As lagoas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, entre Barreirinhas e Santo Amaro do Maranhão, enchem entre janeiro e julho e somem no resto do ano por causa da areia e do lençol freático raso
As lagoas surgem porque a chuva escorre pela areia solta até encontrar uma camada mais compacta no subsolo, que segura a água perto da superfície; entre janeiro e julho ela sobe, enche os vales entre as dunas, e depois some aos poucos com o sol e o vento da segunda metade do ano.

Lagoa entre as dunas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, no Maranhão. Foto: Bruno Lenharo/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, que se estende pelos municípios de Barreirinhas e Santo Amaro do Maranhão, é conhecido pelas lagoas de água doce que aparecem entre dunas de areia branca e depois somem quase por completo. O fenômeno se repete todo ano e tem explicação geológica, não é mistério.
Ele depende da chuva, do tipo de areia e da profundidade do lençol freático da região.
Segundo levantamento do Serviço Geológico do Brasil (SGB), órgão federal responsável pelo mapeamento geológico do país, o piso do campo de dunas é formado por rochas sedimentares da Formação Barreiras, cobertas por sedimentos arenosos de origem eólica muito permeáveis. Essa combinação é a base do ciclo que enche e esvazia as lagoas ano após ano.
O papel da areia porosa e do lençol freático raso
De acordo com o SGB, mais de 90% dos cerca de 2 mil milímetros de chuva que caem por ano na região, concentrados entre janeiro e julho, são absorvidos rapidamente pela areia solta da superfície. A água não escorre para os lados como em um terreno de argila, ela desce quase na vertical.
A água infiltrada encontra uma camada mais compacta perto da superfície e se acumula ali, elevando o nível do lençol freático até ele ultrapassar a superfície da areia nos pontos mais baixos, entre uma duna e outra. É nesses vales interdunares que a água aflora e forma as lagoas.
Quando as lagoas ficam cheias nos Lençóis Maranhenses
O período de chuvas concentradas, segundo o SGB, vai de janeiro a julho, e é nesses meses que o lençol freático sobe e as lagoas ganham volume. Muitas delas se conectam umas às outras pelos vales entre as dunas, formando corredores de água dentro do deserto de areia.
O ICMBio, instituto federal que administra o parque desde a criação da unidade, em 1981, trata a região como uma Unidade de Conservação de proteção integral, o que inclui regras específicas para visitação durante todo o ano, cheio ou seco.

Por que as lagoas secam na segunda metade do ano?
Com o fim do período mais chuvoso, o abastecimento de água some e o sol forte, típico do litoral maranhense, acelera a evaporação. O lençol freático volta a baixar, e as lagoas menores, mais rasas, são as primeiras a desaparecer.
As lagoas perenes, alimentadas por cursos de água que não dependem só da chuva recente, resistem por mais tempo. Ainda assim, a paisagem muda bastante entre o auge da cheia e o pico da seca, quando grande parte da área volta a ser só areia.
Os peixes e a vida aquática que reaparecem a cada ciclo
Um dos aspectos mais estudados do fenômeno é o reaparecimento de peixes nas lagoas logo depois de meses de areia seca. Pesquisas sobre a fauna aquática do parque associam esse retorno a ovos e formas de resistência que sobrevivem enterrados na areia úmida durante o período seco.
A vida aquática volta a aparecer assim que a água sobe de novo, o que reforça que o ciclo interdunar não é um evento isolado, mas um sistema que se repete e sustenta espécies adaptadas a ele há muito tempo.
Onde ficam os Lençóis Maranhenses e como se formaram as dunas
O parque fica no litoral do Maranhão, entre os municípios de Barreirinhas e Santo Amaro do Maranhão, a cerca de 260 quilômetros de São Luís. O acesso mais comum para quem visita a região é pela cidade de Barreirinhas, base de apoio para passeios até as dunas.
As dunas se formam pela ação combinada de ventos, correntes marítimas e marés, que empurram a areia da faixa costeira para o interior do continente ao longo do tempo, segundo o SGB.
Quem se interessa por outros pontos naturais raros do Brasil também pode conferir o caso da árvore mais antiga do Brasil, no interior de São Paulo, ou a trilha do Buraco das Araras, com seus mirantes naturais.
O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses e a gestão do ICMBio
A unidade foi criada em 2 de junho de 1981 e é administrada pelo ICMBio, órgão do governo federal responsável pelas unidades de conservação brasileiras. A categoria de parque nacional exige proteção integral do ecossistema, com visitação regulada.
A área reúne influências da Amazônia, do Cerrado e da Caatinga, segundo o SGB, o que explica a mistura de espécies encontrada tanto nas dunas quanto nas lagoas e nas áreas de mangue e restinga do entorno do parque.
A data exata da cheia muda de um ano para o outro
O calendário descrito pelo SGB, com chuvas concentradas entre janeiro e julho, é um padrão da região, não uma previsão fechada para cada lagoa em cada ano. O volume e a duração da cheia dependem do regime de chuvas de cada temporada, que varia de um ano para o outro.
Por isso quem planeja visitar o parque para ver as lagoas cheias deve conferir a previsão e as condições junto a fontes atualizadas antes da viagem, em vez de tomar um mês fixo como garantia. Outro destino natural que também depende de condições sazonais é a Cachoeira do Catoá, no Nordeste.
O que fica registrado sobre o ciclo das lagoas dos Lençóis Maranhenses
O ciclo que enche e esvazia as lagoas dos Lençóis Maranhenses se repete porque a geologia da região funciona como um mecanismo natural: areia porosa que absorve a chuva, lençol freático raso que aflora entre as dunas e um regime de chuvas concentrado em parte do ano.
É um fenômeno raro no mundo, mantido pelo ICMBio dentro de uma unidade de proteção integral. Quem já visitou os Lençóis Maranhenses em épocas diferentes do ano notou essa mudança de paisagem na prática? Conte nos comentários.




