Duas tartarugas que vivem há pelo menos 36 anos no espelho d'água do Palácio do Itamaraty, em Brasília, vão deixar o jardim de Burle Marx porque, segundo o ministério, podem afetar as plantas do projeto
O Ministério das Relações Exteriores vai retirar as duas tartarugas que vivem no espelho d'água do Palácio do Itamaraty, em Brasília, há pelo menos 36 anos, segundo funcionários. Em nota, o órgão diz que o jardim de Burle Marx não previu animais e que a realocação ficará a cargo de um órgão ambiental.
O espelho d'água do Palácio do Itamaraty, onde vivem as duas tartarugas, com os arcos refletidos e canteiros de plantas do jardim de Burle Marx, em janeiro de 2023. Foto: Sintegrity/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0). Capa recortada em 16:9.
O Ministério das Relações Exteriores vai retirar as duas tartarugas que vivem no espelho d'água do Palácio do Itamaraty, em Brasília. A decisão apareceu em reportagem da TV Globo publicada no g1 em 24 de setembro de 2026, com nota oficial do ministério.
Funcionários do ministério contam que os animais moram ali há pelo menos 36 anos e comem ração dada pelos próprios servidores. Mesmo com a longa temporada no palácio, a dupla vai ser transferida por um órgão ambiental.
As tartarugas do Itamaraty saem porque, para o ministério, bicho não fazia parte do jardim. A nota diz que o projeto de Burle Marx não previu animais e que eles afetariam o desenvolvimento das espécies vegetais do espelho d'água.
O que diz a nota do Itamaraty sobre a dupla que mora no espelho d'água
Na nota, o Itamaraty declarou desconhecer a origem dos animais e as condições em que eles foram instalados no local. A frase central é curta: "O Ministério providenciará a realocação das tartarugas por órgão ambiental competente".
No Distrito Federal, esse papel pode caber ao Ibama, federal, ou ao Instituto Brasília Ambiental (Ibram), do governo distrital. O biólogo Carlos Bomtempo, ouvido pela TV Globo, citou os dois órgãos como caminhos para a transferência.
Pelo menos 36 anos: moradoras do palácio desde 1990, ou antes
Contando para trás, 36 anos levam a 1990. O Palácio do Itamaraty, projetado por Oscar Niemeyer, foi inaugurado em 1970, segundo o Correio Braziliense. Na conta mais curta, as tartarugas já dividem o endereço com o prédio há mais da metade da vida dele.
Os 36 anos vêm do relato de quem trabalha no palácio e funcionam como piso, porque a expressão usada é "pelo menos". Como o ministério desconhece a origem da dupla, ela pode estar ali há ainda mais tempo.
Um jardim aquático pensado por Burle Marx para mostrar a natureza brasileira
Roberto Burle Marx idealizou os jardins internos e externos do Itamaraty para representar a natureza brasileira, incluindo dois jardins aquáticos, conforme a reportagem do Correio Braziliense sobre os dez anos do tombamento, publicada em 2021.
O espelho d'água fica ao pé dos arcos da fachada e devolve a imagem do prédio. Dentro dele, canteiros de plantas funcionam como pequenas ilhas, e é nesse cenário que as tartarugas passaram as últimas décadas.
Jardim tombado: cerca de 44,8 mil metros quadrados protegidos desde 2011
Os jardins do Itamaraty estão entre os nove projetos de Burle Marx tombados pelo Governo do Distrito Federal no Decreto nº 33.224, de 27 de setembro de 2011, no centenário do paisagista, segundo artigo publicado pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil.
O decreto protege o projeto original e a área implantada de aproximadamente 44.812 metros quadrados, conforme a ficha do iPatrimônio. É uma área equivalente a pouco mais de seis campos de futebol oficiais, de 105 por 68 metros.
O argumento do ministério se apoia justamente nesse desenho original. Pela nota, o projeto do espelho d'água não previa animais, e a presença deles afetaria as plantas escolhidas para o jardim.
Por que uma tartaruga pode atrapalhar as plantas de um espelho d'água
Um exemplo ajuda a entender a preocupação. A tartaruga-de-orelha-vermelha, uma das mais estudadas do mundo, é descrita pela base de espécies invasoras da IUCN como onívora oportunista, que come quase tudo o que encontra.
Pela mesma base, o cardápio inclui algas filamentosas, plantas aquáticas, caramujos, larvas de insetos, crustáceos e pequenos vertebrados. Os filhotes são sobretudo carnívoros e, com a idade, ficam mais herbívoros.
Isso não quer dizer que as duas do Itamaraty sejam dessa espécie. Mostra apenas que uma tartaruga adulta pode, sim, beliscar a vegetação de um jardim aquático, o tipo de estrago que a nota do ministério menciona.
Três décadas de ração deixam as tartarugas "domesticadas", diz biólogo
Para Carlos Bomtempo, animais que vivem há muito tempo longe do hábitat natural, como as tartarugas do espelho d'água, podem ser considerados "domesticados". A palavra vai entre aspas no próprio relato da TV Globo.
Na prática, isso muda o destino. Em vez de voltar para um rio ou uma lagoa, o caminho apontado pelo especialista é o cativeiro autorizado. Ele cita um criador particular ou um zoológico como opções.
Tartaruga, cágado ou jabuti: qual é a diferença?
