NASA vai procurar um tubo de lava sob o buraco de Marius Hills, na Lua, para saber se ele pode virar abrigo natural de astronautas contra o frio, o calor e a radiação, e o instrumento da busca se chama GIMLI
Na superfície da Lua, o dia e a noite trazem extremos de temperatura, e a radiação chega sem filtro. Por isso a NASA quer saber se um buraco antigo, no meio de uma região vulcânica, leva a uma caverna de rocha. O instrumento escolhido para isso se chama GIMLI.
Ilustração: NASA. A arte mostra astronautas, rovers e módulos na Moon Base, o posto avançado que a agência quer montar perto do polo sul da Lua.
A NASA vai usar o GIMLI para checar se o buraco de Marius Hills leva a um grande tubo de lava subterrâneo. Se levar, os astronautas ganhariam um abrigo pronto, segundo o comunicado da agência, atualizado em 2 de outubro de 2026.
O que a NASA escolheu e para quê
O GIMLI é um dos três conjuntos de instrumentos que a agência selecionou no programa PRISM, sigla em inglês para Cargas e Pesquisas na Superfície da Lua. Eles vão à Lua em naves de empresas americanas, pela iniciativa CLPS, dentro do programa Moon Base.
O nome completo do GIMLI é Instrumentos Geofísicos para a Investigação do Poço Lunar de Marius, em tradução livre. O pesquisador principal é Nathaniel Putzig, do Planetary Science Institute.
O que é o buraco de Marius Hills
É um poço no meio de uma região lunar chamada Marius Hills, antiga e muito ativa em vulcões. Ele foi descoberto em imagens da sonda japonesa Kaguya, numa equipe liderada por Junichi Haruyama, e depois fotografado em detalhe pela sonda LRO, da NASA, segundo o site da câmera LROC.
Medições posteriores mostraram que o poço tem 58 por 49 metros de diâmetro e 40 metros de profundidade. Uma primeira estimativa, de 2010, falava em cerca de 65 metros. Em comprimento, ele tem pouco mais da metade de um campo de futebol de 105 metros.
Como nasce um tubo de lava
A região tem canais sinuosos, longos e tortuosos como rios secos, que os cientistas chamam de rilles. Hoje se sabe que esses canais se formam de duas maneiras: como canais abertos de lava ou como tubos de lava, muitos dos quais desabam depois.
Num tubo de lava, a superfície da corrente esfria e endurece, e a lava continua escorrendo por baixo. Quando a lava para de correr, sobra um túnel oco sob uma crosta de rocha.
Por que o poço pode ser uma janela para o túnel
Como o buraco de Marius Hills fica no meio de um desses canais, ele provavelmente representa o desabamento do teto de um tubo de lava, de acordo com o LROC. O poço pode ter surgido quando um impacto furou o teto do túnel.
Isso é uma hipótese forte, mas ainda é hipótese: de cima, a câmera só vê a abertura. O que existe embaixo, o tamanho do vazio e se ele continua por quilômetros ou por poucos metros, é justamente o que o GIMLI vai medir.
Por que um tubo de lava protegeria astronautas
O comunicado da NASA diz que o espaço subterrâneo poderia dar proteção pronta contra temperaturas extremas e radiação ionizante prejudicial. Também falaria de estabilidade térmica e de proteção contra a chuva de micrometeoritos.
A equipe do LROC explica que o interior de um tubo de lava poderia proteger exploradores dos raios cósmicos, dos impactos de meteoritos e da diferença extrema de temperatura entre o dia e a noite lunares. Como nas cavernas da Terra, a temperatura lá dentro seria constante.
O que o GIMLI vai fazer lá
A carga será instalada na beira do poço e vai escanear o subsolo para ver se o buraco dá acesso a um grande tubo de lava. A NASA diz que isso também ajuda a entender processos vulcânicos básicos da Lua.
Confirmar esses vazios agora poderia mudar o planejamento dos futuros habitats, na avaliação da própria agência. Seria a diferença entre construir tudo de raiz na superfície e aproveitar um abrigo natural.
As outras duas cargas, DISCO e LEMS-SP
A DISCO, da pesquisadora Ariel Deutsch, do Centro de Pesquisa Ames da NASA, fará as primeiras medições diretas, no próprio solo lunar, de gelo escondido em micro-armadilhas de frio. Também vai estudar como o jato de um foguete mexe no chão.
A LEMS-SP, de Mehdi Benna, da Universidade de Maryland em Baltimore, será uma estação autônoma de monitoramento. Vai acompanhar micrometeoritos e gases e usar um sismógrafo para detectar tremores, o que ajuda a avaliar riscos para os equipamentos da Moon Base.
O que a NASA diz sobre a estratégia
Nicky Fox, administradora associada da Diretoria de Missões Científicas, afirmou que a ciência da agência está montando "o guia de sobrevivência interplanetário definitivo". A ideia, segundo ela, é que a ciência chegue primeiro à Lua e traga às futuras tripulações os dados e as precauções para sobreviver à noite lunar.
Brad Bailey, diretor de integração da estratégia de ciência de exploração, disse que cada seleção do PRISM reforça a capacidade de entregar ciência ambiciosa à superfície. A agência fala em aumentar o ritmo de missões lunares para montar a Moon Base.
Dá para morar numa caverna da Lua?
Ainda não, e esse é o ponto da missão. Uma coisa é um buraco de 40 metros que se vê do espaço, outra é um salão subterrâneo estável e grande o bastante para abrigar gente. Só os instrumentos no chão podem dizer qual dos dois é o caso.
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O que ainda depende de data e de contrato
A seleção é um passo anterior ao voo. A data de lançamento, a empresa de CLPS que levará cada carga e o custo ficam fora do comunicado, e por isso nenhum deles entra nesta conta.
Também vale separar o que está medido do que é hipótese: o poço existe e tem medidas, mas a existência de um grande tubo de lava embaixo dele é o que o GIMLI vai testar. A resposta pode ser sim, não ou um espaço pequeno demais.
Fontes: NASA, "NASA Adds New Science Investigations for Moon Base", atualizado em 2 de outubro de 2026. LROC, Universidade do Estado do Arizona, "Marius Hills Pit: Lava Tube Skylight?", 1º de março de 2010, com atualização de 2017.



