É falso que brigadistas do ICMBio atearam fogo de propósito no Pantanal: vídeo antigo mostra queima controlada, técnica de manejo do fogo usada para proteger a Estação Ecológica de Taiamã
Um vídeo voltou a circular em grupos de WhatsApp afirmando que brigadistas do ICMBio atearam fogo de propósito no Pantanal. A gravação é de 2020, feita em Cáceres (MT): mostra queima controlada, técnica de manejo do fogo usada pelo ICMBio e pelo Ibama para proteger uma unidade de conservação, não um ato de sabotagem.
Brigadista do Prevfogo em ação de combate a incêndio florestal: a mesma lógica de proteção está por trás da queima controlada mostrada no vídeo que voltou a circular sobre o Pantanal. Foto: Augusto Dauster/Ibama, Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).
O vídeo mostra homens de uniforme atirando fogo sobre vegetação seca. A legenda que circula junto afirma que são brigadistas do ICMBio provocando incêndios de propósito no Pantanal. A gravação já foi usada tanto para acusar o governo de sabotagem quanto para atribuir queimadas reais do bioma a uma suposta ação criminosa da fiscalização ambiental.
Segundo a agência de checagem Aos Fatos, as imagens foram gravadas em 12 e 13 de setembro de 2020, em Cáceres (MT), durante uma queima controlada para impedir que um incêndio avançasse sobre a Estação Ecológica de Taiamã. O vídeo é reaproveitado, fora de contexto, a cada nova temporada de queimadas no Pantanal.
É falso que brigadistas do ICMBio ateiam fogo de propósito no Pantanal. O vídeo é de 2020 e mostra queima controlada, técnica de manejo do fogo usada para eliminar vegetação seca de forma programada e proteger uma unidade de conservação de um incêndio maior.
O que o vídeo de brigadistas do ICMBio realmente mostra
Nas imagens, os agentes usam um equipamento chamado pinga-fogo para atear pequenas chamas em faixas de vegetação seca, de forma organizada e monitorada. Não é um incêndio se espalhando sem controle: é o oposto, uma barreira de fogo criada para conter um incêndio maior antes que ele chegasse à área protegida.
Segundo o ICMBio, citado pela Aos Fatos, a queima eliminou matéria orgânica seca de maneira programada, reduzindo o combustível disponível para as queimadas ilegais que avançavam na região. A ação foi considerada bem-sucedida: a Estação Ecológica de Taiamã não chegou a ser atingida pelas chamas.
De onde veio a gravação e quando foi feita
As imagens foram produzidas por um dos próprios brigadistas em campo, em Cáceres (MT), nos dias 12 e 13 de setembro de 2020. Elas voltaram a circular anos depois, sempre apresentadas como se fossem recentes, o que fez a checagem repetir a explicação mais de uma vez, a última publicada pela Aos Fatos em 5 de setembro de 2024.
Esse reaproveitamento de vídeo antigo como se fosse atual é comum em boatos sobre o Pantanal. A cada temporada seca, quando o bioma volta ao noticiário por causa de incêndios reais, as mesmas imagens de 2020 ressurgem com legendas novas, atribuindo a queima controlada a uma suposta ação criminosa.
O que é a queima controlada ou queima prescrita
A queima controlada, também chamada de queima prescrita, é uma das técnicas do Manejo Integrado do Fogo, estratégia que o Ibama e o ICMBio aplicam em unidades de conservação, terras indígenas e territórios quilombolas. O fogo é usado numa área pequena, definida antes, em dias de vento fraco e umidade mais alta.
Sem esse manejo, o material orgânico seco se acumula e vira combustível abundante para incêndios mais intensos. A queima prescrita funciona como um aceiro vivo: elimina essa carga de vegetação seca em pequenas doses, sob monitoramento, reduzindo o risco de fogo descontrolado mais à frente.
Quem aplica o manejo do fogo no Brasil
O Manejo Integrado do Fogo passou a ser aplicado de forma sistemática pelo Ibama e pelo ICMBio em unidades de conservação federais depois que estudos mostraram que a supressão total do fogo deixava as áreas protegidas mais vulneráveis a incêndios catastróficos nos anos seguintes.
Hoje, brigadas do Prevfogo, programa do Ibama, e do próprio ICMBio são treinadas para esse tipo de operação, que soma prevenção, queima prescrita e combate direto a incêndios florestais. Em 2026, o país conta com centenas de brigadas e milhares de brigadistas mobilizados na temporada seca.
O que outras agências de checagem apuraram
Além da Aos Fatos, a Agência Lupa e o projeto Comprova também já analisaram versões desse mesmo vídeo circulando como prova de incêndio criminoso. A Lupa classificou a publicação como falsa, e o Comprova ouviu um analista do Prevfogo, que confirmou se tratar de técnica reconhecida de combate a incêndio.
As três checagens independentes chegam à mesma conclusão: a gravação documenta uma ação de proteção ambiental, não uma queimada criminosa. Nenhuma delas encontrou evidência de que o objetivo fosse causar dano à vegetação nativa do Pantanal.
Nem toda queima no Pantanal é como a do vídeo, e vale o alerta
Explicar que aquele vídeo específico mostra uma técnica legítima não significa que todo fogo no Pantanal seja controlado ou autorizado. O bioma também sofre com queimadas criminosas e focos de incêndio que fogem do planejamento, sobretudo em fazendas e áreas sem fiscalização direta.
A diferença prática está em quem ateia o fogo, com que autorização e sob qual monitoramento. Uniforme oficial, planejamento prévio e área delimitada apontam para manejo; fogo sem identificação, fora da época definida e sem controle, aponta para irregularidade.
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Como reconhecer esse tipo de boato antes de compartilhar
Um sinal de alerta é a ausência de data ou local específico na legenda que acompanha o vídeo. Quando a publicação não diz onde nem quando aquilo foi filmado, é indício de que a imagem pode estar fora do contexto original. Vídeo sem data verificável não é prova de nada.
Outro sinal é a presença de uniforme oficial, capacete e identificação visível dos agentes, como nas imagens de Cáceres. Quando quem aparece no vídeo está claramente identificado como parte de uma operação institucional, a hipótese de ação criminosa isolada perde força.
Situação do combate a incêndios no Pantanal hoje
O Pantanal segue entre os biomas brasileiros mais vulneráveis a incêndios florestais na estação seca, sobretudo entre julho e novembro. O uso e o manejo do fogo em áreas rurais do bioma ficam sujeitos a restrições nesse período, para reduzir o risco de queimadas fora de controle.
É nesse cenário de atenção redobrada que vídeos antigos como o de Cáceres voltam a circular: o clima seco e as notícias reais sobre incêndios criam terreno fértil para que uma imagem de 2020, mostrando proteção ambiental, seja reapresentada como prova de um crime que nunca existiu.
O que fica desse caso sobre os brigadistas do ICMBio
A queima controlada seguirá sendo usada pelo ICMBio e pelo Ibama como ferramenta de proteção, e vídeos como o de Cáceres devem continuar reaparecendo, ano após ano, como se fossem prova de um crime que as checagens já descartaram.
Antes de repassar uma imagem chocante sobre fogo no Pantanal, vale checar se ela tem data, local e fonte oficial por trás, ou se foi repassada só porque parecia grave demais para não ser verdade. Você já flagrou algum vídeo assim circulando por aí? Conte nos comentários.



