Rios voadores da América do Sul têm cabeceira, drenagem, foz e planície, como os rios do chão, mostra estudo
A umidade que viaja pelo ar por anos seguidos também tem nascente, trecho de drenagem, foz e planície. Pesquisadores da Universidade Nacional de Taiwan mapearam essas quatro regiões em 724 pontos do continente e dizem onde cada uma cai no Brasil.
O rio Amazonas e as nuvens baixas sobre a floresta, vistos pelo satélite Terra, da NASA, em agosto de 2009. Foto: NASA, Jeff Schmaltz (MODIS Rapid Response), Wikimedia Commons, domínio público, recortada.
Os rios voadores da América do Sul se dividem em quatro tipos de região, como os rios do chão: cabeceira, drenagem, foz e planície. A classificação está em um estudo da Universidade Nacional de Taiwan publicado em 3 de agosto de 2026 na Nature Communications, a partir de 724 pontos de 1,5 grau de lado espalhados pelo continente.
O primeiro autor é Wei Weng, do Departamento de Geografia da universidade. A equipe usou dados de vento, evaporação e chuva de 2006 a 2015 para saber de onde vem a água que cai em cada ponto.
O que são os rios voadores
Rios voadores, ou rios aéreos no título do estudo, são caminhos que o vapor de água segue no ar por longos períodos. Plantas e solo devolvem água à atmosfera, o vento leva esse vapor adiante e a chuva o descarrega mais longe.
Eles não são os rios atmosféricos dos alertas de tempestade. Segundo o artigo, esses duram menos de um dia e têm 400 a 600 km de largura. Os rios voadores são a média de muitos anos de vento.
As quatro regiões dos rios voadores, da cabeceira à planície
Cada ponto do mapa recebe chuva de áreas que ficam contra o vento. Os autores calcularam quanto dessa chuva vem de áreas cada vez maiores e marcaram o ponto em que a contribuição despenca. A área antes desse ponto é a bacia aérea crítica.
Estudos anteriores usavam cortes fixos, de 40%, 70% ou 80%. O método novo acha o ponto de virada de cada região e mostra que ele varia: de 90 a 95% da chuva de origem continental nas cabeceiras a 30 a 40% nas planícies.
| Tipo | Onde fica | Área crítica média | Peso na chuva de origem continental |
|---|---|---|---|
| Cabeceira | Amazônia voltada para o vento, Planalto das Guianas, boa parte do Chile e da Patagônia | 930 mil km² | 90 a 95% |
| Drenagem | Faixa da Colômbia ao meio da Amazônia e ao Nordeste do Brasil, parte da Patagônia | 410 mil km² | 60 a 75% |
| Foz | Sul da Amazônia, Planalto Brasileiro, Pampas, parte dos Andes | 260 mil km² | 40 a 55% |
| Planície | Chaco, Centro-Oeste do Brasil, bacia do Prata | 140 mil km² | 30 a 40% |
Arte: Watts & Wild, com dados de Weng et al., Nature Communications, 2026. "Área crítica" é a bacia aérea que fica antes do ponto de virada da curva de umidade.
Na cabeceira, só 12% da chuva total vem de umidade que passou pelo continente. O resto sai direto do oceano. Na faixa de drenagem essa fatia sobe para 33%, e é ali que chega a maior quantidade de umidade continental do mapa, segundo os autores.
Onde ficam os rios voadores no Brasil
A Amazônia voltada para o vento do Atlântico é cabeceira. O Nordeste e a parte central da floresta ficam na faixa de drenagem. O sul da Amazônia e o Planalto Brasileiro são foz, o ponto em que a umidade perde velocidade de repente, como num rio.
O Centro-Oeste e a bacia do Prata são planície. É a região que mais depende da umidade que já passou pelo continente, de acordo com o estudo, e a que recebe menos umidade por quilômetro percorrido.
Na bacia do Prata, as cabeceiras dos rios do chão ficam numa planície aérea, e a área de onde vem o vapor está fora da bacia. A água do ar e a água do chão ali não se reforçam. Na Amazônia, a parte baixa do rio fornece umidade para a parte alta, e as duas redes trabalham juntas.
Para entender a cor dos rios do chão da região, veja por que o Rio Negro tem cor de chá e o Solimões é barrento. Outro exemplo recente está em rios cor de chá fotografados pela NASA no Canadá.
Por que isso entra na conta do desmatamento
Se o vapor vem de uma área específica, o que acontece ali decide a chuva lá na frente. O artigo lembra um estudo anterior no Peru: o desmatamento a favor do vento da bacia do Ucayali pode reduzir de 5% a 13% a chuva anual e de 19% a 50% a vazão do rio.
Pelas contas dos novos autores, foz e planície dependem mais de chuva de origem continental. Por isso a perda de umidade pesa mais, em proporção, nessas regiões, para cada área desmatada na bacia aérea crítica. É o argumento do estudo para rever as prioridades de conservação de floresta.
O que o estudo ainda não mostra sobre os rios voadores
O trabalho usa dados de reanálise e modelos, não medições diretas do vapor em cada ponto. A base principal tem só dez anos, de 2006 a 2015. Com 30 anos de dados (1990 a 2019), cerca de 5% dos pontos mudaram de tipo.
Os próprios autores avisam que as quatro divisões não seguem fronteiras de clima ou de relevo. Dizem também que o período teve uma fase positiva da Oscilação Multidecadal do Atlântico, que pode ter deixado o efeito dos rios voadores menos marcado do que em outras fases.
O estudo não prevê quanta chuva cai em cada cidade nem mede o que o desmatamento causa hoje. O texto completo, com os mapas e os números por região, está no site da revista, com o DOI 10.1038/s41467-026-76303-y.
Fontes: Weng et al., Hydrological regimes and drainage systems of aerial rivers across South America, Nature Communications, 3 de agosto de 2026. Imagem: NASA Earth Observatory.



