Ciência

A compostagem caseira transforma casca de fruta, borra de café e folha seca em adubo em 9 a 16 semanas, desde que a mistura tenha a proporção certa de carbono e nitrogênio e a pilha chegue perto de 60 graus

O segredo de uma compostagem que não fede está numa conta simples: cerca de 30 partes de carbono para cada parte de nitrogênio. A cartilha da Embrapa explica como montar a pilha, medir a temperatura com uma barra de ferro e saber quando o adubo ficou pronto. Fizemos a conta da mistura.

Corte de uma composteira de madeira mostrando camadas de compostagem caseira, com cascas de ovo em cima e adubo escuro embaixo

Corte de uma composteira de madeira: material fresco em cima e composto escuro, já curado, embaixo. Foto: Bernard Dejean, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Para fazer compostagem caseira, alterne camadas de cerca de 20 cm de resto de cozinha e de material seco, como capim, folhas e palha, molhando cada camada. Comece e termine com palha. Revire quando a pilha esfriar ou esquentar demais. Esse é o método da Embrapa.

A conta do carbono e do nitrogênio

Os microrganismos que fazem o adubo precisam de carbono e de nitrogênio na medida certa. Segundo a cartilha, a mistura deve começar com relação perto de 30: 30 partes de carbono para cada parte de nitrogênio.

Resto de cozinha é rico em nitrogênio. Capim, folha seca, palha e serragem são ricos em carbono. Por isso as camadas se alternam.

Gráfico da relação carbono/nitrogênio de esterco, folhas, bagaço de laranja, borra de café, grama seca e palha de milho para compostagem caseira
Abaixo de 30, o material é rico em nitrogênio; acima, rico em carbono. A mistura certa fica perto de 30. Arte: Watts & Wild, com a tabela da Embrapa.

Quanto material seco misturar a cada resto

Com os teores da tabela da Embrapa, calculamos quanto de palha de milho ou de serragem leva cada material para perto de 30. Esterco de galinha pede sete vezes mais palha que bagaço de laranja, porque tem muito mais nitrogênio.

Para 1 kg (seco) de...Palha de milho secaOu serragem
Bagaço de laranja0,22 kg0,17 kg
Borra de café0,24 kg0,19 kg
Folhas de bananeira0,72 kg0,57 kg
Folhas de mandioca1,99 kg1,56 kg
Esterco de galinha1,54 kg1,21 kg

Conta do Watts & Wild com os teores de carbono e nitrogênio da tabela da Embrapa, em material seco. Resto de comida fresco tem muita água, então use como ordem de grandeza, não como receita exata.

A grama seca, com relação 31, já está quase no ponto e funciona sozinha como camada de equilíbrio. A serragem, com 865, é tão rica em carbono que basta pouca.

Como montar a pilha de compostagem caseira

A Embrapa recomenda um lugar reservado, perto de uma torneira, com terreno que escoe bem a água e espaço para revirar. Antes da primeira camada, solte a terra com a enxada. As ferramentas básicas são pá, carrinho de mão, mangueira, ancinho, enxada e um vergalhão de ferro.

A pilha não deve ser menor que 1 metro cúbico, ou seja, 1 metro de altura, largura e comprimento. Menor que isso, ela perde calor e a temperatura ideal não se mantém.

O termômetro de vergalhão

Termômetro espetado numa pilha de compostagem caseira marcando perto de 70 graus
Termômetro de composto na faixa quente, perto de 70 °C. A Embrapa indica cerca de 60 °C na fase inicial; acima disso, é hora de revirar. Foto: Bernard Dejean, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

No começo, a pilha deve ficar perto de 60 °C e depois cair para cerca de 40 °C. Sem termômetro, a cartilha ensina a enfiar uma barra de ferro até o centro e tocar com a palma da mão.

Se o calor for suportável, está no ponto. Se a mão não aguentar, revire. Se a barra estiver fria, a compostagem parou e também é hora de revirar, molhando se estiver seco. Na dúvida, revire uma vez por semana.

O que não vai para a composteira

Fique de fora: madeira tratada ou envernizada, vidro, metal, óleo, tinta, plástico, papel encerado e fezes de cachorro e gato. Gordura animal e restos de carne também devem ser evitados, porque demoram a se decompor e atraem bichos.

Se houver animais soltos por perto, a Embrapa sugere cercar a pilha com tela. Plantas de casa também pedem cuidado com os pets, como mostra o caso da comigo-ninguém-pode.

Quando a pilha não esquenta ou cheira mal

O aquecimento deve começar até o quinto dia. Se não começar, pode faltar resto de cozinha, e aí é preciso acrescentar mais e revirar. Se o problema for água demais, misture as partes secas de fora com o miolo e, se precisar, ponha capim seco.

Composto bem feito não atrai insetos nem solta mau cheiro, diz a cartilha. Se isso acontecer, a saída é revirar com mais frequência.

O teste do copo para saber se está pronto

O processo leva de 9 a 16 semanas, mais rápido no verão. O composto pronto é marrom-escuro, com cheiro de bolor, sem restos de planta à vista, e não volta a esquentar depois de revirado.

O teste da Embrapa: dois dedos de composto num copo, água até a boca e uma colher de café de amoníaco. Mexa e espere assentar. Líquido preto como tinta indica composto maduro; cor de chá ou café fraco indica composto cru.

O limite do método

A cartilha é de 2005 e foi pensada para quintal, com pilha de pelo menos 1 metro cúbico. Ela não trata de composteira de apartamento nem de minhocário. Composto imaturo não deve ir direto para as plantas: se for usar, misture à terra úmida 60 dias antes do plantio.

Picar os restos e variar os materiais acelera tudo. O resultado ajuda o solo a reter água, assunto que pesa nas cidades, como mostra o estudo sobre áreas verdes e calor extremo. Os microrganismos fazem o trabalho pesado.

Fontes: Embrapa, ficha da publicação; Embrapa, Compostagem caseira de lixo orgânico doméstico, Circular Técnica 76, 2005 (PDF). Gráfico e tabela de mistura: Watts & Wild.

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