Ciência e tecnologia

O Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, guarda a segunda maior coleção de mamíferos do Brasil, com 46.903 exemplares usados para descrever espécies novas e estudar mudanças no meio ambiente

Um estudo publicado em setembro de 2025 no Biological Journal of the Linnean Society mediu pela primeira vez 141 acervos de mamíferos da América do Sul. A coleção do Museu Goeldi soma 46.903 exemplares, tem cerca de 70 espécimes-tipo e está quase toda digitalizada, segundo a bióloga Alexandra Bezerra, coautora do estudo.

Museu Goeldi: fachada histórica do prédio no Parque Zoobotânico, em Belém, sede da coleção de mamíferos

Fachada do Museu Paraense Emílio Goeldi, no Parque Zoobotânico, em Belém. Foto: Prburley/Wikimedia Commons (CC BY 4.0), recortada para 16:9 e comprimida.

O Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, guarda 46.903 exemplares de mamíferos catalogados em sua coleção científica. O acervo é o segundo maior do Brasil, atrás apenas do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Um estudo publicado em setembro de 2025 na Biological Journal of the Linnean Society mediu, pela primeira vez, o tamanho de 141 coleções de mamíferos espalhadas pela América do Sul. A pesquisa foi liderada por Marcelo Weksler, do Museu Nacional, segundo nota do Museu Goeldi.

O acervo do Goeldi não é a maior coleção de mamíferos do Brasil, mas a segunda maior. O primeiro lugar pertence ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro, com 89.726 espécimes, quase o dobro do total paraense. No ranking sul-americano, o Goeldi fica em terceiro lugar.

Estudo do Museu Nacional mapeou pela primeira vez as coleções da América do Sul

O levantamento reuniu dados de 141 acervos de mamíferos em nove países sul-americanos, com apoio de pesquisadores de diversas instituições. Ao todo, o continente guarda 746.548 exemplares catalogados, segundo o artigo publicado na Biological Journal of the Linnean Society.

O Brasil concentra a maior fatia desse total, com 334.950 espécimes espalhados por diferentes museus e universidades. O Peru vem em segundo entre os países, com 76.185 exemplares, à frente da Argentina e da Colômbia.

Por que a coleção do Goeldi não é a maior do Brasil?

Antes do estudo, era comum descrever o acervo paraense como o maior do país, uma marca que o próprio levantamento não confirma. Os dados mostram 46.903 espécimes no Goeldi, contra 89.726 do Museu Nacional, na UFRJ.

A diferença reflete o tamanho de cada acervo, não a qualidade da ciência feita no Pará. Mesmo em segundo lugar no Brasil, o Goeldi soma quase 47 mil exemplares, número que o coloca também como o terceiro maior entre os acervos da América do Sul.

Detalhe do letreiro esculpido na fachada do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém
Detalhe do letreiro na fachada do Museu Goeldi, onde fica a coleção de mamíferos. Foto: Prburley/Wikimedia Commons (CC BY 4.0), recortada para 16:9 e comprimida.

Setenta exemplares-tipo ajudam a descrever espécies novas de mamíferos

A coleção reúne cerca de 70 espécimes-tipo, os exemplares originais usados para descrever uma espécie pela primeira vez. Sempre que um pesquisador suspeita de uma espécie desconhecida, compara o animal encontrado com esses exemplares de referência guardados no museu.

O mesmo princípio vale para outras descobertas recentes na Amazônia, como a nova espécie de rã descrita em uma floresta alagada do Acre. Sem um exemplar-tipo guardado em coleção, provar que um animal pertence a uma espécie nunca antes registrada fica muito mais difícil.

Onça-pintada e peixe-boi estão entre os espécimes mais antigos do acervo

Segundo o Museu Goeldi, a coleção preserva espécimes antigos de espécies hoje ameaçadas, como a onça-pintada e o peixe-boi-da-amazônia. Esses registros funcionam como um retrato de como as populações desses animais eram décadas atrás.

A onça-pintada é o maior felino das Américas e principal predador de topo da fauna brasileira. Já o peixe-boi-da-amazônia é um mamífero aquático herbívoro que vive em rios da bacia amazônica e integra a lista de espécies ameaçadas citada pelo museu.

Onça-pintada com coleira de rastreamento, espécie citada entre os espécimes mais antigos do acervo do Goeldi
Onça-pintada com coleira de monitoramento; a foto não retrata um espécime do Goeldi e ilustra a espécie preservada no acervo. Foto: Charles J. Sharp/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0), recortada para 16:9 e comprimida.

Dados digitalizados no SiBBr facilitam comparar exemplares de todo o país

A bióloga Alexandra Bezerra, pesquisadora bolsista do programa Conhecimento Brasil e coautora do estudo, descreve o Goeldi como "a única coleção, dentre as maiores, que tem todos os dados digitalizados e, em sua maior parte, disponível no SiBBr".

O SiBBr é o Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira, uma plataforma pública que reúne dados de coleções científicas do país. Com o acervo on-line, pesquisadores de outros estados podem comparar exemplares sem precisar viajar até Belém.

Espécimes-testemunho ajudam a rastrear doenças transmitidas por animais

Alexandra também destaca a importância de preservar o espécime-testemunho, ou voucher, usado para registrar um patógeno encontrado em determinado animal. Sem esse exemplar guardado, fica impossível confirmar depois qual espécie carregava a doença.

O alerta cita um levantamento de Marcelo Weksler, que mostrou que vários estudos sobre doenças zoonóticas não guardaram o voucher do animal em que o patógeno foi encontrado. Sem esse retrato de outra época, cada novo surto exige recomeçar a comparação do zero.

Peixe-boi-da-amazônia nadando, espécie também preservada na coleção de mamíferos do Goeldi
Peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis); a foto não retrata um espécime do Goeldi e ilustra a espécie preservada no acervo. Foto: Dirk Meyer/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0), recortada para 16:9 e comprimida.

Museu está sem curador de mamíferos desde o começo de 2025

O acervo de mamíferos do Goeldi está sem curador desde que José de Sousa e Silva Jr. se aposentou, em 2025. A ausência de um responsável direto é um dos pontos observados pelo estudo sobre a saúde das coleções sul-americanas.

O levantamento também aponta escassez de pessoal, falta de infraestrutura para baixas temperaturas e digitalização incompleta como desafios comuns às coleções da região. Sustentabilidade financeira no longo prazo aparece como outro ponto de atenção citado pelos pesquisadores.

Levantamento ajuda a planejar o futuro das coleções brasileiras

O objetivo do estudo, segundo o Museu Goeldi, é aumentar a atenção sobre as coleções científicas da América do Sul e ajudar a planejar o crescimento de cada acervo. A pesquisa também busca fortalecer a resposta a mudanças climáticas e a doenças transmitidas por animais.

Em outras matérias do Watts & Wild, há registros sobre a onça Manchita, flagrada sozinha no Iguaçu, sobre o risco que ronda o peixe-boi-marinho e sobre a programação que o próprio Goeldi abriu ao público em setembro de 2026.

O acervo de 46.903 exemplares mostra como o trabalho silencioso das coleções ajuda a entender a fauna do país. Você conhecia a diferença entre a maior e a segunda maior coleção de mamíferos do Brasil? Conte nos comentários.

Espaço de anúncio

Mais do Watts & Wild

Mais em Ciência e tecnologia →

O que está bombando, uma vez por dia

Sem spam. Só o que viralizou no Brasil, checado e explicado, direto no seu e-mail.