A Justicia dasyclados, planta rara da família Acanthaceae que só existe no Brasil, foi reencontrada na Reserva Biológica de Araras, em Petrópolis, no Rio de Janeiro, quase cem anos depois do último registro no estado
A Justicia dasyclados, arbusto de flores violeta que existe só no Brasil, foi encontrada por uma guarda-parque do Inea na Reserva Biológica de Araras, em Petrópolis (RJ), quase cem anos depois do último registro da espécie no estado. Pesquisadores do Jardim Botânico do Rio confirmaram a identificação em fevereiro de 2026.

Guarda-parque do Inea durante monitoramento de trilha nos campos de altitude da Reserva Biológica de Araras, o mesmo tipo de ambiente onde a Justicia dasyclados foi reencontrada, em Petrópolis (RJ). Foto: Paulo Estrella/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
A Reserva Biológica Estadual de Araras, unidade do Inea entre Petrópolis e Miguel Pereira, na serra do Rio, teve um registro raro em fevereiro de 2026. A Justicia dasyclados, da família Acanthaceae, reapareceu depois de cerca de cem anos sem registro confirmado no estado, segundo nota do Inea.
A descoberta foi feita por Vanessa Cabral, guarda-parque do Inea e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), durante o monitoramento de uma trilha em mata densa, a mais de 1.200 metros de altitude. A identificação foi confirmada pelo Jardim Botânico do Rio.
Onde fica a Reserva Biológica de Araras, em Petrópolis
A Rebio Araras é uma unidade de conservação administrada pelo Inea, com 3.837 hectares de Mata Atlântica entre os municípios de Petrópolis e Miguel Pereira, na região serrana do Rio de Janeiro. A reserva protege parte do corredor ecológico entre a Serra do Mar e a Serra dos Órgãos.
O ponto onde a planta foi encontrada fica em área de campos de altitude, acima de 1.200 metros, com vegetação rasteira sobre afloramentos rochosos, e o acesso à mata densa é restrito a pesquisa e fiscalização. Outro recorde vegetal brasileiro veio de uma unidade de conservação parecida: o Jequitibá Patriarca, em Vassununga (SP).

Quem encontrou a Justicia dasyclados na serra do Rio
Vanessa Cabral é guarda-parque do Inea e pesquisadora vinculada à UFRJ. Ela avistou os exemplares durante um trabalho de monitoramento de trilhas, rotina que inclui registrar espécies da flora e da fauna dentro da reserva.
Ela coletou três indivíduos da planta e encaminhou o material para análise especializada. A rotina de monitoramento de trilhas foi decisiva para o achado, já que a Justicia dasyclados cresce em pontos de difícil acesso da mata.
Como é a Justicia dasyclados, planta exclusiva do Brasil
A espécie pertence à família Acanthaceae e tem flores em tons de violeta, que contrastam com as folhas verde-escuras. É uma planta de porte arbustivo, adaptada às condições de altitude da Mata Atlântica, parecida em raridade com outra planta nativa do país, a Cattleya walkeriana.
A Justicia dasyclados floresce apenas uma vez por ano, por um período curto, o que torna a observação em campo mais difícil. Além do Rio de Janeiro, a espécie também tem registros em Minas Gerais e no Espírito Santo.
Por que uma planta rara pode sumir dos registros sem estar extinta?
Uma espécie sem registro por décadas não é necessariamente uma espécie extinta. Ela pode continuar existindo em pontos isolados e de difícil acesso, sem que pesquisadores voltem a encontrar um exemplar por anos seguidos.
A floração breve da Justicia dasyclados dificulta ainda mais a busca, porque fora da época de flor a planta se confunde com a vegetação ao redor. Áreas de campos de altitude também recebem menos expedições científicas do que outros trechos da Mata Atlântica.
O que significa uma espécie ser redescoberta pela ciência
Cientistas chamam de espécie redescoberta aquela que volta a ser registrada depois de um longo período sem nenhuma ocorrência documentada em coleções, herbários ou publicações científicas. O termo não significa que a planta havia deixado de existir em algum momento.
A redescoberta depende de alguém encontrar, coletar e enviar o material para confirmação especializada, etapa que pode levar meses até se completar, como ocorreu com a Justicia dasyclados na Rebio Araras.
Quem confirmou a identificação da planta
A identificação foi confirmada pelo pesquisador Marcus Nadruz, do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, em conjunto com Denise Braz, doutora pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e especialista em Acanthaceae.
A confirmação por especialistas em Acanthaceae foi essencial, já que espécies do gênero Justicia costumam exigir análise detalhada das flores e das folhas para diferenciar espécies parecidas entre si.

O que a descoberta representa para as unidades de conservação
Em nota, o Inea afirmou que a descoberta também demonstra o papel estratégico das unidades de conservação na geração de conhecimento científico sobre a biodiversidade brasileira.
Reservas biológicas como a de Araras funcionam como um laboratório a céu aberto, onde o monitoramento de rotina pode revelar espécies raras que não aparecem em levantamentos pontuais e isolados. O acompanhamento próximo também aparece em outra espécie ameaçada, a ararinha-azul isolada após surto de circovírus em Petrolina.
A descoberta ainda não garante que a espécie esteja segura
Apenas três indivíduos da Justicia dasyclados foram registrados até agora na Rebio Araras, o que não permite dizer se existe uma população maior escondida na reserva ou se a planta segue rara mesmo ali.
Não há, até o momento, uma avaliação pública do risco de extinção da espécie no Rio de Janeiro, e novas buscas em campo devem ser necessárias para dimensionar quantos exemplares realmente restam na região.
Situação da Justicia dasyclados na Reserva de Araras hoje
Os três exemplares coletados seguem sob análise, e a reserva permanece monitorada pela equipe do Inea como parte da rotina de vigilância da flora e da fauna locais.
O achado reforça a importância de trilhas monitoradas dentro de unidades de conservação para encontrar espécies raras da Mata Atlântica. Você já visitou alguma reserva biológica no Rio de Janeiro ou conhece outro caso de planta redescoberta no Brasil? Conte nos comentários.



