Um dente de 66 milhões de anos revelou a temperatura do T. rex, e o número é tão parecido com o seu que muda o que a ciência dizia
Um estudo da UCLA saiu em 16 de setembro de 2026 com a primeira medição direta da temperatura de um T. rex: 36,3°C, quase a mesma do seu corpo agora. A prova veio de três dentes fósseis de 66 milhões de anos.
Cena do vídeo sobre o caso. Reprodução/YouTube (@AssociatedPress).
Se alguém te mandou aquele vídeo ou post dizendo que "provaram que o T. rex era de sangue quente", pode acreditar: é real, e a prova está em um lugar que ninguém esperava, dentro do dente. Cientistas da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) publicaram em 16 de setembro de 2026, na revista Science Advances, o primeiro cálculo direto da temperatura corporal de um Tyrannosaurus rex, feito pelos pesquisadores Robert Eagle e Aradhna Tripati.
O número que saiu da conta foi 36,3°C, e a equipe não chutou nem comparou o T. rex com parentes vivos para estimar isso: mediu a química de três dentes fósseis da Formação Hell Creek, no estado americano de Montana. Dois deles vieram de "Thomas", um dos T. rex mais completos já encontrados, hoje guardado no Museu de História Natural do Condado de Los Angeles.
O T. rex tinha sangue quente, com o corpo a 36,3°C, segundo o estudo da UCLA na Science Advances, também confirmado pelo Olhar Digital. Isso é bem mais quente que um crocodilo de hoje (por volta de 30°C) e mais frio que uma ave (acima de 40°C), o que coloca o dinossauro numa faixa parecida com a de mamíferos grandes, como você e um elefante.
O dente que virou termômetro de 66 milhões de anos atrás
Pensa assim: você não precisa estar vivo pra deixar registrada, no seu esmalte dentário, a temperatura do seu corpo no dia em que aquele dente se formou. É basicamente isso que os cientistas da UCLA descobriram como fazer com fósseis. O esmalte tem cristais tão duros e duráveis que resistem a 66 milhões de anos sem se alterar quimicamente, o que o transforma numa espécie de gravação química da temperatura do bicho enquanto ele ainda mastigava.
Para chegar no número, a equipe raspou um pouco de esmalte dos dentes com uma broca odontológica, dissolveu o pó em ácido fosfórico para liberar o gás carbônico preso ali dentro e mediu tudo num espectrômetro de massa. O que eles estavam contando eram ligações raras entre isótopos de carbono e oxigênio: quanto mais frio o corpo, mais dessas ligações se formam, e quanto mais quente, menos. É basicamente um termômetro fóssil, só que lido em laboratório em vez de na testa.
T. rex era mesmo de sangue quente ou isso é exagero das redes?
Aqui vale separar o que virou boato do que o estudo realmente disse. Ninguém está dizendo que o T. rex regulava a temperatura exatamente como um cachorro ou um humano regulam a sua, suando ou ofegando. O que o estudo prova é que ele não dependia do sol para esquentar o corpo, ao contrário de um crocodilo ou uma lagartixa, que precisam se deitar numa pedra quente para funcionar.
Segundo Aradhna Tripati, geoquímica da UCLA e autora sênior da pesquisa, "um animal a 36 graus Celsius não está esperando o sol esquentar. Ele é termicamente independente do ambiente ao redor, e nesse sentido está mais perto de um elefante ou de uma avestruz do que de um crocodilo". Em outras palavras, o motor interno do T. rex já rodava sozinho, sem depender do clima lá fora.
Como a UCLA sabe que o número bate: da Formação Hell Creek ao laboratório
A Formação Hell Creek, em Montana, é praticamente um cemitério de dinossauros do fim do Cretáceo, a mesma época em que o T. rex dominava a América do Norte, cerca de 66 milhões de anos atrás. É de lá que saíram os três dentes analisados, incluindo os dois de "Thomas".
O detalhe que dá confiança ao resultado é que a mesma técnica foi testada em um crocodiliano fóssil da mesma época, e o número bateu com o esperado, por volta de 30°C, mais frio que o T. rex, como também registrou o Correio Braziliense. Se o método erra no bicho de sangue frio, ele passaria no teste errado, e não foi o que aconteceu: ele acertou o crocodiliano frio e apontou o T. rex bem mais quente, o que reforça que a diferença é real, não ruído de laboratório.
Qual era a temperatura corporal do T. rex em graus Celsius?
Para você ter noção do tamanho do achado, olha a régua que a própria UCLA montou: répteis modernos de sangue frio ficam entre 28°C e 30°C, aves de hoje ficam acima de 40°C, e o T. rex apareceu bem no meio disso, a 36,3°C. É quase a temperatura que o seu corpo marca agora mesmo, e bem próxima da de um elefante africano, que também é um bicho grande, ativo e independente do clima para se manter aquecido.
Essa faixa de temperatura tem uma consequência que vai além da curiosidade: um corpo assim aguenta operar em lugares frios sem travar, o que ajuda a explicar como parentes do T. rex conseguiram viver em regiões próximas do que hoje é o Alasca, onde o inverno já era duro há 66 milhões de anos. Outra descoberta recente que também mexeu com a forma de ver o espaço à nossa volta foi a nova cratera identificada na Lua, prova de que a ciência básica segue rendendo susto até em assunto que parecia arquivado.
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Três dentes não fecham essa discussão de vez
O estudo é sólido, mas não fecha a discussão de uma vez por todas. Três dentes, de basicamente um único esqueleto ("Thomas"), são uma amostra pequena para uma espécie que viveu por milhões de anos em áreas enormes da América do Norte: ainda falta testar mais indivíduos, de outras regiões e fases da vida do T. rex, para saber se 36,3°C era a regra ou uma medida pontual.
Também vale lembrar que "sangue quente" não é um interruptor de ligado ou desligado: existem vários graus de regulação térmica entre o crocodilo e a ave, e o T. rex pode ter ficado numa posição intermediária, nem totalmente como um mamífero, nem como um réptil típico. A própria Tripati resumiu a humildade do momento: "para um animal tão famoso, é notável o quanto realmente desconhecíamos" sobre ele.
Um T. rex de 36,3°C ajuda a explicar por que o predador dominava até no frio
No fim das contas, o que os dentes da Formação Hell Creek entregaram foi uma peça que faltava há décadas: não mais uma estimativa por comparação com parentes vivos, mas uma medida química direta, feita no próprio fóssil. Um T. rex com corpo a 36,3°C não vivia refém do sol nem do calor do dia para caçar, o que ajuda a entender por que a espécie e seus parentes conseguiram se espalhar até por regiões frias do planeta.
Da próxima vez que alguém mandar aquele vídeo de dinossauro "cientificamente comprovado sangue quente", agora você sabe exatamente de onde veio esse número e por que ele se sustenta. Quem diria que a resposta pra um mistério de 66 milhões de anos estava guardada dentro de um dente fóssil o tempo todo?



