Ciência

Mercúrio tem dia solar de 176 dias terrestres, diz a NASA

Um dia em Mercúrio, de um nascer do Sol ao seguinte, passa de cinco meses terrestres e equivale a dois anos do próprio planeta. Em alguns pontos, o Sol sobe, desce e volta a subir no mesmo amanhecer. A conta fecha com três números da NASA: 59, 88 e 176.

Planeta cinza com crateras sobre fundo preto: Mercúrio tem dia solar de 176 dias terrestres, segundo a NASA

Mercúrio em imagem de cores realçadas da sonda MESSENGER, tirada em 2008. Foto: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington, Wikimedia Commons, domínio público, recortada.

Um dia solar em Mercúrio, de meio-dia a meio-dia, dura 176 dias terrestres, ou dois anos do planeta. O número está na página de fatos da NASA e na ficha da missão BepiColombo da Agência Espacial Europeia. O ano de lá tem só 88 dias terrestres.

A NASA diz que Mercúrio gira uma vez em torno do próprio eixo a cada 59 dias terrestres. Se o planeta dá uma volta em 59 dias, por que o dia dura 176? A resposta está numa subtração simples, e o resultado muda o jeito de pensar em dia, ano e aniversário.

Mercúrio tem dia solar maior que o próprio ano

A órbita de Mercúrio leva 88 dias terrestres, e o dia solar leva 176. O ano de lá dura meio dia. Quem nascesse no planeta faria dois aniversários antes de o primeiro dia terminar, e ainda sobraria tempo para soprar velas.

A conta ganha data no calendário daqui. Um dia solar de Mercúrio que começasse hoje, 13 de outubro de 2026, só fecharia em 7 de abril de 2027. A soma dos 176 dias é da redação, a base é o número da NASA.

Para medir o tamanho da esquisitice, vale pôr os vizinhos lado a lado. Vênus tem um dia ainda mais longo, e a Terra serve de régua.

PlanetaDuração do diaDuração do anoRelação
Mercúrio176 dias terrestres (dia solar)88 dias terrestreso dia é o dobro do ano
Vênus243 dias terrestres225 dias terrestreso dia é 8% maior que o ano
Terra23,9 horas (uma rotação)365,25 diaso ano é muito maior que o dia

Arte: Watts & Wild, com dados da NASA e da ESA. A conta do dobro (176 dividido por 88) e dos 8% (243 dividido por 225) é da redação. Em Mercúrio e Vênus, dia é o ciclo completo de dia e noite; na Terra, a tabela usa o tempo de uma rotação, como a NASA.

Por que 59 dias de rotação viram 176 de dia

Dia solar é o tempo entre dois momentos em que o Sol aparece no mesmo ponto do céu. Para isso, o planeta precisa girar e ainda compensar o quanto andou na órbita. Na Terra, essa compensação é pequena: a NASA conta 23,9 horas de rotação, e o dia do calendário tem 24.

Em Mercúrio, a rotação é lenta e o planeta corre na órbita, então a compensação pesa. A ESA resume assim: Mercúrio gira três vezes a cada duas voltas ao redor do Sol. Três rotações menos duas órbitas dão um dia solar.

Os números arredondados batem de perto. Três rotações de 59 dias somam 177, e duas órbitas de 88 dias somam 176. O intervalo de 176 dias terrestres contém três giros do planeta, mas só um ciclo completo de dia e noite.

O dia em que o Sol nasce, se põe e nasce de novo

A NASA descreve um efeito que parece defeito de simulador. Quando Mercúrio está mais perto do Sol, e portanto na maior velocidade da órbita, cada rotação deixa de trazer um nascer e um pôr do Sol como nos outros planetas.

Em algumas regiões da superfície, o Sol da manhã sobe um pouco, se põe e sobe de novo. O mesmo acontece ao contrário no fim do dia, para outras regiões. A página não diz onde fica cada ponto, e a redação não completa essa lacuna.

A leitura da redação, a partir da frase da NASA, é que por alguns dias o movimento do planeta na órbita ganha do giro dele e o Sol parece andar para trás no céu. Quem estivesse lá veria o amanhecer hesitar.

Um planeta pequeno que corre a 47 quilômetros por segundo

A velocidade ajuda a entender a confusão no céu. Segundo a NASA, Mercúrio atravessa o espaço a quase 47 km por segundo, mais rápido que qualquer outro planeta, e dá a volta no Sol em 88 dias.

A órbita é um ovo achatado: ora a 47 milhões de km do Sol, ora a 70 milhões. A 47 km/s, o planeta percorre cerca de 4 milhões de km a cada dia terrestre. Essa multiplicação é da redação, com o dado da NASA.

Bacia Caloris em Mercúrio vista de cima, região circular cinza com crateras pequenas e manchas claras de raios de impacto
A bacia Caloris, com 1.550 km de diâmetro, em mosaico de imagens da sonda MESSENGER. Foto: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington, Wikimedia Commons, domínio público, recortada.

