A maré vermelha que já mudou a cor do mar em Alagoas, Pernambuco e São Paulo pode ser floração natural de microalgas, mas espécies como a Dinophysis liberam toxina que contamina peixe e marisco
A maré vermelha muda a cor do mar quando microalgas se multiplicam, um fenômeno que pode ser inteiramente natural. O problema aparece quando a floração envolve espécies como a Dinophysis, que liberam toxina e contaminam peixe e marisco. Alagoas, Pernambuco e São Paulo já registraram os dois tipos de episódio.
Floração de microalgas deixa a água rosada em Airlie Beach, na Austrália, o mesmo fenômeno conhecido no Brasil como maré vermelha. Foto: John Robert McPherson/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
Em 1º de fevereiro de 2024, a água da Praia de Carro Quebrado, em Barra de Santo Antônio (AL), ficou com um tom avermelhado. Quase 200 banhistas procuraram atendimento médico com náusea, diarreia e irritação nos olhos, segundo o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA).
O episódio é um exemplo de maré vermelha, nome popular para a floração repentina de microalgas que muda a cor da água do mar. Para o IMA, trata-se de um evento natural e recorrente na costa, não necessariamente ligado a esgoto ou poluição.
Nem toda maré vermelha é sinal de contaminação. A cor muda porque microalgas se multiplicam de forma natural. O risco aparece só quando a floração envolve espécies como a Dinophysis, que produzem toxina e podem contaminar quem come peixe ou marisco no período, segundo institutos ambientais oficiais.
O que é a maré vermelha e por que a cor do mar muda
Maré vermelha é o nome popular para um fenômeno oceanográfico chamado floração de algas: quando microalgas marinhas se multiplicam em grande número num curto período, a água ganha um tom diferente, que pode ser vermelho, rosa, marrom ou esverdeado.
Pigmentos dentro das células das microalgas absorvem luz para fazer fotossíntese, e é esse pigmento concentrado em massa que colore a água, como mostra a floração cor de rosa registrada em Airlie Beach, na Austrália, um exemplo do mesmo fenômeno fora do Brasil.
Por que a floração pode ser um fenômeno natural, sem veneno nenhum
Segundo o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA), a maré vermelha é um evento natural, que ocorre tanto no mar quanto em ambientes de água doce sempre que há aumento repentino de nutrientes na água, combinado a temperatura e luminosidade favoráveis.
Pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco (Semas-PE), o biólogo Múcio Banja descreveu um episódio parecido, observado em Tamandaré e Ipojuca em 2024: "a Maré Vermelha é um evento natural ocasionado pelas microalgas, comum e que acontece com periodicidade" na costa.
Quando a floração passa a liberar toxina e virar risco à saúde
O mesmo Semas-PE explica que, durante a fotossíntese das microalgas causadoras da maré vermelha, "são liberados elementos tóxicos que contaminam animais marinhos, moluscos e quem entra em contato com a água", o que separa uma floração inofensiva de uma perigosa.
Essa diferença está na espécie de microalga envolvida. O ciliado Mesodinium rubrum, por exemplo, não produz toxina, mas costuma servir de alimento para a Dinophysis, um dinoflagelado que produz uma substância capaz de causar intoxicação em quem consome peixe ou marisco contaminado, segundo o Cebimar-USP.
O episódio na Praia de Carro Quebrado, em Alagoas, que levou quase 200 banhistas ao médico
Em 1º de fevereiro de 2024, a Praia de Carro Quebrado, no município de Barra de Santo Antônio, no litoral norte de Alagoas, registrou 191 pessoas atendidas com sintomas de intoxicação por algas marinhas, segundo o jornal Extra de Alagoas.
No dia seguinte, o número de atendimentos subiu para 245 pessoas, com enjoo, diarreia, irritação nos olhos e falta de ar. A orientação oficial é esperar de 12 a 48 horas antes de voltar ao mar sempre que a água mudar de cor de repente.
A maré vermelha observada em Tamandaré e Ipojuca, no litoral sul de Pernambuco
Ainda em 2024, moradores e turistas relataram um fenômeno parecido nos municípios de Tamandaré e Ipojuca, no litoral sul de Pernambuco, com manchas na água e cheiro forte, semelhante ao do gás de cozinha, típico da maré vermelha.
