O peixe-boi-marinho, espécie que vive nos estuários e manguezais do litoral do Nordeste brasileiro, passou a ser classificado pelo Ministério do Meio Ambiente como Criticamente em Perigo, a categoria de risco de extinção mais alta do país
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima mudou a categoria de ameaça do peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) de "Em Perigo" para "Criticamente em Perigo" na lista oficial da fauna brasileira. A espécie não é a mesma do peixe-boi-da-amazônia, que segue em categoria diferente.
Peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) sendo devolvido à natureza no Amapá, em ação conjunta do Ibama, do ICMBio e do Exército. Foto: Vinícius Mendonça/Ibama, Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.
Portaria MMA nº 1.704 muda a categoria do peixe-boi-marinho de "Em Perigo" para "Criticamente em Perigo", a classificação de risco mais alta antes da extinção na natureza, dentro da Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, publicada em 17 de junho de 2026
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) publicou a Portaria MMA nº 1.704, de 16 de junho de 2026, que altera a Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção. Nela, o peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) aparece na categoria CR, a mais grave da escala de risco usada pelo governo brasileiro.
A portaria foi publicada no Diário Oficial da União em 17 de junho de 2026 e assinada pelo ministro do Meio Ambiente, João Paulo Ribeiro Capobianco. O texto altera os anexos da Portaria MMA nº 444, de 2014, que até então classificava o peixe-boi-marinho como EN, sigla de Em Perigo.
A mudança não é um degrau qualquer: Criticamente em Perigo é a categoria mais alta de risco de extinção antes de uma espécie ser considerada extinta na natureza. Segundo o Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, ligado à Fundação Mamíferos Aquáticos, a espécie já havia sido classificada como CR por cerca de 25 anos, até ser rebaixada para EN em 2014.
O que significa a categoria "Criticamente em Perigo" na prática
A escala de risco usada pelo MMA segue a metodologia da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), referência mundial para avaliar o risco de extinção de espécies. Ela vai, em ordem crescente de gravidade, de Vulnerável (VU) a Em Perigo (EN) e Criticamente em Perigo (CR).
Entrar na lista oficial como CR não muda de imediato a rotina do animal na natureza, mas eleva o nível de prioridade da espécie nas políticas públicas de conservação, no direcionamento de recursos e nas exigências de licenciamento ambiental em áreas onde ela ocorre.
Por que o governo havia rebaixado a categoria em 2014
Em dezembro de 2014, a Portaria MMA nº 444 reclassificou o peixe-boi-marinho de Criticamente em Perigo para Em Perigo, reduzindo o nível de urgência atribuído à espécie nas políticas de conservação do país durante a década seguinte.
Depois da mudança de 2014, pesquisadores dedicados à espécie publicaram um estudo científico, usando a metodologia da IUCN, concluindo que o peixe-boi-marinho deveria continuar classificado como Criticamente em Perigo no Brasil, segundo o Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho.
A reclassificação de 2026 corrige uma leitura antiga, não descreve uma piora repentina
Segundo o Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, a volta à categoria CR em 2026 não representa um agravamento súbito da situação da espécie, mas o reconhecimento, no instrumento legal que orienta as políticas de conservação, de uma realidade que pesquisadores já vinham sinalizando havia anos.
Em outras palavras: o risco já era alto durante o período em que a espécie esteve classificada como Em Perigo. A portaria de 2026 apenas alinhou a categoria oficial ao que os estudos técnicos vinham indicando.
Não confunda: peixe-boi-marinho e peixe-boi-da-amazônia são espécies diferentes
O Brasil tem duas espécies de peixe-boi, e a mesma portaria de 2026 trata das duas separadamente. O peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) vive em água salgada e salobra, em estuários e manguezais do litoral, e foi o que subiu para Criticamente em Perigo (CR).
Já o peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis) vive exclusivamente em água doce, na bacia amazônica, e está classificado como Vulnerável (VU) na mesma lista do MMA, uma categoria de risco menor que a do parente marinho.
Um jeito simples de diferenciar as duas espécies
Além do ambiente onde vivem, um traço visual ajuda a diferenciar as duas espécies nas fotos: o peixe-boi-da-amazônia costuma ter uma mancha branca ou rosada no ventre, ausente ou bem menos visível no peixe-boi-marinho, segundo registros do ICMBio.
O peixe-boi-marinho também é, em média, maior e mais robusto que o parente amazônico, características ligadas à adaptação de cada espécie ao próprio ambiente, um em água salgada e salobra, outro em rios e lagos de água doce.
Onde o peixe-boi-marinho ainda é encontrado no litoral brasileiro
A distribuição histórica do peixe-boi-marinho ia do litoral norte até o Espírito Santo. Hoje, a população está concentrada no litoral do Nordeste, entre o Piauí e Alagoas, segundo o Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, que atua na região desde 2013.
A espécie já foi considerada extinta regionalmente no Espírito Santo, na Bahia e em Sergipe, estados onde ocorria no passado. A concentração populacional remanescente é estimada em cerca de 1.100 indivíduos entre o litoral do Piauí e o de Alagoas, segundo levantamento por sobrevoo citado por pesquisadores da espécie.
As ameaças que mais afetam o peixe-boi-marinho hoje
As principais ameaças listadas para a espécie são a perda de habitats costeiros, sobretudo de estuários, a captura acidental em redes de pesca, a poluição das águas e as colisões com embarcações, segundo o MMA e o Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho.
Estuários funcionam como berçário e área de alimentação para a espécie, que se alimenta de vegetação aquática. Quando esses ambientes são degradados por obras, esgoto ou desmatamento de manguezal, o peixe-boi-marinho perde parte do território de que depende para sobreviver.
O trabalho de reabilitação e soltura no litoral
Animais encontrados feridos, órfãos ou encalhados passam por reabilitação em centros de triagem antes de retornar à natureza, num trabalho que reúne Ibama, ICMBio e, em alguns casos, apoio de outras forças, como mostra o registro de uma soltura no Amapá.
Esse tipo de ação de resgate e soltura é uma das frentes de conservação da espécie. As outras são o monitoramento de populações remanescentes e a fiscalização de manguezais no litoral do Nordeste, o mesmo tipo de litoral que também abriga a caça de golfinhos por tainhas na Praia de Gaibu, em Pernambuco.
Como a lista de espécies ameaçadas orienta a fiscalização ambiental
A Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, atualizada pela portaria de 2026, é o instrumento legal usado por órgãos como o ICMBio e o Ibama para orientar fiscalização, licenciamento ambiental e prioridade de recursos para a conservação de cada espécie.
Um animal listado como Criticamente em Perigo entra no topo dessa prioridade. Isso pode significar mais recursos para monitoramento e mais rigor em autorizações de obras em áreas onde a espécie ocorre, como já acontece com o acompanhamento que o ICMBio faz de tartarugas marinhas em praias do litoral brasileiro.
A situação atual da espécie no litoral do Nordeste
Passados mais de dez anos sob a categoria Em Perigo, o peixe-boi-marinho volta, em 2026, à categoria mais alta de risco na lista oficial do governo brasileiro, concentrado numa faixa de litoral entre o Piauí e Alagoas.
A reclassificação reforça, no papel, a urgência de proteger estuários e manguezais nessa região. São os mesmos ambientes costeiros monitorados por projetos de conservação que também acompanham episódios como a postura de uma bolsa de sereia por um tubarão-lixa em Fernando de Noronha, outro registro da vida marinha no litoral brasileiro.
Você já viu um peixe-boi-marinho no litoral do Nordeste ou sabia que ele é diferente do peixe-boi-da-amazônia? Conte nos comentários.



