Animais e natureza

Animais do Amapá parecem feitos de vidro, gelatina e fios de cera nas fotos de um guia, e um encontro no quintal acabou mobilizando pesquisadores brasileiros

Registros de Serra do Navio revelam pequenos animais que passam facilmente despercebidos na floresta. Fotografados por Wirley Almeida, eles exibem transparências, cores e estruturas incomuns. Entre as histórias está um encontro no quintal que levou uma equipe universitária ao município para investigar uma ocorrência importante para o conhecimento da fauna.

animais do Amapá: Lagarta-cristal fotografada por Wirley Almeida tem corpo translúcido e aparência gelatinosa.

Lagarta-cristal fotografada por Wirley Almeida tem corpo translúcido e aparência gelatinosa. Foto: Wirley Almeida/Arquivo pessoal, via g1 Amapá.

Os animais do Amapá fotografados em Serra do Navio incluem uma lagarta que lembra gelatina e uma pequena perereca de pele translúcida. Os registros do guia e fotógrafo Wirley Almeida revelam detalhes difíceis de perceber em uma caminhada comum pela floresta.

Em uma seleção publicada pelo g1 Amapá no Dia da Amazônia, em 5 de setembro, o fotógrafo também relembrou um encontro de 2020 no quintal de casa. Ele enviou a imagem de uma perereca a um professor e recebeu várias ligações no dia seguinte.

O encontro ajudou a documentar a espécie no Brasil. A perereca Cochranella resplendens já era conhecida pela ciência em outros países, mas aquele registro levou pesquisadores da Unifap a investigar sua presença em território brasileiro.

Os animais do Amapá revelam detalhes em escala pequena

Tamanho e ambiente ajudam a explicar por que esses bichos surpreendem nas fotografias. Alguns medem poucos centímetros ou milímetros, e suas características ficam muito mais evidentes em registros feitos de perto.

A seleção reúne espécies e comportamentos diferentes. Nem todos os animais da lista são raros: em alguns casos, o interesse está no aspecto do corpo; em outros, na situação observada pelo fotógrafo.

A perereca era conhecida, mas faltava o registro brasileiro

Depois do contato com o professor, uma equipe foi a Serra do Navio. Segundo o relato de Wirley ao g1, a busca levou dois dias até que os pesquisadores conseguissem coletar material para análise.

Era uma nova ocorrência, não uma espécie recém-criada. O animal já tinha registros no Equador, na Colômbia e no Peru. A diferença estava em ampliar o mapa conhecido de sua presença para incluir o Brasil.

Perereca-de-vidro registrada no Amapá, onde a ocorrência ampliou o conhecimento sobre sua distribuição.
Perereca-de-vidro registrada no Amapá, onde a ocorrência ampliou o conhecimento sobre sua distribuição. Foto: Wirley Almeida/Arquivo pessoal, via g1 Amapá.

Por que a perereca-de-vidro parece transparente?

A pele translúcida permite observar parte dos órgãos internos, especialmente na região abdominal. Essa característica está por trás do nome popular e explica por que o animal chama atenção mesmo sendo pequeno.

O corpo delicado e a dificuldade de encontrá-lo na floresta tornam a fotografia especialmente útil para enxergar o detalhe. A transparência, porém, deve ser entendida como característica do animal, sem transformar a comparação com vidro em uma descrição literal.

A lagarta-cristal ainda vai mudar de aparência

A lagarta apresentada na seleção pertence à família Dalceridae e tem aspecto gelatinoso, com transparências e tons que podem lembrar âmbar ou laranja. A cobertura ajuda na proteção e na manutenção da umidade.

A aparência de cristal pertence à fase de lagarta. Depois da metamorfose, o animal se transforma em uma mariposa bem diferente. O registro mostra uma etapa da vida, não o aspecto que ele mantém para sempre.

Filamentos de cera chamam atenção na região traseira da cigarrinha em fase de ninfa.
Filamentos de cera chamam atenção na região traseira da cigarrinha em fase de ninfa. Foto: Wirley Almeida/Arquivo pessoal, via g1 Amapá.

Para que servem os fios da cigarrinha?

As estruturas esbranquiçadas na região traseira são formadas por cera. Em algumas ninfas do grupo Fulgoromorpha, esses filamentos podem se romper quando um predador tenta atacar por trás, favorecendo a fuga.

O visual lembra uma cauda de fios, mas tem função de defesa. A fase juvenil ajuda a explicar por que o inseto da fotografia parece tão diferente da imagem de cigarrinha que muita gente tem na cabeça.

A cobra-cega passa boa parte do tempo sob a terra

O corpo pequeno e cilíndrico das cobras-cegas da família Typhlopidae pode provocar confusão com minhocas. Elas vivem entre o solo, folhas e matéria orgânica, o que dificulta a observação casual.

A identificação cuidadosa também importa para outros bichos brasileiros. As diferenças entre catetos e queixadas mostram como nomes populares e semelhanças visuais podem esconder animais distintos.

A pequena cobra-cega tem hábitos subterrâneos e pode ser confundida com uma minhoca.
A pequena cobra-cega tem hábitos subterrâneos e pode ser confundida com uma minhoca. Foto: Wirley Almeida/Arquivo pessoal, via g1 Amapá.

Uma fotografia curiosa não transforma todo bicho em raridade

A seleção inclui ainda uma rã-kambô durante o amplexo múltiplo, quando mais de um macho se prende à mesma fêmea na reprodução. Nesse caso, o destaque está no comportamento registrado.

A curiosidade pode estar na cena, não na raridade. Essa distinção evita confundir uma imagem pouco habitual com a descoberta de uma espécie, como também exige atenção a história do felino tilcayo.

Serra do Navio concentra as histórias da seleção

Os registros mostram a diversidade observada pelo fotógrafo no município amapaense. Para conhecer outro animal brasileiro de aparência pouco familiar, vale acompanhar a história do furão resgatado na Amazônia.

Qual desses detalhes você teria mais dificuldade de acreditar sem ver a foto: a pele da perereca, o corpo da lagarta ou os fios de cera do inseto? Deixe sua opinião nos comentários.

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