Ciência

Este é o rosto do Homo sapiens mais antigo conhecido: brasileiro reconstrói face de 315 mil anos

O artigo saiu na revista Heritage em setembro de 2026 e mostra, em quatro ângulos, como pode ter sido o rosto de um adulto que viveu no Marrocos há cerca de 315 mil anos. É uma estimativa feita no computador, a partir de um crânio montado com peças de mais de um indivíduo.

Quatro vistas coloridas do rosto reconstruído do Homo sapiens de Jebel Irhoud, de barba escura e cabelo longo, em fundo preto, o rosto do Homo sapiens mais antigo

Versão colorida da aproximação facial do hominínio de Jebel Irhoud. Pele, cabelo e barba são interpretação artística, segundo os autores. Imagem: Cícero Moraes et al., Heritage, 2026, MDPI, licença CC BY 4.0, recortada.

O brasileiro Cícero Moraes e cinco coautores publicaram a reconstrução digital do rosto do hominínio de Jebel Irhoud, no Marrocos, datado de cerca de 315 mil anos. Os fósseis são os mais antigos atribuídos ao Homo sapiens, segundo o artigo da revista Heritage, editada pela MDPI.

A face é uma aproximação, não um retrato. O estudo a descreve como projeção morfologicamente plausível, guiada pelos ossos, mas sem como ser conferida contra tecido mole, porque nenhum sobrou.

Um crânio achado por um trabalhador de mina

No início dos anos 1960, durante a extração de minerais em Jebel Irhoud, um trabalhador encontrou um crânio de traços parecidos com os humanos. As primeiras análises o trataram como uma variante africana de neandertal, com cerca de 40 mil anos.

As datações foram recuando. Em 1991, a estimativa ficou entre 100 mil e 200 mil anos, e em 2007, em torno de 160 mil. Em 2017, dois artigos da revista Nature reclassificaram os restos como Homo sapiens e deram a idade de cerca de 315 mil anos, com margem de 34 mil para mais ou para menos.

Um modelo montado com peças de vários indivíduos

O ponto de partida foi o crânio digital que o Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva (Leipzig) liberou em 2017, com licença Creative Commons. Ele é composto: a calota e a parte alta da face vêm do fóssil Irhoud 1, de 1961, a mandíbula vem do Irhoud 11 e a arcada superior, possivelmente, do Irhoud 10.

Depois de uma nova escavação, iniciada em 2004, o número de indivíduos identificados no sítio passou de 6 para 22. Os autores dizem que não identificaram relato detalhado de como o modelo composto foi montado.

Como foi feito o rosto do Homo sapiens mais antigo

A equipe usou a técnica de deformação anatômica restrita. Uma tomografia de um adulto moderno, anônimo e com consentimento por escrito, serviu de doador virtual e foi deformada até se encaixar no crânio de Jebel Irhoud. Dados de espessura de tecido mole de populações humanas atuais definiram a projeção do nariz e de outras estruturas.

O trabalho todo rodou em software livre, o Blender com um complemento do próprio Moraes, segundo o artigo. Um subproduto foi o volume da cavidade do cérebro, que ficou perto do que outros grupos mediram direto no fóssil e dentro da variação de gente de hoje.

O que foi medidoResultado do estudoComparação
Volume da cavidade do cérebro1.364 mL1.375 mL, medido por outros pesquisadores direto na tomografia do fóssil; estudos anteriores vão de 1.305 a 1.480 mL
Volume do cérebro (cavidade menos 9,81%)1.230 cm³1.234 cm³ (± 98) na média de homens adultos de hoje
Circunferência da cabeça60 cm56,4 cm (± 2,4) na média de homens adultos de hoje; fica 1,58 desvio-padrão acima

Arte: Watts & Wild, com dados de Moraes et al., Heritage, 2026.

Duas versões do mesmo rosto

Quatro vistas do rosto reconstruído do hominínio de Jebel Irhoud em tons de cinza, sem cabelo nem barba, em fundo preto
A versão neutra do estudo, em cinza e sem cabelo, feita para mostrar a relação entre o rosto e o osso. Imagem: Cícero Moraes et al., Heritage, 2026, MDPI, licença CC BY 4.0.

O estudo apresenta dois conjuntos de imagens. Um é neutro, em cinza e sem cabelo ou barba, para mostrar como o rosto se relaciona com o osso. O outro é colorido, com cor de pele, cabelo e barba.

Os autores dizem que a segunda versão é artística: cor de pele, luz e cabelo não vêm de evidência do fóssil, e sim de convenções baseadas em estudos de populações antigas e atuais. Ela existe porque o público costuma se interessar mais por imagens humanizadas.

O que a reconstrução sustenta e o que é palpite

O que tem base é a forma do osso. O artigo cita o arco da mandíbula marcante e a projeção forte das sobrancelhas ósseas, que dão ao conjunto o padrão de um adulto robusto. O volume do cérebro cai na variação de homens modernos.

O que é palpite: espessura de músculo e pele, formato de nariz e lábios, cor, cabelo, barba e expressão. Os autores escrevem que traços de robustez do crânio podem ter correspondido a músculos e pele diferentes dos de gente atual, e que isso não dá para medir.

Do arquivo de 2024 ao artigo revisado

A reconstrução já circulava. Uma versão preliminar saiu em português na OrtogOnLineMag e como preprint no figshare, segundo o próprio artigo, e a imprensa noticiava o rosto em junho de 2024, quando a Hespress descreveu Moraes como designer 3D e especialista brasileiro em computação gráfica.

A novidade de 2026 é a revisão publicada em periódico, com o modelo checado contra medidas da literatura e contra uma malha 3D de terceiros, feita por Marvin Sevilla, que o artigo diz ser compatível. O Sci.News resumiu o estudo em 23 de setembro.

Limites do estudo de Jebel Irhoud

O próprio artigo pede cautela. O crânio é composto de vários indivíduos, a base de comparação é gente moderna e não existe tecido mole preservado para validar o resultado. Para os autores, a face deve ser lida como aproximação plausível, não como reconstrução diagnóstica ou definitiva.

O texto completo está em acesso aberto no site da Heritage. Para outro fóssil estudado nesta semana, leia a matéria sobre o crocodilo achado na pedra da Esfinge.

Fontes: Moraes et al., Digital Facial Approximation of Jebel Irhoud Composite Skull (~315,000 BP), Heritage, setembro de 2026. Sci.News, 23 de setembro de 2026. Hespress English, 21 de junho de 2024.

Espaço de anúncio

Mais do Watts & Wild

Mais em Ciência e tecnologia →

A natureza do Brasil, uma vez por dia

Sem spam. Só o que viralizou no Brasil, checado e explicado, direto no seu e-mail.