Para quem mora na região, a Semas-PE recomendou evitar praias com manchas na água ou esse odor característico, já que o contato pode causar dor de cabeça, náusea e irritação na pele, além do risco de intoxicação para quem consumir peixe ou marisco contaminado ali.
A maré vermelha de janeiro de 2025 no litoral norte de São Paulo
No litoral norte de São Paulo, entre São Sebastião e Ilhabela, satélites do Inpe registraram uma mancha na água a partir de 10 de janeiro de 2025, que se estendeu até o arquipélago de Alcatrazes, segundo reportagem da CNN Brasil.
A pesquisadora Áurea Ciotti, do Centro de Biologia Marinha da USP (Cebimar), identificou o organismo responsável como o Mesodinium rubrum, que não produz toxina, mas serve de alimento para a Dinophysis, o que torna seu monitoramento um alerta preventivo.
O embargo de 2016 que proibiu a venda de ostras e mexilhões em São Paulo
Nem sempre a floração é tão inofensiva. Entre maio e julho de 2016, uma floração tóxica de Dinophysis atingiu todo o litoral entre Santa Catarina e São Paulo e levou à primeira proibição comercial da produção e do consumo de ostras e mexilhões no estado, segundo o Cebimar-USP.
Essa proibição só foi suspensa depois que a Vigilância Sanitária confirmou, em testes de laboratório, que o nível de toxina nos moluscos já estava dentro do limite considerado seguro para consumo, o mesmo critério técnico usado até hoje nesses episódios.
Por que os moluscos são os animais mais expostos à toxina da maré vermelha
Mexilhões, ostras e outros moluscos bivalves se alimentam filtrando a água do mar, o que os torna os animais que mais acumulam a toxina das microalgas em seu próprio corpo, segundo o Grupo Integrado de Aquicultura e Estudos Ambientais (GIA).
Desde 2012, o Programa Nacional de Controle Higiênico-Sanitário de Moluscos Bivalves obriga o monitoramento de ficotoxinas na água e nos moluscos cultivados no Brasil, e áreas de cultivo já foram interditadas em Santa Catarina quando o limite de segurança foi ultrapassado.
O que fazer se a água do mar mudar de cor de repente?
A distinção entre uma floração tóxica e uma inofensiva não dá para fazer a olho nu. Por isso, órgãos ambientais recomendam, antes de tudo, não entrar na água enquanto a mancha ou a coloração diferente estiver visível, mesmo que pareça inofensiva.
Vale também evitar consumir peixe e marisco de pesca própria colhidos na área durante o episódio e ficar atento a comunicados de institutos como o IMA, a Semas-PE e a Vigilância Sanitária, que costumam liberar o local assim que os testes de toxina derem negativo.
O litoral brasileiro guarda outros episódios em que a água ou os bichos do mar surpreendem quem está na praia, como o ciclo de desova das tartarugas marinhas e os golfinhos que caçam tainha perto da Praia de Gaibu, em Pernambuco.
Outro risco comum no litoral é o contato com a água-viva e a caravela-portuguesa, que também deixam marca na pele, mas por um mecanismo bem diferente do das microalgas da maré vermelha.
A maré vermelha não é o mesmo fenômeno que faz o mar brilhar à noite
Vale separar bem os dois fenômenos: a maré vermelha muda a cor da água durante o dia, sob luz do sol, por causa do pigmento das microalgas em alta concentração, e pode ou não ser tóxica, dependendo da espécie envolvida.
Já a bioluminescência marinha, causada por um organismo diferente chamado Noctiluca, aparece de noite como um brilho azul na arrebentação e não é tóxica, segundo o Cebimar-USP. É esse o fenômeno por trás do brilho azul já registrado em praias de São Paulo e Santa Catarina.
O que fica registrado sobre a maré vermelha no litoral brasileiro
Ao todo, a maré vermelha é um fenômeno recorrente na costa do Brasil, do Nordeste ao Sudeste, e a ciência já consegue separar quando ela é só um espetáculo da natureza e quando ela exige cautela, dependendo da espécie de microalga envolvida.
Você já viu ou sentiu o cheiro de uma maré vermelha em alguma praia do Brasil? Conte sua experiência nos comentários.



