Animais

Krill se reproduz perto de fontes hidrotermais a mais de 900 m no fundo da Antártida, contra o que se achava

Por um século, o krill foi tratado como bicho de superfície, que vive nos primeiros 200 metros do mar. Agora uma equipe achou fêmeas para desovar em volta de fontes hidrotermais, a mais de 1.000 metros, comendo bactérias que vivem de enxofre. A descoberta mexe numa conta que sustenta baleias e pinguins.

Krill-antártico translúcido sobre fundo preto, com olho avermelhado e estômago verde, o krill que vive perto de fontes hidrotermais

Krill-antártico (Euphausia superba), em foto de arquivo de 1990. O animal da imagem não é um dos coletados no estudo. Foto: Dr. Wayne Trivelpiece/NOAA, Wikimedia Commons, domínio público, recortada.

Fêmeas de krill-antártico prontas para desovar vivem e se alimentam perto de fontes hidrotermais, a mais de 900 metros de profundidade. É o que mostra um estudo na revista Communications Biology, com mergulhos de robô no Estreito de Bransfield e no Arco de Scotia, noticiado pela CNN Brasil em 7 de outubro.

Fontes hidrotermais são chaminés no fundo do mar que expelem água quente e carregada de enxofre. No lugar da luz do Sol, bactérias tiram energia desses compostos, e foi desse alimento que as fêmeas se serviram, segundo as análises.

Um bicho de superfície que desceu mais de mil metros

Segundo o artigo, o krill-antártico tem uma das maiores biomassas de um animal selvagem no planeta, quase meio bilhão de toneladas. Cerca de 30% disso fica entre o norte da Península Antártica e o Mar de Scotia, uma das regiões que mais esquentam no mundo e onde a pesca do krill cresce.

Durante quase todo o século passado, o modelo era o de um animal que ocupa os primeiros 150 a 200 metros da coluna d'água. Havia flagrantes de krill perto do fundo desde 1987, mas quase sempre a menos de 1.000 metros, e os próprios autores lembram que a luz do robô pode atrair os bichos.

O que os robôs viram em Hook Ridge e Quest Caldera

As equipes usaram o robô SuBastian, a bordo do navio Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute. Em Hook Ridge, a cerca de 1.100 metros no Estreito de Bransfield, o vídeo mostrou fêmeas grávidas nadando junto às chaminés. Em nove horas no fundo, não apareceu macho. O robô recolheu quatro animais por sucção, e todos estavam saudáveis.

Três meses depois, no Quest Caldera, no Arco de Scotia, entre 690 e 990 metros, a equipe filmou enxames densos de fêmeas em volta das chaminés durante as 21 horas no fundo.

Em duas horas de varredura, de 2,57 km, os pesquisadores estimaram 1.991 fêmeas grávidas. No local, a temperatura do fundo é de 0,5 °C, e o fluido das chaminés chegou a 109 °C.

As fêmeas comiam bactérias de enxofre

O estômago contou o resto da história. Das quatro fêmeas de Hook Ridge, três tinham mais de 40% de bactérias do grupo Campylobacteria, de gêneros que vivem de enxofre nas fontes. O quarto animal estava dominado por outro microrganismo.

Na área de comparação, em Antarctic Sound, a 270 a 290 metros e sem fonte, o krill tinha comido algas: de 35% a 51% das sequências no estômago eram de cloroplastos. O cardápio mudava de acordo com o lugar onde o bicho estava.

Krill-antártico visto de lado contra fundo preto, com o corpo transparente, olhos escuros e o estômago verde-amarelado
Krill-antártico (Euphausia superba) fotografado em laboratório, em 2011. Foto: Uwe Kils, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0, recortada.

Krill de fonte hidrotermal ao lado do krill comum

O que os pesquisadores mediramPerto da fonte hidrotermal (Hook Ridge)Sem fonte (Antarctic Sound)
Profundidade onde o krill foi coletado1.020 a 1.160 m270 a 290 m
Animais coletados4 fêmeas prontas para desovar35, entre jovens, machos e fêmeas
Comprimento médio47,8 mm31,5 mm
Fêmeas com espermatóforosAs 4Nenhuma
Conteúdo do estômagoBactérias de fonte hidrotermal em 3 das 4Restos de algas: 35% a 51% das sequências
Chumbo, zinco, cádmio e bário no corpoDe 2 a 540 vezes maisReferência

Arte: Watts & Wild, com dados do artigo publicado na Communications Biology (DOI 10.1038/s42003-026-10780-1). Só 4 animais de cada local entraram na análise de metais.

As quatro fêmeas de Hook Ridge eram maiores e todas carregavam um par de espermatóforos, os pacotes de esperma que o macho deixa na fêmea. Entre os krill de Antarctic Sound, só uma fêmea chegou perto desse estágio, e nenhuma tinha espermatóforo.

Metais das chaminés dentro do corpo do krill

O corpo dos animais de Hook Ridge, já sem o estômago, tinha entre 2 e 540 vezes mais chumbo, zinco, cádmio e bário que os de Antarctic Sound. Esses metais saem das chaminés. Para os autores, isso indica que os animais voltaram à fonte mais de uma vez.

A assinatura de carbono no tecido, mais leve que a do krill comum, aponta na mesma direção. Os próprios autores avisam que esse número sozinho não prova a origem do alimento.

O que isso muda no modelo de reprodução do krill

O modelo aceito diz que a fêmea desova sobre águas fundas perto do talude do continente e que os embriões afundam e eclodem antes de chegar ao fundo. É com ele que se prevê onde ficam as áreas de desova importantes para a gestão da espécie. Segundo o artigo, ele não leva em conta as fontes hidrotermais.

A energia das fontes não depende da estação. A produção das algas no Oceano Austral muda muito ao longo do ano, e a das bactérias das chaminés é mais estável. Os autores levantam que isso pode ajudar as fêmeas, mas tratam a ideia como hipótese.

Por que baleias, pinguins e pescadores se importam

O krill é a base da cadeia alimentar do Oceano Austral e alimenta baleias, focas e pinguins. O pinguim-gentoo come krill, e a jubarte de Abrolhos que apareceu na Austrália é exemplo de baleia que usa esse mesmo oceano.

A CNN Brasil lembra que as baleias que migram da Antártida ao litoral brasileiro dependem do krill, e ele é só um dos bichos de uma cadeia que inclui a salpa, o bicho transparente do plâncton.

A CNN Brasil também lembra que o krill é alvo da maior parte da pesca comercial no Oceano Antártico. O limite hoje permite capturar 620 mil toneladas num espaço concentrado, porque uma cláusula que impedia isso expirou em 2024. Os autores do estudo pedem que as áreas de fontes hidrotermais entrem no planejamento de áreas marinhas protegidas.

Quatro krill por local: os limites do estudo

A amostra é pequena: quatro krill de fonte e quatro de comparação nas análises de metais. Não houve teste genético, mas os autores consideram improvável que os animais de fonte sejam outra população. A análise de carbono não definiu a fonte do alimento.

A conta de 1.991 fêmeas é contagem da varredura do robô, e a estimativa de cerca de 70 mil num campo todo é só ilustrativa, diz o texto. Os ovos e a eclosão perto das fontes ficaram fora das medições. O artigo foi publicado em 14 de setembro e pode ser lido no site da revista.

Fontes: Communications Biology, Deep Sea hydrothermal vent habitats support gravid Antarctic krill, DOI 10.1038/s42003-026-10780-1. CNN Brasil, 7 de outubro de 2026.

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