Animais e natureza

A qualidade do ar de Manaus foi classificada como péssima em 23 de setembro de 2026, com 188,5 microgramas de partículas finas por metro cúbico, e a IQAir mediu alta de 964% em 34 dias

A Prefeitura de Manaus mediu 188,5 microgramas de partículas finas por m³ em 23 de setembro de 2026, e a IQAir registrou alta de 964% em 34 dias.

A fumaça das queimadas na Amazônia deixou o ar de Manaus na faixa péssima na quarta-feira, 23 de setembro de 2026. A Prefeitura mediu 188,5 microgramas de partículas finas por metro cúbico às 8h32, enquanto a plataforma internacional IQAir apontou alta de 964% desde 20 de agosto. O prefeito decretou estado de atenção.

Fumaça piora a qualidade do ar em Manaus, visto da Ponte Rio Negro em episódio anterior de queimadas na Amazônia

Fumaça cobre o horizonte de Manaus, visto da Ponte Rio Negro em episódio anterior de queimadas na Amazônia (setembro de 2020); a cena se repetiu em 23 de setembro de 2026, quando a Prefeitura classificou o ar da capital como péssimo. Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real (CC BY 2.0), via Wikimedia Commons.

A Prefeitura de Manaus classificou a qualidade do ar da capital como péssima na manhã de 23 de setembro de 2026. A concentração média de partículas finas (MP2,5) chegou a 188,5 microgramas por metro cúbico às 8h32, segundo nota conjunta das secretarias de Meio Ambiente, Segurança, Saúde e Defesa Civil.

O agravamento chega junto com a vazante acelerada do rio Negro, que pode fechar 2026 como a terceira maior seca já registrada na capital do Amazonas. Os dois fenômenos têm a mesma origem: o episódio de El Niño que reduz as chuvas e trava a dispersão da fumaça sobre a região metropolitana.

O ar de Manaus amanheceu na pior faixa da escala nesta quarta-feira. A Prefeitura mediu 188,5 microgramas de partículas finas por metro cúbico às 8h32 de 23 de setembro de 2026, e a plataforma IQAir registrou alta de 964% frente aos 11,7 microgramas medidos em 20 de agosto.

O que diz a nota oficial da Prefeitura de Manaus

Assinada em conjunto pelas secretarias de Meio Ambiente e Mudança do Clima (Semmas), Segurança (Semseg), Saúde (Semsa) e pela Defesa Civil (Sepdec), a nota das 8h32 confirma a concentração de 188,5 microgramas de partículas finas por metro cúbico.

Leia também: a alta de 273% nos focos de calor do Amazonas em setembro.

O documento também informa que Manaus está, segundo dados do Inpe citados pela própria Prefeitura, entre as cidades do Amazonas com menor número de focos de incêndio, o que reforça que a fumaça vem de fora da capital.

A escala que mede a qualidade do ar em Manaus, do bom ao péssimo

O sistema usado para classificar o ar em Manaus considera boa a faixa de até 25 microgramas de partículas finas por metro cúbico. Acima de 125 microgramas por metro cúbico, a classificação já passa direto para péssima, o mesmo patamar ultrapassado na manhã de 23 de setembro.

A Organização Mundial da Saúde recomenda média anual de apenas 5 microgramas por metro cúbico, valor que o Amazonas já tinha superado em 67 dias só em 2025, conforme dado do Ipam citado pelo site ((o))eco.

Por que a fumaça piora tanto em Manaus?

O analista de pesquisa do Ipam Newton Monteiro explica que os ventos costumam levar a fumaça das queimadas para oeste, em direção ao Peru, o que normalmente poupa a capital amazonense do pior da fuligem.

Segundo o pesquisador, o atual episódio de El Niño alterou esse padrão de circulação atmosférica e passou a empurrar a fumaça direto para Manaus e os municípios vizinhos, o que degrada o ar em toda a região metropolitana.

Vista aérea do horizonte de Manaus em dia de céu limpo, com a Arena da Amazônia ao centro
Assim era o horizonte de Manaus num dia sem fumaça, em foto de 2014. Foto: Jose Zamith de Oliveira Filho/Portal da Copa (CC BY 3.0 BR), via Wikimedia Commons.

