Ciência e tecnologia

Um novo suporte instalado no acelerador Sirius, em Campinas, deixa cientistas enxergar por dentro uma célula solar de perovskita ligada, sob luz, calor e umidade, em escala nanométrica, e ver o que muda no material

Quase sempre a célula solar é examinada fora de operação, como uma peça parada no laboratório. Pesquisadores do CNPEM, em Campinas, criaram um suporte para o acelerador Sirius que muda isso: com raios X, ele enxerga o interior do dispositivo gerando eletricidade, com luz, temperatura e umidade controladas.

Fachada de vidro do prédio do Sirius, em Campinas, onde um novo suporte permite ver uma célula solar funcionando por dentro

Entrada do prédio do Sirius, no CNPEM, em Campinas (SP). Foto: Tex.Bold, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.

É difícil ver o que acontece dentro de uma célula solar porque o material muda enquanto trabalha, e qualquer deslocamento minúsculo tira o alvo do foco dos raios X. O novo suporte do Sirius resolve essa parte e permite olhar a célula ligada, segundo a Agência FAPESP.

O que o Sirius ganhou

O instrumento foi desenvolvido por cientistas do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) e fica na linha de luz Carnaúba, uma das 12 já instaladas no Sirius. É uma plataforma de microscopia de raios X com alta estabilidade mecânica.

Em vez de analisar peças isoladas, ela avalia dispositivos completos gerando eletricidade, simulando a exposição diária à luz, ao calor e à umidade. O primeiro autor do estudo, Rodrigo Szostak, é pesquisador do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS-CNPEM).

Maquete do Sirius vista de cima, com o prédio circular do acelerador de partículas cercado de gramado e vias de acesso
Maquete do Sirius, o acelerador de partículas do CNPEM, mostrada durante visita às linhas de luz em 4 de julho de 2024. Foto: Ricardo Stuckert/PR, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0, recortada.

Perovskita: a célula que ainda tem perguntas em aberto

A plataforma foi pensada principalmente para células solares de perovskita, tecnologia que avançou rápido por causa da alta eficiência e de uma fabricação relativamente simples, em baixas temperaturas e sem vácuo.

Szostak lembra que essas células têm só 15 ou 20 anos de desenvolvimento, mas já há empresas lançando produtos comerciais. Uma das perguntas mais importantes que seguem abertas é a estabilidade, ou seja, o que acontece com o material ao longo do uso.

Por que ver uma célula solar funcionando é tão difícil

Durante a operação o material não fica parado. Luz, calor, umidade e a própria tensão elétrica podem mudar a estrutura e a composição dele, e algumas mudanças são reversíveis, enquanto outras podem contribuir para a degradação.

Para acompanhar essas mudanças é preciso olhar a mesma região várias vezes. Só que a exposição repetida aos raios X pode aquecer, dilatar e deslocar o dispositivo. O feixe tem cerca de 200 nanômetros, o que a fonte descreve como centenas de vezes mais fino que um fio de cabelo.

Aquecer sem perder o alvo

A equipe construiu a própria célula sobre um pequeno chip de vidro. De um lado fica a camada transparente e condutora onde a perovskita é construída, e do outro dois circuitos de platina: um aquece e o outro mede a temperatura.

O aquecimento se concentra em 3 por 3 milímetros, o que reduz a dilatação. O suporte usa uma liga de titânio de baixa expansão térmica e peças flexíveis que deixam o vidro dilatar sem quebrar.

Os números de estabilidade

Nos testes, a amostra foi levada repetidamente de 30 °C a 150 °C durante cerca de 20 horas. Nessa variação de 120 °C, o deslocamento foi de só 5 micrômetros na vertical e 1 micrômetro na horizontal, e a amostra voltava praticamente à posição anterior.

A temperatura programada é alcançada em menos de dois minutos. A 150 °C ela ficou estável, com oscilações em geral abaixo de 0,1 °C, por 50 minutos. Szostak diz que, pela revisão de literatura dele, é provavelmente a melhor estabilidade de posição já obtida nesse tipo de experimento.

