Ciência e tecnologia

O terremoto de magnitude 8,8 no Chile em 2010 liberou uns 500 vezes mais energia que o de magnitude 7,0 no Haiti, semanas antes, mas o menor matou de 190 a 600 vezes mais gente, e a explicação está no que a escala não mede

Quando a terra treme, o primeiro número que aparece na tela é a magnitude, e com ela vem a comparação com o último desastre. Só que esse número diz o tamanho do terremoto, não o tamanho da tragédia. O que define quantos morrem está em outro lugar.

Vista aérea do centro de Porto Príncipe, no Haiti, com casas desabadas e lonas de abrigo quatro dias depois do terremoto de magnitude 7,0 de 2010

Centro de Porto Príncipe visto do alto em 16 de janeiro de 2010, com abrigos improvisados entre os escombros. Imagem: Master Sgt. Jeremy Lock, Força Aérea dos EUA, domínio público.

A magnitude mede o tamanho do terremoto na falha, não o estrago na superfície. Quem mata é o tremor que chega a cada casa, e ele depende da distância, da profundidade, do solo e do jeito como os prédios foram feitos. Por isso um tremor menor pode matar mais que um gigante.

Magnitude é o tamanho, intensidade é o que se sente

O Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, explica a diferença numa página de referência: um terremoto tem uma única magnitude. Já o tremor que ele provoca tem muitos valores, que variam de lugar para lugar conforme a distância, o tipo de terreno e outros fatores.

Esse segundo número é a intensidade. Ela é escrita em algarismos romanos, como VI ou X, e descreve o efeito em cada ponto do mapa: gente acordando, móveis andando, chaminé caindo e, no topo, destruição total. Um só terremoto produz um mapa inteiro de intensidades, mais altas perto da falha e mais baixas longe dela.

Cada grau a mais na magnitude vale 32 vezes mais energia

A escala é logarítmica. Segundo o USGS, cada grau inteiro de magnitude multiplica por 10 a amplitude da onda registrada no sismógrafo e por cerca de 32 a energia liberada. Um tremor de 6 não é um pouco maior que um de 5: ele solta umas 32 vezes mais energia.

A tabela abaixo aplica essa regra a algumas diferenças. A distância entre o tremor do Haiti e o do Chile, de 1,8 grau, parece pequena no papel. Em energia, ela vira um fator de 500.

Diferença de magnitudeOnda no sismógrafoEnergia liberada
0,11,26 vez1,4 vez
0,53,2 vezes5,6 vezes
1,010 vezes32 vezes
1,8 (Haiti x Chile)63 vezes501 vezes
2,0100 vezes1.000 vezes
3,9 (Itacarambi x Chile)7.943 vezes708 mil vezes

Conta do Watts & Wild com a regra do USGS: cada grau multiplica a onda registrada por 10 e a energia por cerca de 32 (10 elevado a 1,5).

A escala Richter quase não é mais usada

O nome que todo mundo conhece é Richter. O sismólogo Charles F. Richter, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, criou o conceito de magnitude em 1935, com uma definição que valia só para terremotos da Califórnia registrados a até 600 km de um tipo específico de sismógrafo.

Hoje, diz o USGS, a escala de Richter só é usada para tremores pequenos registrados perto. Nos grandes, as escalas baseadas só na altura da onda erravam: umas superestimavam e outras subestimavam o tamanho real. Quando o noticiário fala em escala Richter para um tremor de 8, quase sempre o número é de outra escala.

O que entra na conta da magnitude de momento

A medida usada nos tremores grandes é a magnitude de momento, Mw. Ela parte de uma conta física: rigidez da rocha vezes a área da falha que deslizou vezes o quanto ela andou. O resultado passa por uma fórmula que o deixa parecido com a escala de Richter na faixa em que as duas se cruzam.

No Chile de 2010, pela descrição do USGS, a ruptura, em boa parte sob o mar, teve mais de 100 km de largura e quase 500 km ao longo da costa, com deslizamento de até 15 metros. É uma falha mais comprida que a distância em linha reta entre São Paulo e o Rio de Janeiro.

Haiti e Chile em 2010: o tremor menor matou mais

Em 12 de janeiro de 2010, um terremoto de magnitude 7,0 atingiu o Haiti a 13 km de profundidade, perto de Léogâne e da área de Porto Príncipe. Pela ficha do USGS, a estimativa oficial foi de 316 mil mortos, 300 mil feridos e 97.294 casas destruídas. Outras estimativas falam em menos de 100 mil mortos.

Um mês e meio depois, em 27 de fevereiro, o Chile teve um tremor de 8,8 na região do Maule. A ficha do USGS registra, entre terremoto e tsunami, pelo menos 523 mortos e 24 desaparecidos e cerca de 370 mil casas danificadas ou destruídas. O prejuízo no país foi estimado em 30 bilhões de dólares.

Pela regra dos 32, o tremor chileno soltou umas 500 vezes mais energia. Mesmo assim, o Haiti teve de 190 a 600 vezes mais mortos que o Chile, conforme a estimativa usada para o Haiti. O mapa de tremor do USGS estima intensidade máxima IX no Haiti e VIII no Chile, apesar da magnitude bem menor.

Encosta de Porto Príncipe com dezenas de casas de concreto desabadas umas sobre as outras entre árvores, três dias depois do terremoto de 2010
Casas desabadas numa encosta de Porto Príncipe em 15 de janeiro de 2010, três dias depois do tremor de magnitude 7,0. Imagem: Tech. Sgt. James L. Harper Jr., Força Aérea dos EUA, domínio público.
TremorMagnitudeProfundidadeIntensidade máxima estimadaMortos
Itacarambi (MG), 9/12/20074,910 kmVI1
Northridge (EUA), 17/1/19946,718 kmIX60
Haiti, 12/1/20107,013 kmIX316 mil (estimativa oficial)
Chile, 27/2/20108,823 kmVIII523 e 24 desaparecidos

Dados das fichas de cada tremor no catálogo do USGS. A intensidade máxima é a do mapa de tremor do próprio USGS, arredondada.

