Ciência

Quatro “letras” numa enzima explicam por que o tomate silvestre resiste à traça e o do mercado não, mostra estudo com a Esalq-USP e a China

O tomate de mercado e o tomate silvestre fabricam defesas quase gêmeas contra a traça, e só uma delas encaixa no inimigo. Um estudo com a Esalq-USP achou a causa: quatro aminoácidos numa única enzima viram a molécula do avesso, como quem troca a mão direita pela esquerda.

Traça-do-tomateiro adulta, cinza e fina, pousada numa superfície de madeira clara: a praga que o tomate silvestre aguenta melhor que o cultivado

Traça-do-tomateiro adulta (antes chamada Tuta absoluta), fotografada em Chippenham Fen, no Reino Unido, em 2022. Foto: Ben Sale, Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0, recortada.

O tomate silvestre aguenta melhor a traça porque a enzima GAME8 dele fabrica a versão “direita” da molécula de defesa, e essa versão incomoda mais a praga. A Agência FAPESP divulgou o trabalho em 5 de outubro. O artigo saiu na Nature Communications em 7 de agosto.

A praga que não dá sossego ao tomateiro

A traça-do-tomateiro, de nome científico Phthorimaea absoluta, é descrita pela Agência FAPESP como a principal praga da cultura. O tomate com furo na casca, aliás, costuma ser obra de lagartas desse tipo, como mostra a checagem sobre o boato do veneno de cobra.

Só que a planta não fica parada. Ela produz as próprias armas químicas, e o estudo mostra que a diferença entre resistir e sofrer pode caber numa questão de formato.

Duas moléculas quase gêmeas

As armas se chamam glicoalcaloides esteroidais, produzidos por plantas do gênero Solanum, que reúne tomate, batata e berinjela. Nas folhas do tomate cultivado, um dos principais é a alfa-tomatina. Nas folhas do tomate silvestre Solanum pennellii, predomina a filotomatina.

Flores amarelas e folhas peludas do tomate silvestre Solanum pennellii, a espécie estudada, em close sobre fundo de mato
Solanum pennellii, o tomate silvestre do estudo, registrado em Arica, no Chile, em 2019. Foto: Matt Berger, via iNaturalist e Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0, recortada.

As duas têm a mesma porção de açúcares. A diferença está no formato tridimensional da base da molécula. Nos testes, a filotomatina protegeu mais contra a traça, tanto em plantas quanto em dieta artificial preparada em laboratório.

Mão direita, mão esquerda: o que é quiralidade

Aí entra a palavra difícil. Uma molécula é quiral quando não dá para sobrepô-la à própria imagem no espelho. O exemplo de sempre são as mãos: têm as mesmas partes, só que espelhadas, e nenhuma rotação encaixa uma na outra.

Os químicos chamam as duas versões de R e S, do latim rectus (direita) e sinister (esquerda). A filotomatina é a versão R, e a alfa-tomatina é a S. Como diz o pesquisador Li no texto da FAPESP, diante de um alvo biológico só uma das formas costuma se encaixar.

Quatro aminoácidos viram a chave da enzima

Quem decide a mão da molécula é a enzima GAME8. O tomate silvestre tem duas cópias do gene, a GAME8a, que favorece a versão R, e a GAME8b, que favorece a S. O tomate cultivado tem duas cópias idênticas, ambas empurrando para a S.

Os autores então procuraram o que separa as duas enzimas e acharam quatro aminoácidos em volta da cavidade onde a molécula-mãe se encaixa. Eles mudam a posição dela lá dentro, e isso define qual hidrogênio será modificado e qual mão sai no final.

Por que o tomate silvestre aguenta a traça

Juntando as peças: no tomate silvestre, a enzima GAME8a produz a versão R, e as folhas ficam carregadas de filotomatina. No cultivado, só sai a versão S. Contra a traça, a R se mostrou superior em plantas e em dieta artificial.

O estudo ainda não sabe qual é o alvo exato desses compostos dentro do inseto. A explicação provável, segundo Li, é que o alvo reconhece uma forma e rejeita a outra. É uma hipótese, e a FAPESP a apresenta como tal.

Uma defesa que não serve para todo bicho

A reviravolta veio com outra lagarta, a Spodoptera litura, conhecida como lagarta-do-tabaco. Contra ela, filotomatina e alfa-tomatina tiveram efeito parecido. A vantagem da versão R, portanto, não é absoluta: depende de quem vem comer a folha.

O próprio Li diz que a filotomatina não é simplesmente mais tóxica em sentido geral. Se fosse, argumenta ele, todas as espécies silvestres de tomate acumulariam essa versão, e não é o que acontece.

Esse raciocínio lembra outra lição, a de que o veneno mais forte nem sempre é o que mais mata: o efeito depende de quem recebe.

Editar o gene, sem trazer gene de fora

Aqui mora a promessa. Em tese, dá para editar o gene do tomate cultivado e fazê-lo produzir filotomatina. Para Li, isso é tecnicamente viável com as biotecnologias atuais, mudando os quatro aminoácidos-chave, sem introduzir nenhum gene de outra espécie.

É o mesmo tipo de ferramenta que o curso de CRISPR do Butantan explica, com os limites do que a lei brasileira permite mexer. Nada disso dispensa conferir se uma edição específica é aceita por aqui.

Uma parceria entre a China e o Brasil

O trabalho foi coordenado por Jiancai Li, do Instituto de Fisiologia e Ecologia Vegetal de Xangai e da Universidade da Academia Chinesa de Ciências, em Pequim. O brasileiro José Maurício Simões Bento, da Esalq-USP, cuidou da parte de ecologia química, as interações entre planta e inseto.

Tomate vermelho na mão de uma pessoa com a casca aberta e escurecida por uma galeria cavada por larvas da traça-do-tomateiro
Tomate com o furo típico das larvas da traça-do-tomateiro. Foto: Metin Gulesci, Bugwood.org, via Wikimedia Commons, licença CC BY 3.0 US, recortada.

A cooperação nasceu de uma chamada lançada em 2024 pela FAPESP e pela Fundação Nacional de Ciências Naturais da China, depois da FAPESP Week China.

O porém: ainda é laboratório, não prateleira

Não existe tomate editado à venda com essa defesa, e a matéria da FAPESP não dá prazo. Antes seria preciso testar o efeito sobre outras pragas, como a mosca-branca, e avaliar sabor, qualidade do fruto e propriedades antinutricionais.

Li reconhece que as evidências sobre a evolução dessa defesa são correlacionais. E nada aqui diz que o tomate comum seja tóxico: a alfa-tomatina é só a defesa que ele já fabrica nas folhas.

Fontes: Agência FAPESP, José Tadeu Arantes, 5 de outubro de 2026. Nature Communications, “Biosynthetic mechanism and ecological function of chirality in Solanum steroidal alkaloids”, 7 de agosto de 2026.

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