Da subida da fêmea à praia até a eclosão dos filhotes: como funciona o ciclo de desova das tartarugas marinhas monitorado pelo Projeto Tamar no litoral brasileiro
Entre setembro e março, tartarugas marinhas sobem às praias do Brasil para desovar. O ciclo, acompanhado pelo Projeto Tamar, vai da escolha da praia pela fêmea até a corrida dos filhotes para o mar, semanas depois.
Filhotes de tartaruga marinha momentos depois de saírem do ninho. Foto: National Marine Sanctuaries/Wikimedia Commons (domínio público), imagem recortada para 16:9.
O litoral brasileiro entra na temporada de desova das tartarugas marinhas entre setembro e março, quando fêmeas sobem à praia à noite para enterrar os ovos; cerca de 45 a 60 dias depois, os filhotes eclodem e correm para o mar, sob monitoramento do Projeto Tamar, ligado ao ICMBio, em cinco estados do país
Entre setembro e março, cinco espécies de tartarugas marinhas sobem às praias do litoral brasileiro para desovar, segundo o Projeto Tamar, fundação que atua junto ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O ciclo começa com a escolha da praia pela fêmea e termina, semanas depois, com os filhotes recém-nascidos entrando no mar.
O acompanhamento da temporada acontece em bases do Tamar espalhadas por Rio Grande do Norte, Sergipe, Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro, onde técnicos marcam ninhos, contam ovos e orientam banhistas sobre o comportamento correto perto das áreas de desova.
Cada fêmea pode desovar de três a 13 vezes numa mesma temporada, em ninhos com cerca de 120 ovos e intervalos de 9 a 21 dias entre uma postura e outra. A incubação dura entre 45 e 60 dias, e a temperatura da areia decide se nascem mais fêmeas ou mais machos, segundo o Projeto Tamar.
Como a fêmea escolhe a praia e sai da água para desovar
A fêmea costuma retornar à mesma praia onde nasceu décadas antes, comportamento que os pesquisadores chamam de filopatria. Ela deixa o mar à noite, cruza a faixa de areia e procura um ponto acima da linha das marés, longe de raízes e luzes fortes.
Esse trajeto entre o mar e o local do ninho é o momento mais vulnerável da tartaruga adulta, porque ela fica lenta e exposta fora da água. Qualquer luz ou movimento próximo pode fazer a fêmea desistir e voltar ao mar sem desovar, segundo o Projeto Tamar.
O que acontece durante a postura dos ovos na areia
Com as nadadeiras traseiras, a fêmea cava um buraco em forma de jarro, mais largo no fundo do que na entrada. Ali ela deposita, em média, 120 ovos esféricos do tamanho de uma bolinha de tênis de mesa, com casca calcária flexível.
Essa casca maleável evita que os ovos se quebrem na queda dentro do ninho, segundo o Projeto Tamar. Depois da postura, a tartaruga cobre o buraco com areia e volta ao mar, sem qualquer cuidado posterior com a prole.
Quantas vezes a mesma tartaruga desova na temporada
Dependendo da espécie, cada fêmea desova de três a 13 vezes durante a mesma temporada reprodutiva, com intervalos de 9 a 21 dias entre uma postura e a seguinte, de acordo com o Projeto Tamar.
Esse padrão explica por que o mesmo trecho de praia pode registrar vários ninhos da mesma tartaruga em poucas semanas, e por que as equipes do Tamar retornam à mesma área diversas vezes por temporada para monitorar.
Quanto tempo os ovos ficam enterrados até a eclosão
A incubação varia entre 45 e 60 dias, contados da postura até o nascimento, segundo o Projeto Tamar. O tempo exato depende do calor da areia, que oscila com a exposição ao sol, a sombra da vegetação e a chuva.
Areia mais quente acelera o desenvolvimento dos embriões, e areia mais fria estende a incubação para perto do limite máximo. Por isso, ninhos vizinhos na mesma praia podem eclodir em dias diferentes mesmo postos na mesma semana.
