Um estudo com 1.039 grandes cidades do mundo e 7.135 espécies de aves mostra que áreas urbanas mais verdes deixam os pássaros bem menos expostos aos dias de calor extremo, e que pouca área bem escolhida já faz diferença
O sabiá do parque e o bem-te-vi da avenida também sofrem com os dias acima de 35 °C. Uma equipe da China e dos Estados Unidos cruzou vinte anos de registros de observadores de aves com mapas de vegetação e mediu quanto o verde urbano protege os pássaros do calor.
Sabiá-laranjeira no Parque Ibirapuera, em São Paulo, em agosto de 2025. Foto: Boaventuravinicius/Wikimedia Commons, CC BY 4.0.
Cidades com mais área verde, ou com vegetação de melhor qualidade, deixam as aves de 23% a 34% menos expostas ao calor extremo. É o resultado de um estudo com 1.039 cidades publicado em 8 de setembro de 2026 na revista Nature Communications.
O que o estudo mediu em 1.039 cidades
O artigo, liderado por Jiayu Wu, da Universidade de Zhejiang, na China, com pesquisadores da Universidade da Flórida e de Yale, nos Estados Unidos, analisou 1.039 cidades com 500 mil habitantes ou mais, escolhidas a partir de dados da ONU.
Para as aves, a equipe usou o eBird, plataforma em que observadores de todo o mundo registram o que veem. Foram dados de março de 2001 a fevereiro de 2021, cobrindo 7.135 espécies, cerca de 66% das aves do planeta.
A vegetação foi medida por satélite com três indicadores: o índice de verde das plantas, a altura das copas e a biomassa acima do solo. Juntos, eles dizem não só quanto verde existe, mas também se ele é denso e alto.
Por que o calor extremo começa nos 35 °C para as aves
Os autores contaram quantos dias passaram de 35 °C em cada cidade. Escolheram esse limite porque, acima dele, a maioria das aves começa a acionar mecanismos do corpo para aguentar o estresse térmico.
No estudo, os dias acima de 35 °C aparecem ligados a menos diversidade de aves em todos os seis modelos testados. As cidades em áreas de floresta e de campos tropicais e subtropicais tiveram a maior concentração de eventos de calor extremo.
Quanto o verde reduz a exposição das aves
Com mais quantidade ou mais qualidade de verde, a exposição das aves ao calor extremo caiu de 23% a 34%. A exposição, aqui, combina quantas vezes faz calor forte com quantas e quais espécies vivem no lugar.
O estudo mediu isso de três jeitos: pelo número de espécies, pela variedade de funções que elas cumprem e pela história evolutiva que representam. Ampliar a cobertura verde em 5% a 10% da área urbana deu as maiores reduções.
Pouco verde no lugar certo já faz diferença
Um dos achados mais práticos é sobre onde plantar. Ao escolher os pontos da cidade com mais calor e mais aves, aumentar o verde em só 1% reduziu a exposição em 5,62%, 12,56% e 7,07% nas três medidas, segundo os autores.
Ou seja, um parque novo num bairro quente e cheio de pássaros rende mais do que a mesma área espalhada sem critério. Para cidades sem terreno livre, é a notícia mais útil do estudo.
Qualidade ou quantidade de verde?
Num cenário de aumento de 20%, melhorar a qualidade da vegetação em toda a cidade, com copas mais altas e mais densas, reduziu a exposição em 26,22%, 29,61% e 32,58%. É mais do que só reorganizar o verde que já existe.
Os autores concluem que, quando falta espaço, cuidar da qualidade das plantas rende mais resfriamento por esforço. Aumentar muito a área verde só passa a valer mais em intervenções grandes. Nas cidades tropicais, a melhora da qualidade levou vantagem no maior aumento simulado.
Mais verde, mais espécies na cidade
Além de proteger do calor, o verde aparece ligado a mais aves. No maior aumento simulado, a riqueza de espécies subiu de 2,50% a 2,56%, e a diversidade evolutiva, de 2,73% a 2,87%. Parece pouco, mas vale para o conjunto das mais de mil cidades.
Os dois caminhos pelos quais o verde ajuda
A equipe separou o efeito do verde em duas partes. O efeito direto, como abrigo e comida, explica de 52% a 62% da influência sobre as aves. O resto, de 38% a 48%, vem de forma indireta.
Dentro desse efeito indireto, o caminho mais forte é justamente o resfriamento: a sombra e a água que as plantas soltam respondem por 38% a 54% dele. Árvore, para o pássaro, é casa e é ar-condicionado.
O que isso significa para as grandes cidades brasileiras
Pelo Censo 2022 do IBGE, o Brasil tem 41 municípios com 500 mil habitantes ou mais, o critério do estudo. Eles somam cerca de 59 milhões de pessoas, uns 29% da população, de São Paulo, com 11,5 milhões, até Serra, no Espírito Santo.
Pela nossa conta, a faixa de 5% a 10% do estudo, aplicada à área do município de Belo Horizonte, de 331 km², equivaleria a algo entre 16,6 e 33,1 km² de verde novo. Não é pouco, e por isso a lição do plantio no lugar certo pesa tanto.
Para entender como o país define os dias de calor forte, veja a regra que o Inmet usa para declarar onda de calor. E, se achar um filhote fora do ninho num dia quente, leia o que fazer, segundo o Ibama. Veja ainda por que as folhas vão esquentar mais que o ar.
Os limites do estudo
Os próprios autores avisam que seus índices medem exposição, e não mortes, ninhos perdidos ou queda de populações. Eles combinam calor e diversidade de aves para comparar estratégias, sem afirmar um processo causal direto.
Os dados de aves vêm de observadores voluntários, e não de levantamentos iguais em todas as cidades. Por isso, o estudo aponta tendências globais, e cada cidade ainda precisa de medições próprias antes de decidir onde plantar.
Perguntas rápidas
O que o estudo descobriu?
Que cidades com mais área verde, ou com vegetação de melhor qualidade, deixam as aves de 23% a 34% menos expostas a dias acima de 35 °C, segundo análise de 1.039 cidades publicada na Nature Communications.
Por que 35 °C?
Os autores escolheram esse limite porque, acima dele, a maioria das aves começa a ativar mecanismos do corpo para aguentar o estresse térmico.
Quanto verde é preciso?
Ampliar a cobertura verde em 5% a 10% da área urbana deu as maiores reduções. Mas aumentar o verde em só 1%, nos lugares certos, já cortou de 5,6% a 12,6% da exposição.
O estudo prova que as árvores salvam as aves?
Não. Ele mede associações e exposição ao calor, não mortes ou ninhos. Os próprios autores dizem que os índices não indicam um processo causal direto.
Cidades brasileiras entram nessa conta?
O estudo usou cidades com 500 mil habitantes ou mais. No Brasil, pelo Censo 2022 do IBGE, são 41 municípios nessa faixa, com cerca de 29% da população do país.