Profundidade, distância e solo mudam o tremor

O USGS compara dois terremotos americanos quase do mesmo tamanho. O de Northridge, na Califórnia, em 1994, teve magnitude 6,7 e começou a 5 a 18 km de profundidade. O de Nisqually, no estado de Washington, teve 6,8 e começou entre 48 e 58 km. O menor tremeu mais forte e numa área maior.

O de Northridge deixou 60 mortos, mais de 7 mil feridos e mais de 40 mil prédios danificados. O solo também pesa: no terremoto de Loma Prieta, em 1989, três sismógrafos à mesma distância registraram tremores diferentes. A rocha firme balança menos, e a lama mole balança mais.

O que a escala Mercalli conta em algarismos romanos

A escala de intensidade usada nos Estados Unidos é a Mercalli Modificada, criada em 1931 pelos sismólogos americanos Harry Wood e Frank Neumann. Pela descrição do USGS, ela não tem base matemática: é uma classificação montada sobre os efeitos observados em pessoas, objetos e construções.

Os graus mais baixos falam de como as pessoas sentiram o tremor. Os mais altos se baseiam no dano às estruturas, e a partir do grau VIII engenheiros costumam ajudar na avaliação. Para quem mora no lugar, diz o USGS, a intensidade diz mais que a magnitude, porque descreve o que aconteceu ali.

A casa onde a pessoa está pesa mais que o número

O USGS trata a perda de vidas como conta separada. O sistema de alerta PAGER cruza o mapa de tremor com a população exposta e usa modelos de cada país que levam em conta o tipo de construção e a vulnerabilidade dos prédios. O alerta vermelho por vidas sai quando a estimativa chega a mil mortos.

O texto do PAGER resume a diferença: onde as construções tendem a desabar, o impacto aparece em mortos; onde a construção resistente a terremoto é comum, ele aparece mais em dinheiro. O Chile de 2010, com prejuízo de 30 bilhões de dólares e centenas de mortos, se encaixa no segundo grupo.

Prédio residencial alto tombado de lado e partido ao meio em Concepción, no Chile, com um edifício mais alto intacto ao fundo
Prédio de apartamentos tombado em Concepción depois do terremoto de magnitude 8,8 de 2010. O USGS anotou que a fundação era fraca para o tremor e que o edifício mais alto, atrás, não sofreu dano. Imagem: USGS, domínio público.

Porto Príncipe tem histórico. Pelo resumo tectônico do USGS, terremotos destruíram a cidade em 1751 e 1770, e as autoridades da época passaram a exigir construção em madeira e proibiram a alvenaria. Dois séculos depois, a cidade de 2010 era outra, e o tremor raso a encontrou de perto.

Até um tremor de 4,9 já matou no Brasil

Magnitude baixa não é garantia de nada, nem no Brasil. Em 9 de dezembro de 2007, um tremor de magnitude 4,9 a 10 km de profundidade, perto de Itacarambi, no norte de Minas Gerais, foi registrado pelo USGS.

A ficha do evento anota uma pessoa morta, seis feridos, 380 desalojados e 76 construções danificadas na área de Itacarambi, Januária e Manga. É um tremor que solta umas 700 mil vezes menos energia que o do Chile. O terremoto chileno, aliás, chegou a ser sentido em São Paulo e no Sul do país.

Existe terremoto de magnitude 10?

A escala não tem teto no papel, mas a Terra tem. O USGS calcula que seria preciso uma falha de uns 14 mil km rompendo de uma vez para chegar a 10. Somando a energia de todos os terremotos dos últimos 110 anos, o resultado equivale a um único tremor de 9,95.

O maior do século 20 foi o do Chile de 1960, de magnitude 9,5, com cerca de 1.600 mortos no país e outros 200 levados pelo tsunami no Japão, no Havaí e nas Filipinas. Um de 10,5, diz o USGS, é muito improvável: precisaria de 80 mil km de falha, o dobro da volta da Terra.

Por que a conta de mortos do Haiti varia tanto

A ficha do USGS traz a estimativa oficial de 316 mil mortos no Haiti e avisa que outras estimativas apontam números bem menores, talvez abaixo de 100 mil. Por isso a comparação com o Chile aparece aqui como faixa, de 190 a 600 vezes, e não como um número fechado.

A intensidade máxima da tabela também é estimativa. Ela sai do mapa de tremor do USGS, montado com registros de aparelhos e relatos de quem sentiu, e não de uma medição em cada rua. Serve para comparar tremores, não para dizer o que aconteceu em cada casa.

Como ler a próxima manchete de terremoto

O USGS registra mais de 30 mil terremotos por ano, e cerca de 25 causam dano sério, feridos ou mortes. Na próxima vez que a manchete trouxer o número, vale olhar junto onde foi o centro, a que profundidade, se foi sob o mar ou sob uma cidade e como são as casas da região.

A magnitude é o ponto de partida, e o tamanho da tragédia sai da soma do resto.

Do mesmo jeito, o tsunami meteorológico de Laguna mostrou que nem toda onda gigante vem de um tremor. E o planeta segue se mexendo por dentro, como mostram o núcleo que muda o giro da Terra e o vulcão que formou Fernando de Noronha.

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