Por que a temperatura da areia decide o sexo dos filhotes?
O calor do ninho não afeta só a velocidade da incubação: ele também determina o sexo dos filhotes. Temperaturas acima de 30°C produzem mais fêmeas, e temperaturas abaixo de 29°C produzem mais machos, segundo o Projeto Tamar.
Entre esses dois valores, o ninho tende a gerar uma mistura de machos e fêmeas. É esse mecanismo, chamado determinação sexual dependente da temperatura, que torna a areia da praia um fator tão decisivo quanto qualquer gene.
Como os filhotes emergem do ninho e correm para o mar
Ao romper o ovo, os filhotes não sobem sozinhos: eles cavam juntos, em movimentos sincronizados, até alcançar a superfície da areia, segundo o Projeto Tamar. A saída do ninho costuma ocorrer à noite, quando a areia esfria.
Assim que emergem, correm em grupo direto para a água, guiados pela luminosidade do horizonte sobre o mar. Em dias nublados ou chuvosos, quando a areia esfria mais cedo, esse nascimento também pode acontecer durante o dia.
O que o banhista deve e não deve fazer na época de desova
O Projeto Tamar orienta a não usar luz forte nem flash perto de ninhos e fêmeas na praia, porque a luz artificial é uma das principais ameaças ao ciclo de vida das tartarugas marinhas, desorientando filhotes e afastando fêmeas.
A orientação inclui ainda manter distância de fêmeas desovando, nunca tocar em filhotes recém-nascidos nem carregá-los até o mar, respeitar as estacas numeradas que marcam ninhos protegidos e evitar veículos e cães soltos nas áreas de desova.
Quais praias brasileiras o Projeto Tamar monitora
O ICMBio mantém o Centro Tamar em 22 localidades de oito estados do litoral e de ilhas oceânicas. Entre as áreas monitoradas estão praias do Rio Grande do Norte, de Sergipe, da Bahia, do Espírito Santo e do Rio de Janeiro.
Sergipe concentra a maior parte dos ninhos de tartaruga-oliva do país, e a Bahia abriga a base histórica do projeto, em Praia do Forte. Nessas regiões, as equipes percorrem a areia diariamente, um trabalho parecido com o que registrou a bolsa de sereia posta por um tubarão-lixa em Fernando de Noronha, outro flagrante de reprodução marinha no litoral brasileiro.
Por que a luz artificial atrapalha tanto as tartarugas marinhas?
Os filhotes recém-saídos do ninho se orientam pela luminosidade natural do horizonte sobre o mar, mais clara do que o restante da paisagem à noite. Luzes de casas, postes e carros na orla competem com esse sinal e confundem o caminho.
Quando isso acontece, filhotes desorientados caminham para longe da água, ficam expostos a predadores e ao calor do sol nascente, ou morrem de exaustão antes de alcançar o mar, alerta o Projeto Tamar.
Nem todo ninho chega até a eclosão
Mesmo com o monitoramento do Tamar, nem todo ninho resulta em filhotes no mar. Erosão da praia, ressacas, raízes, predadores naturais e a proximidade de pessoas e animais domésticos podem destruir ovos antes da eclosão.
Por isso o trabalho das equipes não termina na marcação do ninho: elas voltam a cada temporada para acompanhar taxas de eclosão e remanejar ninhos em risco, o mesmo tipo de dado de longo prazo que ajudou a confirmar o tilcayo, felino novo descoberto na Bolívia.
Passada a eclosão, o ciclo recomeça: as fêmeas que sobreviverem até a fase adulta, daqui a décadas, deverão voltar à mesma praia onde nasceram para desovar, um percurso que o Projeto Tamar documenta desde a década de 1980, no mesmo espírito de monitoramento de longo prazo que também acompanhou a onça-pintada Manchita no Parque Nacional do Iguaçu.
Você já viu um ninho de tartaruga marcado numa praia brasileira ou acompanhou de perto a soltura de filhotes? Conte sua experiência nos comentários.