Luz, calor e umidade no mesmo equipamento

Além do aquecedor, o dispositivo tem uma câmara fechada onde circulam gases, com a umidade acompanhada na entrada e na saída. Isso permite investigar o papel da umidade na degradação das perovskitas.

Para a luz, a equipe usou um LED branco de banda larga, porque uma lâmpada de xenônio seria grande demais para a estação. Na posição que libera o caminho dos raios X, o LED entrega hoje cerca de 30% da radiação solar de referência, e melhorar isso é um dos próximos passos.

VariávelComo o equipamento controlaNúmero da fonte
TemperaturaChip de vidro com aquecedor e sensor de platina, área aquecida de 3 por 3 mm30 °C a 150 °C; patamar de 150 °C estável por 50 minutos
Tempo de respostaControle térmico rápidoMenos de 2 minutos para chegar à temperatura programada
LuzLED branco de banda larga no lugar da lâmpada de xenônioCerca de 30% da radiação solar de referência na posição lateral
UmidadeCâmara fechada com circulação de gases, medida na entrada e na saídaSem valor de umidade informado na matéria da FAPESP
EstabilidadeLiga de titânio de baixa expansão e elementos flexíveis5 micrômetros na vertical e 1 micrômetro na horizontal

Arte: Watts & Wild, com dados da Agência FAPESP de 2 de outubro de 2026.

O que os raios X mostraram na célula

Peças laranja e cinza de um equipamento do Sirius em primeiro plano, num galpão com tubulações vermelhas ao fundo
Equipamento do Sirius mostrado na mesma visita de 4 de julho de 2024, no CNPEM, em Campinas. Foto: Ricardo Stuckert/PR, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0, recortada.

Na estação Tarumã, da linha Carnaúba, a fluorescência de raios X mapeou a distribuição de iodo e chumbo no dispositivo. A difração permitiu ver individualmente grãos de perovskita com cerca de 2 micrômetros e a distância entre os átomos da estrutura.

Numa demonstração, os pesquisadores mapearam a estrutura cristalina a 40 °C e de novo a 65 °C, e observaram diretamente o aumento esperado do parâmetro de rede. Foi possível medir curvas de corrente e tensão e ver a resposta quando a luz era ligada e desligada.

Quem pode usar e o que vem depois

O equipamento já é multiusuário, disponível para a comunidade científica, e há vários experimentos em andamento. Também serve para células orgânicas, de pontos quânticos e LEDs construídos sobre vidro compatível.

A linha Carnaúba ainda estuda baterias, plantas, sementes e amostras paleontológicas, segundo Szostak. Quem acompanha a energia solar e eólica no Brasil verá esse tipo de pesquisa chegar aos painéis do futuro, mas o prazo não foi dado pela equipe.

De onde vem a luz que a célula converte

Toda essa precisão serve a um objetivo simples: converter melhor a luz do Sol em eletricidade. O Sol que alimenta os painéis também tem seus humores, como mostra a matéria sobre erupção solar e redes de internet.

Para uma ideia da escala dessa estrela, vale ver quantas Terras cabem dentro do Sol. O experimento do Sirius, em compensação, trabalha com grãos de 2 micrômetros.

O limite do que o estudo já provou

O artigo descreve o instrumento e uma demonstração com uma célula, não um teste de durabilidade de painéis. A matéria da FAPESP não traz dados de eficiência nem de vida útil das células observadas.

Que a plataforma ajudará a achar as causas da degradação é a expectativa dos autores, e as respostas virão em estudos futuros. A pesquisa saiu na revista Photon Science, em agosto, com apoio da FAPESP, e o artigo está disponível no site da ACS.

Fontes: Agência FAPESP, 2 de outubro de 2026. Photon Science (ACS), artigo de agosto de 2026.

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