Animais e natureza

A onça Manchita, filha de Kunumi, cruzou a fronteira sozinha, foi filmada pela primeira vez no Brasil e cheirou uma árvore que entrega quem passou ali antes dela

No dia 16 de setembro de 2026, uma armadilha fotográfica no Parque Nacional do Iguaçu registrou pela primeira vez a passagem da onça-pintada Manchita em solo brasileiro, filha da fêmea binacional Kunumi.

Frame do vídeo do Projeto Onças do Iguaçu mostrando a onça-pintada Manchita fazendo o reflexo de Flehmen no Parque Nacional do Iguaçu

Manchita flagrada pela câmera do Projeto Onças do Iguaçu no momento em que cheira o rastro deixado por outra fêmea, a Uayara. Reprodução/Instagram (@oncasdoiguacu).

O Projeto Onças do Iguaçu confirmou, na CNN Brasil publicada em 17 de setembro de 2026, o primeiro registro em solo brasileiro da onça-pintada Manchita, de cerca de 1,5 a 2 anos de idade. A imagem foi feita por armadilha fotográfica no dia 16 de setembro, dentro do Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná.

Manchita é filha de Kunumi, a onça que já é conhecida por cruzar a fronteira entre Brasil e Argentina. Antes desse flagrante, a jovem só tinha sido registrada por projetos argentinos, como o Proyecto Yaguareté e a Aves Argentinas, o que faz desse o primeiro sinal de que ela também atravessa sozinha para o lado brasileiro.

O Projeto Onças do Iguaçu confirmou, no dia 16 de setembro de 2026, o primeiro registro de Manchita em solo brasileiro, filha da onça binacional Kunumi. A câmera flagrou a jovem fazendo o reflexo de Flehmen ao cheirar o rastro de outra fêmea, a Uayara.

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O vídeo original do flagrante, publicado pelo Projeto Onças do Iguaçu. Reprodução/Instagram (@oncasdoiguacu).

Quem é Manchita, a onça que nasceu de uma família binacional

Manchita tem entre 1,5 e 2 anos e é filha de Kunumi, uma fêmea que circula pelos dois lados do Parque Nacional do Iguaçu desde que nasceu, em 2020, do lado argentino. A avó dela, Memby, nasceu em 2016, e a bisavó, Kerana, também faz parte da mesma linhagem, acompanhada de perto pelos pesquisadores da região há anos.

Essa árvore genealógica não é só curiosidade: ela mostra como uma única família de onças-pintadas vem, geração após geração, usando o mesmo corredor de mata entre Brasil e Argentina para se deslocar, caçar e se reproduzir. Um tipo de linhagem monitorada de perto que lembra outra novidade recente da fauna sul-americana, quando cientistas confirmaram o tilcayo, um felino novo descoberto na Bolívia, prova de que a região ainda esconde surpresas sobre os bichos que vivem nela.

Como a câmera flagrou o momento inédito

O registro saiu de uma armadilha fotográfica, equipamento espalhado pela mata que dispara sozinho quando sente calor e movimento por perto. Foi assim que o Projeto Onças do Iguaçu, ligado ao Parque Nacional do Iguaçu, capturou Manchita caminhando pela primeira vez em território brasileiro, no dia 16 de setembro de 2026.

Esse tipo de câmera é a principal ferramenta dos biólogos para saber quantas onças-pintadas ainda existem na região e por onde elas andam, já que o bicho é solitário, discreto e quase impossível de acompanhar a olho nu na densa mata do entorno das Cataratas do Iguaçu.

Cena do vídeo viral: onca manchita iguacu
Outro momento do vídeo que viralizou. Reprodução/Instagram (@9424100611).

O que é o reflexo de Flehmen, o gesto estranho da onça no vídeo?

No vídeo, Manchita cheira atentamente o tronco de uma árvore por onde a fêmea Uayara tinha passado no dia anterior. Depois, ela levanta a cabeça e abre um pouco a boca, num gesto que pode parecer estranho para quem não conhece o comportamento dos grandes felinos.

Segundo os técnicos do Projeto Onças do Iguaçu, isso é o reflexo de Flehmen: o animal direciona as moléculas de odor para o órgão vomeronasal, uma estrutura que funciona quase como um sexto sentido e identifica quem passou ali, o sexo e até o estado reprodutivo do outro bicho.

Manchita fazendo o reflexo de Flehmen, com a cabeça levantada e a boca entreaberta, em frame do vídeo do Projeto Onças do Iguaçu
O exato momento do reflexo de Flehmen, capturado no vídeo do flagrante. Reprodução/Instagram (@oncasdoiguacu).