A alta de 964% medida pela plataforma internacional IQAir

A plataforma internacional IQAir, citada pela Revista Amazônia e outros veículos, registrou 11,7 microgramas de partículas finas por metro cúbico em Manaus no dia 20 de agosto de 2026. Às 8h de 23 de setembro, o mesmo indicador chegou a 124,5 microgramas, alta de 964% em 34 dias.

O salto de 964% em pouco mais de um mês colocou Manaus em primeiro lugar no ranking nacional da IQAir naquela manhã, à frente de Rio Branco e Brasília, com índice 24,9 vezes acima do valor anual recomendado pela OMS.

Onde fica a origem da fumaça que cobre a capital

A fumaça que encobre Manaus não nasce dentro da cidade: vem principalmente de municípios da região metropolitana e do leste do Amazonas, segundo a nota da Prefeitura. O Inpe registrou 3.240 focos de calor no estado entre 1º e 22 de setembro de 2026.

O total representa alta de 244% frente aos 942 focos contados no mesmo intervalo de 2025, segundo reportagem do jornal O Tempo com base nos dados oficiais do instituto.

Brigadista do Prev Fogo do Ibama caminha sobre tronco queimado em área de floresta derrubada em Apuí, no Amazonas
Brigadista do Prev Fogo, do Ibama, verifica área de floresta derrubada e queimada em Apuí, no Amazonas, um dos municípios que voltaram a registrar queimadas na região (foto de 2020). Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real (CC BY 2.0), via Wikimedia Commons.

O gatilho de emergência do governo ainda não foi acionado

Em 9 de setembro de 2026, o governador Roberto Cidade assinou decreto que proíbe qualquer queima no Amazonas e prevê situação de emergência estadual caso o material particulado ultrapasse 250 microgramas por metro cúbico. Isso é mais rígido que a queima controlada usada por brigadas do ICMBio como manejo do fogo em unidades de conservação.

Esse gatilho de 250 microgramas ainda não havia sido acionado até 23 de setembro, segundo o jornal O Tempo, mesmo com sensores como o Selva e a IQAir registrando picos pontuais acima desse valor em diferentes bairros e horários.

O que os outros sensores da cidade mediram no mesmo dia

O aplicativo Selva, mantido pela Universidade do Estado do Amazonas com sensores de baixo custo espalhados pela região metropolitana, marcou 324,1 microgramas por metro cúbico às 6h de 23 de setembro, também na faixa péssima.

Horas depois, o jornal O Tempo registrou leitura de 291 microgramas no mesmo sistema. Naquele momento, a leitura de Manaus superava a de Kinshasa, então classificada pela IQAir como a cidade mais poluída do mundo, segundo comparativo do site Combate Racismo Ambiental.

El Niño muda o vento e empurra mais fumaça para Manaus, segundo pesquisadoras

Professora da Universidade Federal do Acre e membro da Academia Brasileira de Ciências, Sonaira Silva afirma que o Amazonas já mostra sinais persistentes de falta de chuva e calor excessivo, com os oceanos na maior temperatura média já registrada.

Mestre em clima e ambiente, Samantha Lacerda explica que a combinação entre El Niño e o aquecimento do Pacífico Central derruba a umidade relativa do ar na região, o que favorece tanto a seca do rio Negro quanto o número maior de queimadas.

O impacto na rotina: jogos adiados e alerta de saúde

Federação Amazonense de Futebol adiou as partidas das quartas de final do Campeonato Amazonense Sub-12 marcadas para 23 de setembro, seguindo orientação dos órgãos de saúde para reduzir atividade física ao ar livre.

A crise ambiental de Manaus em 2026 não se resume à fumaça: a cidade também repercutiu, dias antes, o caso do furão-da-Amazônia resgatado depois de sete meses criado como bichinho de estimação. As unidades de saúde municipais seguem de plantão para atender sintomas respiratórios ligados à fumaça.

O que vem a seguir para o ar de Manaus

O comitê de crise climática reunido pelo prefeito Renato Junior mantém monitoramento diário com drones e prevê apoio a produtores rurais para reduzir queimadas nas próximas semanas, enquanto durar o período mais seco do ano.

A Prefeitura promete novos boletins conforme a fumaça evoluir, e o gatilho estadual de 250 microgramas segue como o próximo número a observar. Você já sentiu os efeitos da fumaça das queimadas onde mora? Conte nos comentários.

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