Todos são quelônios, répteis com casco da ordem Testudinata. A divisão popular separa os bichos pelo lugar onde vivem, como explica o dicionário ambiental do ((o))eco, com base na ecóloga Camila Ferrara, da WCS.
Jabuti é terrestre, de casco alto e pesado e patas traseiras que lembram as de um elefante. Cágado é semiaquático, tem casco mais achatado, pescoço comprido e dedos com membranas, e dobra o pescoço de lado para esconder a cabeça.
Tartaruga, nesse uso, é a que vive quase sempre na água, com patas em forma de remo, como a tartaruga-da-amazônia. As marinhas vêm à areia para pôr ovos, num ciclo de desova acompanhado de perto no litoral brasileiro.
Que espécie são as tartarugas do Itamaraty?
A resposta depende do primeiro passo do trabalho. Segundo Carlos Bomtempo, é preciso identificar os animais, saber a espécie e capturá-los para conhecer as condições de saúde da dupla.
O caso mais famoso de tartaruga levada para longe de casa é o da tartaruga-de-orelha-vermelha, dos Estados Unidos. Mais de 52 milhões delas foram exportadas entre 1989 e 1997, e a espécie está na lista das 100 piores invasoras do mundo, segundo a IUCN.
A mesma base registra a espécie num rio urbano poluído no Brasil, sinal de que ela aguenta ambientes alterados pelo homem. Nas imagens da TV Globo, aparecem o casco escuro e a cabeça de uma das duas, o que não basta para cravar a espécie.
Quanto tempo vive uma tartaruga de água doce
A longevidade muda muito de espécie para espécie. Na tartaruga-de-orelha-vermelha, só como referência, a base da IUCN registra cerca de 20 anos de vida na natureza e 40 em cativeiro.
Os 36 anos do Itamaraty não são a idade das tartarugas, e sim o tempo mínimo que elas passaram no espelho d'água. Se já chegaram adultas ao palácio, podem ser bem mais velhas do que isso.
Para onde elas podem ir: o Cetas do Ibama na Floresta Nacional de Brasília
O biólogo afirma que as tartarugas precisam ser levadas ao Centro de Triagem de Animais Silvestres de Brasília, o Cetas, do Ibama. Pela página oficial do Ibama, a unidade fica na Floresta Nacional de Brasília, no quilômetro 6 da BR-070, em Taguatinga.
Os Cetas recebem animais silvestres por entrega voluntária, resgate ou apreensão em fiscalização. Depois, recuperam e destinam os bichos, seja por soltura na natureza, seja por encaminhamento a empreendimentos de fauna autorizados.
Criador ou zoológico: o destino que o especialista vê como mais provável
"Eles devem ser levados pelo Ibama ou pelo Ibram a algum criador particular ou zoológico para que eles sejam mantidos em cativeiro", disse Bomtempo à TV Globo, ao comentar o caso das duas moradoras do palácio.
A justificativa vem na mesma fala: pelo que se sabe, os animais estão ali há algum tempo e "não teriam mais condições de retorno à natureza". Depois de décadas no mesmo espelho d'água, a soltura deixa de ser o caminho natural.
Leia também: o furão-da-amazônia resgatado depois de viver sete meses como bicho de estimação e os 12.820 animais silvestres que o Ibama soltou em 2025.
Ibama ou Brasília Ambiental: quem cuida de bicho silvestre no DF
O Ibama é o órgão federal e mantém o Cetas de Brasília. O Instituto Brasília Ambiental, do governo do DF, criou uma unidade específica, a Gerência de Fauna (Gefau), para as ações do instituto com animais, segundo o próprio órgão.
O Brasília Ambiental também tem o HFAUS, espaço de atendimento, tratamento e reabilitação de animais silvestres feridos ou em risco, como vítimas de atropelamento e de choque elétrico. A nota do ministério fala em "órgão ambiental competente" para cuidar da mudança.
Não dá mais para cuidar da tartaruga de casa: para onde levar?
A entrega voluntária é uma das três portas de entrada dos Cetas, ao lado do resgate e da apreensão, segundo o Ibama. Em Brasília, o contato que o órgão divulga para a unidade é o telefone e WhatsApp (61) 3316-1034.
O Brasília Ambiental lembra que espécies exóticas invasoras, levadas pelo homem para fora da área de origem, são consideradas a segunda maior causa de extinção de espécies no mundo. Largar um bicho de estimação num lago pode ser o começo de uma invasão.
Os 36 anos vêm da memória de quem trabalha no palácio
O tempo de moradia das tartarugas foi contado por funcionários do ministério, e a nota do Itamaraty diz desconhecer como e quando os animais chegaram. Por isso, 36 anos é um piso de relato, e não uma data de documento.
Há ao menos um registro público independente: uma foto inscrita no Wiki Loves Monuments em janeiro de 2023 já mostra tartarugas no espelho d'água. O destino final, por sua vez, depende da avaliação de saúde e da espécie.
Identificar, capturar e examinar: os próximos passos para a dupla
Pelo roteiro descrito por Bomtempo, o trabalho começa pela identificação da espécie, segue com a captura e passa por um exame das condições de saúde. Só depois sai o endereço novo, num criador autorizado ou num zoológico.
Até a retirada, as duas seguem no jardim de Burle Marx, entre os arcos de Niemeyer e as plantas que o ministério quer proteger. Você chegou a ver as tartarugas do Itamaraty numa visita ao palácio?



