal Letters, 986, L14.



