Ciência

A galáxia “Cata-vento do Sul” vista pelo gás frio: imagem do ALMA mostra onde nascem as estrelas de M83

O Observatório Europeu do Sul (ESO) publicou na segunda-feira (5) uma imagem da galáxia M83, a 15 milhões de anos-luz, feita pelo radiotelescópio ALMA. Ela não mostra estrelas. Mostra o gás molecular frio, a matéria-prima de que elas nascem, e o desenho em espiral que esse gás faz.

Imagem do ALMA da galáxia M83, o Cata-vento do Sul, em tons de laranja e amarelo: braços espirais formados pelo gás molecular frio em volta de um centro brilhante

A galáxia M83 vista pelo gás molecular frio, em imagem do ALMA. As cores são representação, porque esse gás não emite luz visível. Imagem: ALMA (ESO/NAOJ/NRAO)/J. Koda et al., ESO, licença CC BY 4.0, recortada.

A imagem do ALMA mostra a M83 sem as estrelas e com o gás frio de onde elas nascem. O ESO a divulgou em 5 de outubro de 2026 como Imagem da Semana, e explica que quase todas as estrelas se formam quando nuvens desse gás colapsam.

O que o ALMA enxerga na M83

A M83 é conhecida como Cata-vento do Sul e fica a cerca de 15 milhões de anos-luz da Terra. É uma das galáxias mais brilhantes do céu noturno, segundo o ESO.

Mesmo assim, a imagem não mostra a galáxia como o olho a veria. O ALMA, rede de antenas no deserto do Atacama da qual o ESO é sócio, registra a luz emitida por moléculas de gás frio. Por isso os braços espirais aparecem como filamentos laranja sobre fundo preto.

Por que o gás frio importa para as estrelas

Segundo o ESO, praticamente todas as estrelas nascem do colapso de nuvens de gás molecular. Quando a estrela se forma, ela aquece o entorno, e o gás aquecido tem mais dificuldade de se condensar em novas estrelas.

Esse freio, somado ao movimento da própria galáxia, que revolve o gás o tempo todo, controla o crescimento das galáxias. O ESO diz que o ALMA permite mapear como a densidade e a temperatura das nuvens mudam de um lugar para outro.

Centro, braços e espaço entre eles

Os astrônomos comparam três tipos de região: o centro da galáxia, os braços espirais e o espaço entre os braços. A pergunta é se as estrelas se formam do mesmo jeito em cada ambiente.

A M83 ajuda nisso porque aparece quase de frente para nós. Sem a galáxia inclinada, dá para ver o disco inteiro de uma vez. O ESO também cita a semelhança com a Via Láctea, o que faz da M83 um laboratório para saber se a receita de transformar gás em estrelas vale em toda parte.

O que as medições anteriores da M83 já mostravam

O ESO credita a imagem a J. Koda e colegas e liga a um artigo da equipe no The Astrophysical Journal. Trabalhos anteriores do grupo com o ALMA, já publicados como preprint, dão uma ideia do que se extrai de um mapa assim.

Num deles, a equipe de Jin Koda obteve um mapa do gás de monóxido de carbono, usado como indicador do gás molecular, em todo o disco que forma estrelas, com resolução de 40 parsecs. O resumo no arXiv diz que o gás muda do centro para a borda: a parte interna tem estruturas coerentes, como a concentração central e os braços moleculares, e a externa é mais irregular.

No segundo, liderado por Akihiko Hirota, o catálogo no arXiv identificou 5.724 nuvens moleculares na M83. A massa mediana delas é de cerca de 190 mil massas solares, e cerca de 60% do brilho do gás vem das nuvens com mais de 1 milhão de massas solares, que se concentram nos braços, na barra e no centro.

Gás sem estrelas entre os braços

O resumo do primeiro trabalho aponta um detalhe que a imagem do ESO deixa ver a olho nu: no espaço entre os braços há estruturas longas de gás com pouca ou nenhuma formação de estrelas. Para os autores, elas devem ter se formado dentro dos braços e depois se soltado para esse espaço.

Para sobreviver até lá, afirmam, essas estruturas precisam durar mais de 100 milhões de anos. É interpretação dos autores, não medida direta.

A M83 é parecida com a nossa galáxia?

O ESO diz que sim, a M83 se parece bastante com a Via Láctea. A diferença prática é a posição: nós vivemos dentro do disco da nossa galáxia e não conseguimos vê-lo de cima, enquanto a M83 mostra o desenho completo.

Outras imagens do tipo, com estrelas recém-nascidas, estão em a nebulosa NGC 7129 no Webb, e o formato espiral gigante de outra galáxia aparece em Arp 78. Para ver como a gravidade muda o que enxergamos, há a casa de espelhos de galáxias do Webb.

O que a imagem não prova

A imagem do ESO é uma Imagem da Semana, e o texto do observatório não traz medidas novas nem anuncia descoberta. A pergunta de se a formação de estrelas é universal segue aberta, e o ESO a apresenta como o motivo do estudo.

Não conferi qual dos artigos de Koda e colegas é o linkado pelo ESO. Os resumos citados acima são de preprints do mesmo grupo sobre a M83, e o que vale para a imagem é o texto do ESO. A página do observatório também traz a M83 em luz visível e uma comparação interativa entre as duas.

Fontes: ESO, Imagem da Semana potw2640a, 5 de outubro de 2026. Koda et al., Diverse Molecular Structures Across The Whole Star-Forming Disk of M83, arXiv:2303.12108. Hirota et al., Whole-disk sampling of molecular clouds in M83, arXiv:2410.05424.

Espaço de anúncio

Mais do Watts & Wild

Mais em Ciência e tecnologia →

A natureza do Brasil, uma vez por dia

Sem spam. Só o que viralizou no Brasil, checado e explicado, direto no seu e-mail.