Animais e natureza

Água-viva e caravela-portuguesa queimam banhistas nas praias do Rio Grande do Sul e de outros estados do litoral brasileiro, e a urina, indicada por tradição popular, não tem comprovação para tratar a queimadura

Água-viva e caravela-portuguesa são animais marinhos comuns no verão brasileiro, com registros de milhares de queimaduras só no litoral gaúcho na última temporada. A urina, receita repetida havia gerações nas praias, não tem base científica, segundo o Ministério da Saúde e o Conselho Federal de Biologia.

água-viva Lychnorhiza lucerna fotografada em aquário, espécie comum no litoral do Brasil

Água-viva da espécie Lychnorhiza lucerna, comum no litoral brasileiro, fotografada em aquário. Foto: JSutton93/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Água-viva e caravela-portuguesa aparecem em praias de todo o litoral brasileiro durante o verão e deixam queimaduras dolorosas nos banhistas que encostam nos tentáculos. A urina, indicada havia gerações como remédio caseiro de praia, não tem comprovação científica segundo o Ministério da Saúde e pode até piorar a dor, em vez de aliviar o ferimento.

Água-viva e caravela-portuguesa pertencem ao filo Cnidaria e vivem à deriva nas correntes marinhas, o que as leva às praias do Brasil em certas épocas do ano. Quando um tentáculo encosta na pele, libera uma peçonha que causa ardência e dor intensa, segundo o Ministério da Saúde.

No litoral do Rio Grande do Sul, o Corpo de Bombeiros Militar contabilizou perto de 6 mil queimaduras por água-viva até o início de janeiro da última temporada, segundo o portal A Hora do Sul.

Mesmo com esse volume, a urina segue passada de guarda-sol em guarda-sol como se funcionasse. Nenhum órgão de saúde brasileiro recomenda o uso.

O que é a água-viva que aparece nas praias do Brasil

A água-viva, ou medusa, é um animal gelatinoso e de corpo transparente que vive livre na água, sem se prender a rochas ou ao fundo do mar. No litoral brasileiro, uma das espécies mais registradas é a Lychnorhiza lucerna, de guarda-chuva esbranquiçado e braços curtos.

Esses animais não perseguem o banhista: eles apenas flutuam levados pela correnteza e pelo vento, e o contato costuma ser acidental. O ferrão só entra em ação quando algo toca os tentáculos, mesmo que a água-viva já esteja morta na areia.

A caravela-portuguesa não é uma água-viva de verdade

A caravela-portuguesa (Physalia physalis) é confundida com água-viva por causa do corpo transparente e dos tentáculos longos, mas tem outra origem: é uma colônia de pólipos que vivem juntos, e não um único animal, segundo o Conselho Federal de Biologia (CFBio).

A parte visível fora da água é uma bolsa cheia de gás que funciona como vela, o que dá o nome popular ao animal. Embaixo da bolsa ficam os tentáculos, que podem se estender por vários metros à procura de pequenos peixes.

Caravela-portuguesa (Physalia physalis) encalhada na areia, com a bolsa de gás e os tentáculos visíveis
Caravela-portuguesa (Physalia physalis) encalhada na areia; a bolsa de gás funciona como uma vela que a leva pelo vento. Foto: Fernando Losada Rodríguez/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Como funciona o ferrão que causa a queimadura

Os tentáculos de águas-vivas e caravelas carregam milhões de células chamadas nematocistos, cada uma com um filamento enrolado sob pressão. Ao encostar em algo, o filamento dispara e injeta a peçonha na pele, explica o CFBio.

A dor pode durar de 30 minutos a 24 horas, segundo o Ministério da Saúde, e em casos mais fortes vem acompanhada de dor de cabeça, mal-estar, náuseas e, raramente, espasmos musculares ou alterações no ritmo do coração.

Por que essas queimaduras se concentram no verão no litoral gaúcho

No Rio Grande do Sul, os relatos de queimadura por água-viva costumam se acumular entre dezembro e fevereiro, período de maior movimento de banhistas e também de correntes que empurram os animais para perto da areia.

