O Ibama lavrou 565 termos de soltura de animais silvestres no Brasil em 2025, soltando ao menos 9.309 bichos de volta à natureza, com o Pará à frente entre os estados
O Watts & Wild refez a conta dos termos de soltura do Ibama em 2025 e mapeou quantos animais silvestres voltaram à natureza, em qual estado e de qual grupo.
O Watts & Wild baixou a base pública de fiscalização do Ibama e refez a conta dos termos de soltura de 2025: 565 casos válidos, ao menos 9.309 animais devolvidos à natureza e mais 3,2 toneladas de peixes e crustáceos soltos sem contagem por indivíduo, com forte concentração no Pará e no Amazonas.
Canários-da-terra (Sicalis flaveola) recolhidos pelo Ibama pouco antes da soltura. Foto: Ibamagov/Flickr (CC BY-SA 2.0).
O Ibama lavrou 565 termos de soltura de animais silvestres válidos em 2025 no Brasil, segundo a base de dados abertos do órgão. Cada termo formaliza a devolução de um animal, ou de um lote inteiro, ao habitat de origem depois de uma ação de fiscalização ambiental.
A conta foi refeita pelo Watts & Wild diretamente nos dois arquivos que o Ibama publica sobre o assunto, ligando cada espécime solto ao termo que autorizou a soltura. O cálculo exclui os termos cancelados ou excluídos no próprio sistema do órgão.
Ao menos 9.309 animais silvestres foram devolvidos à natureza em termos de soltura válidos de 2025. Mais 3,22 toneladas de peixes e crustáceos foram soltos e pesados no mesmo ano, sem contagem por cabeça. O Pará concentra a maior fatia de animais soltos, e a Paraíba abre mais casos.
O que é um termo de soltura, e por que ele não é a mesma coisa que resgate?
Termo de soltura é o documento que formaliza a devolução de um animal apreendido em fiscalização à natureza, conforme a Portaria Ibama nº 1, de 16 de agosto de 2016. Ele só existe quando a soltura de fato acontece.
Isso significa que a base de dados usada aqui não cobre todo animal resgatado no Brasil em 2025. Um bicho pode ser apreendido e passar meses num centro de triagem antes de qualquer termo ser lavrado, como aconteceu com o furão mantido como pet por sete meses e depois entregue ao Ipaam, no Amazonas.
Pará soma mais animais soltos, mas Paraíba tem mais casos abertos em 2025
A Paraíba lidera em número de termos, com 112 casos abertos em 2025, quase um quinto do total nacional. O Pará vem logo atrás, com 103 termos, mas soma bem mais bichos por caso.
O Pará sozinho responde por 2.086 dos 9.309 animais soltos no ano, quase um quarto do total. O número é puxado por grandes apreensões de caranguejo-uçá e de canário-da-terra, distribuídas por dezenas de municípios do estado.
Por que Sergipe aparece entre os estados com mais animais, apesar de poucos casos
Sergipe tem apenas 12 termos de soltura no ano, um dos números mais baixos do levantamento, e ainda assim aparece em terceiro lugar em quantidade de animais, com 1.418 bichos soltos.
O motivo é uma única apreensão: um só termo sergipano reuniu 890 camarões-canela (Macrobrachium acanthurus) devolvidos de uma vez ao ambiente. Um caso grande, sozinho, pode distorcer bastante o ranking por estado.
Caranguejo-uçá e camarão são a maior fatia dos animais devolvidos à natureza
Os crustáceos formam o maior grupo entre os 9.309 animais soltos em 2025, com 4.080 indivíduos, 43,8% do total. O caranguejo-uçá (Ucides cordatus) lidera sozinho, com 2.399 exemplares soltos.
Depois dele vem o camarão-canela, com 894 indivíduos, e o guaiamum (Cardisoma guanhumi), com 783. Os três são alvo comum de apreensão em época de defeso, quando a captura fica proibida para proteger a reprodução da espécie.
Passarinhos como canário-da-terra dominam a lista de espécies diferentes soltas
As aves respondem por 2.536 animais soltos em 2025, 27,2% do total, e são o grupo com mais espécies diferentes. Mais de 60 tipos de pássaro aparecem nos termos do ano, entre eles espécies de gaiola tradicionais.
O canário-da-terra (Sicalis flaveola) é a espécie mais comum, com 822 indivíduos soltos, seguido do galo-da-campina, do coleirinho e do curió. São pássaros tradicionalmente mantidos em cativeiro, apesar de a captura ser crime ambiental.
Tartarugas-da-Amazônia lideram entre os répteis soltos pelo Ibama em 2025
Os répteis somam 1.448 animais soltos no ano, 15,6% do total, quase todos tartarugas do gênero Podocnemis. A tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa) é a mais numerosa, com 867 indivíduos devolvidos ao rio.
O tracajá (Podocnemis unifilis) vem em seguida, com 360 indivíduos. O Amazonas concentra boa parte dessas solturas, onde o Ibama participa todo ano de mutirões que devolvem milhares de filhotes às praias de desova do rio.
Por que aparecem tão poucos mamíferos nos termos de soltura do Ibama?
Os mamíferos somam só 24 indivíduos entre os 9.309 animais soltos em 2025, apenas 0,3% do total: tatu-peba, tatu-galinha, tatu-bola e um tamanduá-mirim. É o menor grupo de toda a base.
O número baixo de mamíferos não significa que poucos sejam apreendidos no Brasil. Animais como macacos e felinos costumam precisar de reabilitação mais longa num Cetas antes de qualquer soltura, o que atrasa ou impede o termo dentro do mesmo ano.
Como o Ibama decide se um animal apreendido pode voltar para a natureza
A soltura só acontece depois de uma avaliação das condições de saúde do animal e do local de destino. A norma que rege o procedimento exige habitat compatível e ausência de risco à população silvestre local.
Quando o animal não reúne condições de voltar sozinho, o caminho passa por um Centro de Triagem de Animais Silvestres, como aconteceu com a onça-pintada capturada em área urbana de Corumbá e depois solta na Serra do Amolar, no Pantanal, com colar de GPS.
Quase 1 em cada 10 animais da base não tem a espécie identificada
Do total de indivíduos soltos em 2025, 814 (8,7%) aparecem na base oficial apenas como "não identificado", sem nome científico nem popular preenchido pelo Ibama no momento do registro.
Esse buraco nos dados impede saber a que grupo esses quase 800 animais pertencem. O Watts & Wild optou por mostrar o número em aberto, em vez de tentar adivinhar a espécie de cada um: é uma lacuna do próprio órgão, não um recorte editorial.
O que vem a seguir para a fiscalização de fauna silvestre no Brasil
Os números de 2025 servem de referência para comparar com 2026 assim que o ano fechar na base de dados abertos do Ibama, e para acompanhar se estados como Pará e Amazonas seguem concentrando as maiores solturas do país.
Você já flagrou um pássaro de gaiola, uma tartaruga ou outro bicho silvestre sendo solto de volta à natureza perto de onde mora? Conte nos comentários.