A família de onças que não conhece fronteira

Kunumi, mãe de Manchita, já era famosa antes mesmo da filha aparecer: ela é a onça-pintada que circula entre o Parque Nacional do Iguaçu, no Brasil, e o parque espelho do lado argentino, como contou a reportagem do O Presente, e por isso já vinha sendo acompanhada pelo Proyecto Yaguareté e pela Aves Argentinas.

Agora, com o flagrante de Manchita, os pesquisadores têm um novo indício de que o comportamento se repete de geração em geração: a mata que liga os dois países funciona como um corredor natural, essencial para que as onças-pintadas encontrem parceiros e mantenham a espécie geneticamente saudável.

Cena do vídeo viral: onca manchita iguacu
Mais uma cena do vídeo. Reprodução/Instagram (@9424100611).

Onça-pintada consegue mesmo atravessar a fronteira entre Brasil e Argentina?

Sim, e o caso de Kunumi e agora de Manchita é a prova mais recente disso. Como não existe cerca nem muro na mata que separa o Parque Nacional do Iguaçu brasileiro do argentino, os animais seguem as trilhas que sempre usaram, muito antes de qualquer fronteira ser desenhada no mapa.

É por isso que o projeto trata o registro como uma vitória para a conservação: quanto mais onças cruzam esse corredor, maior a chance de a população se manter estável dos dois lados, o tipo de história que também apareceu recentemente no caso do motoboy que enfrentou um enxame de abelhas para salvar uma criança, outro susto recente com a fauna brasileira que terminou bem.

Cena do vídeo viral: onca manchita iguacu
O vídeo, segundos depois. Reprodução/Instagram (@9424100611).

Nos comentários do post, a dupla nacionalidade virou piada favorita

A publicação em que o Projeto Onças do Iguaçu (@oncasdoiguacu) mostrou o vídeo de Manchita no Instagram chegou a 782 curtidas e 28 comentários em menos de um dia no ar. O comentário mais curtido, de andersondesordi, com 16 curtidas, resumiu o espírito binacional da história numa linha: "Ruge em português e espanhol", brincadeira com a legenda que o projeto publicou em dois idiomas, primeiro em português, depois em espanhol, já que atua dos dois lados da fronteira ao lado do Proyecto Yaguareté e da Aves Argentinas.

Tem gente reparando em detalhe que intriga até biólogo. "Ela parece argentina mesmo, o desenho das pintas é diferente", escreveu mamonteir, comparando Manchita a outras onças já fotografadas do lado brasileiro. Faz sentido estranhar: é exatamente pelo desenho único das pintas, como uma digital, que o Projeto Onças do Iguaçu reconhece cada animal e confirma que a onça do flagrante é filha de Kunumi. Já schroderenato apostou numa explicação para a travessia: "Obviamente, para chegar ao lado brasileiro da fronteira, ela teve de fazer a nado a travessia, pois o que separa os dois parques nacionais é o Rio Iguaçu". Pode ser: onça-pintada nada bem, e a espécie é conhecida por cruzar rios para mudar de território.

Tem também quem tenha ficado só na emoção. "Lindona! Uma forma de comunicação perfeita", escreveu saralimapinto sobre o gesto de Flehmen, e lucia_casales resumiu a fama bilíngue da família com uma frase só: "Ella es políglota." Entre risada e comentário técnico, ninguém discordou do que a câmera mostrou: só quis saber mais sobre o bicho que virou queridinha dos dois lados da fronteira.

Um flagrante não garante que ela vai ficar

Um único flagrante não significa que Manchita vai fixar residência no lado brasileiro. As onças-pintadas têm territórios enormes, de dezenas a centenas de quilômetros quadrados, e podem passar por um lugar uma única vez sem voltar a aparecer ali tão cedo.

O Projeto Onças do Iguaçu segue monitorando a região com outras armadilhas fotográficas para acompanhar se Manchita vai repetir o comportamento da mãe e virar mais uma onça binacional fixa, ou se esse foi só um cruzamento isolado enquanto ela ainda procura o próprio território.

Manchita caminhando sozinha pela mata do Parque Nacional do Iguaçu, em frame do vídeo do Projeto Onças do Iguaçu
Manchita seguindo sozinha pela mata do Parque Nacional do Iguaçu, ainda no vídeo do flagrante. Reprodução/Instagram (@oncasdoiguacu).

Mais uma onça entra para a lista de moradoras dos dois países

Com Manchita, sobe para pelo menos duas o número de onças-pintadas da mesma família flagradas cruzando a fronteira entre Brasil e Argentina pelo Parque Nacional do Iguaçu, segundo o Conexão Planeta e o H2Foz.

Com o flagrante batido, uma coisa é certa: enquanto governos discutem fronteira, a onça-pintada nem sabe que ela existe. E você, sabia que um bicho como Manchita cruza dois países pela mata sem visto nem passaporte?

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