Durante a temporada, as guaritas de salvamento do litoral passam a manter vinagre à mão e usam a bandeira roxa para avisar quando há concentração grande de água-viva ou caravela no mar, prática registrada por veículos do litoral gaúcho.

Quantos casos foram registrados nas praias do Rio Grande do Sul

Na última temporada de verão, o Corpo de Bombeiros Militar gaúcho contabilizou 5.279 queimaduras por água-viva só no Cassino, em Rio Grande, segundo A Hora do Sul. O balanço, fechado no início de janeiro, ainda somava 388 casos no Hermenegildo, em Santa Vitória do Palmar.

Outras praias do litoral sul também entraram na conta: 128 registros no Mar Grosso, em São José do Norte, 111 em Tavares e 86 na Barra do Chuí, no mesmo levantamento do Corpo de Bombeiros divulgado pelo portal.

Caravela-portuguesa na areia com o mar ao fundo, cenário comum em praias do litoral brasileiro no verão
Caravela encalhada perto da arrebentação; animais assim costumam aparecer na faixa de areia após ressacas. Foto: Gilsond dos Santos/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

A urina não tem comprovação científica contra a queimadura, segundo o Ministério da Saúde

A resposta é direta: não há comprovação médica de que a urina alivie a queimadura de água-viva. O CFBio classifica o costume como um relato não científico e desaconselha o uso, já que não existe estudo que sustente qualquer efeito sobre a peçonha.

O Ministério da Saúde vai além e alerta que substâncias como álcool e urina podem estimular a liberação de mais peçonha pelas células dos tentáculos que ainda não descarregaram, piorando a dor em vez de aliviar.

O que o Ministério da Saúde e o Corpo de Bombeiros recomendam fazer

A orientação do Ministério da Saúde é sair da água, lavar o local com água do mar gelada ou compressas frias e, na sequência, lavar a região com ácido acético a 5%, presente no vinagre comum.

Água doce nunca deve ser usada na lavagem, porque pode estimular novas descargas de peçonha por diferença de concentração, segundo o Ministério da Saúde e o CFBio, que reforçam ainda evitar esfregar a área com toalha ou areia.

Quando é preciso procurar atendimento médico?

A orientação oficial vale para casos leves, com dor e vermelhidão localizadas. Se a queimadura cobrir uma área grande do corpo, atingir o rosto, ou vier acompanhada de falta de ar, inchaço muito forte ou mal-estar geral, o socorro deve ser médico.

Nesses casos, o Ministério da Saúde recomenda procurar o pronto-socorro ou acionar o Corpo de Bombeiros pelo 193, principalmente quando a vítima é criança, idoso ou tem histórico de alergia grave.

Uma revisão internacional levanta dúvida até sobre o vinagre

Uma revisão sistemática da Cochrane, organização internacional que reúne e avalia estudos científicos, comparou tratamentos para queimadura de caravela-portuguesa e achou evidência de que a água quente reduz mais a dor do que a compressa de gelo, em um estudo com 96 participantes.

A mesma revisão aponta que o vinagre teve resultado pior do que a água quente para a aparência da pele em outro teste, mas destaca que a evidência ainda é de baixa qualidade, segundo a Cochrane.

A própria revisão diz que o resultado pode não valer para todas as espécies de água-viva. Diante da divergência, a recomendação mais segura no litoral brasileiro continua sendo seguir o protocolo do Ministério da Saúde e do Corpo de Bombeiros local.

O que fazer para evitar o contato na praia

A prevenção mais simples é perguntar ao guarda-vidas sobre a presença de água-viva ou caravela antes de entrar no mar, já que eles acompanham a movimentação diária dos animais na faixa de areia.

A bandeira roxa, usada em pontos do litoral gaúcho e de outros estados, sinaliza justamente essa presença. Vale evitar banho em áreas onde animais encalhados aparecem com frequência na areia, mesmo que pareçam mortos.

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Quem passa temporada no litoral também costuma se interessar por outros registros de fauna marinha, como os golfinhos que apareceram perto da Praia de Gaibu, o polvo que imita uma cobra-do-mar e o tsunami meteorológico que atingiu o litoral catarinense.

Você já viu água-viva ou caravela-portuguesa numa praia do Brasil? Conte como foi nos comentários.

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