O planeta em si é pequeno. A NASA conta um raio de 2.440 km, pouco mais de um terço da largura da Terra. Se a Terra fosse uma moeda de cinco centavos americana, Mercúrio seria um mirtilo. A foto acima mostra a bacia Caloris, que tem 1.550 km de ponta a ponta.

Sol três vezes maior e luz sete vezes mais forte

Da superfície de Mercúrio, o Sol aparece mais de três vezes maior do que da Terra, segundo a NASA, e a luz chega até sete vezes mais forte. Em média, o planeta fica a 58 milhões de km da estrela, e a luz leva 3,2 minutos para cobrir a distância.

No outro extremo do sistema solar, a matéria sobre a luz do Sol em Netuno faz a conta inversa. Nos dois casos, o dia depende de uma distância, e o Sol deixa de ser a estrela que a gente vê da Terra.

Para a escala do astro que manda nesse relógio, a matéria sobre quantas Terras cabem dentro do Sol traz a conta de volume e massa.

430 graus de dia, menos 180 de noite

Sem atmosfera para segurar o calor, a superfície vai de 430 °C durante o dia a menos 180 °C à noite, informa a NASA. A diferença é de 610 graus, conta da redação. E a noite de Mercúrio é longa, porque o dia solar inteiro tem 176 dias.

O planeta mais perto do Sol, porém, não é o mais quente. A NASA e a ESA dão esse título a Vênus, que tem atmosfera densa para reter o calor. A ESA diz que a temperatura média de Mercúrio é menor que a de Vênus.

Mesmo assim, há gelo em Mercúrio. A NASA e a ESA dizem que água congelada pode existir nos polos, dentro de crateras fundas onde o Sol nunca chega. A sombra permanente protege o gelo do calor do lado iluminado.

Sem estações: o eixo quase em pé

O eixo de Mercúrio tem inclinação de só 2 graus em relação à órbita, segundo a NASA. O planeta gira quase na vertical e não tem estações. A Terra tem 23,4 graus de inclinação, e é essa diferença que traz verão e inverno.

Cratera Debussy em Mercúrio, com sistema de raios claros espalhados pela superfície cinza
A cratera Debussy, de onde saem raios claros de material lançado pelo impacto, em imagem da MESSENGER de outubro de 2008. Foto: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution of Washington, Wikimedia Commons, domínio público, recortada.

A superfície onde esse dia comprido passa lembra a da Lua, marcada por crateras de colisões com meteoroides e cometas, descreve a NASA. As faixas claras da foto acima são raios de cratera: material triturado e lançado longe no impacto.

Fragmentos finos refletem mais luz que pedaços grandes, e por isso os raios brilham. O vento solar e a poeira do espaço escurecem os raios com o tempo, diz a NASA.

Vênus vai além: o dia dura mais que o ano

Em Vênus, segundo a NASA, o dia tem 243 dias terrestres e o ano tem 225. O dia é maior que o ano, e do nascer ao pôr do Sol passam 117 dias terrestres. O Sol nasce no oeste, porque o planeta gira ao contrário.

A comparação mostra que Mercúrio fica num meio-termo estranho. O dia de lá é o dobro do ano, mas o Sol ainda nasce no lado certo, ainda que às vezes hesite. Em Vênus, o amanhecer vem do lado errado.

A partir de 21 de novembro, a BepiColombo chega para olhar

Segundo a ficha da ESA, as sondas MPO e Mio entram em órbita de Mercúrio em 21 de novembro de 2026. A ficha lista a separação do módulo de transferência em 3 de setembro. A BepiColombo será a terceira missão a visitar o planeta e a segunda a entrar em órbita.

A primeira foi a Mariner 10 da NASA, que passou por Mercúrio três vezes entre 1974 e 1975. A segunda foi a MESSENGER, que orbitou o planeta de 2011 a 2015 e fez as imagens que aparecem aqui. O que cada sonda vai fazer está em a matéria sobre a chegada da BepiColombo.

Entrar em órbita ali é difícil. A ESA diz que a gravidade do Sol exige ainda mais energia do que enviar uma missão a Plutão. A sonda chega, assim, a um planeta onde o dia de nascer a nascer do Sol dura 176 dias terrestres.

O que os números da NASA não resolvem

Os valores de 59, 88 e 176 dias são arredondados. Com eles, a conta de dia solar dá cerca de 179 dias, e não 176. A diferença vem do arredondamento: o valor oficial usa períodos com casas decimais, que a página da NASA não traz e a redação não conferiu em outra fonte.

Também fica de fora o mapa de quais pontos veem o Sol nascer duas vezes. A NASA descreve o efeito, mas não localiza onde ele acontece. A explicação do Sol andando para trás é leitura da redação, e não frase da agência.

As datas da BepiColombo vêm de uma ficha da ESA publicada antes da chegada e podem mudar. Quem quiser acompanhar deve olhar a página da missão da ESA, que lista a entrada em órbita em 21 de novembro e a separação das duas sondas em 9 e 10 de dezembro de 2026.

Fontes: NASA Science, Mercury: Facts. NASA Science, Venus: Facts. NASA Science, Earth: Facts. ESA, BepiColombo factsheet.

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