As dunas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, no litoral do Maranhão, são formadas pela areia trazida por rios e pelo mar e avançam empurradas pelos ventos alísios de nordeste
A areia que forma os Lençóis Maranhenses vem dos rios e da plataforma continental do litoral maranhense, e os ventos alísios de nordeste a empilham em dunas de até 54 metros de altura. Elas mudam de formato e de lugar ano após ano, mais rápido no período seco do que no chuvoso.

Campo de dunas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, no Maranhão. Foto: Danielle Pereira/Wikimedia Commons (CC BY 2.0).
O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, no litoral do Maranhão, reúne um dos maiores campos de dunas móveis da América do Sul, com areia branca que o vento empurra sem parar. O motor é simples: muita areia disponível e vento forte o bastante para movê-la.
Boa parte da areia chega pelos rios da região e pelo litoral, segundo o plano de manejo do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, elaborado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O vento faz o resto, esculpindo formas que mudam de tamanho e de posição.
De onde vem a areia que forma as dunas dos Lençóis Maranhenses
A areia começa sua jornada nos rios que descem para o litoral maranhense, como o Preguiças e o Parnaíba, que carregam sedimentos até a costa. Parte dela também vem da plataforma continental interna, rasa e estreita nesse trecho do litoral.
Esse estoque se acumula na praia graças à deriva litorânea e à ação das ondas, segundo o plano de manejo do ICMBio. É um processo de acúmulo tão lento quanto o que ergueu outro marco geológico brasileiro, mostrado na reportagem sobre Fernando de Noronha, o topo de um vulcão extinto no Atlântico.

Como os ventos alísios de nordeste empilham a areia
Os ventos que sopram sobre os Lençóis Maranhenses vêm predominantemente do quadrante nordeste, segundo dados citados no plano de manejo do ICMBio. Na região do parque, a velocidade média chega a 8,3 metros por segundo no período seco.
Em rajadas, o vento seco pode superar 14 metros por segundo, forte o bastante para arrastar grãos de areia fina e média pela superfície. Esse fluxo constante de ar é o que transforma um monte de areia solta em duna organizada.
A duna em formato de lua crescente que domina a paisagem
A forma mais comum entre as dunas livres dos Lençóis Maranhenses é a barcana, um monte de areia em meia lua com o lado convexo virado para o vento. O plano de manejo do ICMBio descreve essa geometria a partir de estudos de campo na unidade.
O lado que recebe o vento tem declive suave, e o lado oposto cai de forma abrupta, com inclinação entre 10 e 50 graus. Essas barcanas surgem principalmente no período seco, quando o transporte de areia se intensifica.
As cadeias de barcanas, a forma mais comum dentro do parque
Quando várias barcanas se juntam lateralmente, formam as cadeias de barcanas, ou barcanóides, a feição mais comum entre as dunas livres do parque, segundo o ICMBio. Elas nascem pequenas perto dos lençóis de areia e crescem à medida que avançam.
Quanto maior a cadeia de barcanas fica, mais devagar ela se desloca, de acordo com o plano de manejo da unidade. É um padrão inverso ao que a intuição sugere: duna grande anda mais devagar, não mais rápido.
Dunas parabólicas e longitudinais: quando a vegetação muda o rumo
Nem toda duna dos Lençóis Maranhenses tem formato de lua crescente. As parabólicas surgem quando a vegetação ou a umidade prendem os braços de uma barcana, principalmente no período chuvoso, conforme o plano de manejo do ICMBio.
A vegetação funciona como um freio que inverte a curva da duna, de convexa para côncava. Já as longitudinais se formam nas laterais das barcanas durante a migração, alinhadas à direção do vento de nordeste.

Do monte de areia móvel ao gigante de até 54 metros
Essas cadeias de barcanas, tipo predominante no parque, variam de 5 a 54 metros de altura, conforme levantamento planialtimétrico citado no plano de manejo do ICMBio. É a diferença entre um morro de dois andares e um prédio de 18 andares.
As dunas fixas, cobertas por vegetação mais ao sul da unidade, são bem menores, de 2 a 10 metros. A vegetação trava o avanço da areia, um freio parecido com o que protege outro recorde natural do país: o jequitibá-rosa apontado como a árvore mais antiga do Brasil.
Por que as dunas avançam mais na seca do que na chuva?
No período de estiagem, o vento fica mais forte e a areia perde umidade, uma combinação que acelera bastante o transporte de sedimentos rumo ao campo de dunas, segundo o plano de manejo do ICMBio.
Na estação chuvosa acontece o oposto: a areia fica úmida, o vento perde força e a migração das dunas é praticamente interrompida. Onde as dunas livres tocam um rio, a erosão da água chega a recuar um pouco suas bordas.
O avanço das dunas não segue o mesmo ritmo em todo o parque
O plano de manejo do ICMBio comparou imagens de satélite de 1988 e 1998 e registrou migração baixa das dunas no interior do campo livre, mas avanço concentrado nas áreas de fronteira, no limite com as dunas fixas.
Esse mosaico de velocidades diferentes é a marca registrada do sistema: cada trecho do campo de dunas responde ao vento e à estação do ano de um jeito próprio, sem um ritmo único que valha para o parque inteiro.
Uma paisagem que se refaz sozinha, grão a grão
Essas dunas seguem o mesmo mecanismo há milhares de anos: areia trazida pelos rios e pelo mar, empilhada pelo vento alísio, esculpida em barcanas, cadeias, parabólicas e longitudinais.
As lagoas que aparecem entre essas mesmas dunas seguem outro ciclo, ligado à chuva e ao lençol freático, como mostra a reportagem sobre por que as lagoas dos Lençóis Maranhenses somem e voltam. Quem já visitou o parque em anos diferentes notou alguma duna fora do lugar que lembrava? Conte nos comentários.



