O rio Negro tem cor de chá porque a areia pobre da bacia deixa as folhas se desfazerem devagar e soltarem ácidos escuros na água, enquanto o Solimões chega barrento carregando a lama que desce dos Andes
Quem passa de barco pelo Encontro das Águas, em Manaus, vê dois rios lado a lado sem se misturar: um escuro, outro cor de barro. A diferença começa longe dali, no chão de cada bacia, e a ciência já explica quase tudo o que deixa o rio Negro com cara de chá.
Encontro das Águas visto do alto, em Manaus: o rio Negro, escuro, ao lado do Solimões, barrento. Foto: Portal da Copa, Wikimedia Commons, licença CC BY 3.0 BR, recortada.
O rio Negro tem cor de chá por causa de ácidos húmicos e fúlvicos, que saem de restos de plantas que se decompõem muito devagar. A explicação está numa revisão científica de 2024 assinada por pesquisadores da Universidade de San Diego e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Inpa.
Tudo começa na areia
O rio Negro drena quase 700 mil quilômetros quadrados no noroeste da bacia amazônica. Segundo a revisão, os solos ali são feitos em grande parte de areia de sílica, que segura mal os nutrientes. Resultado: a água tem uma quantidade de sais minerais excepcionalmente baixa.
É um rio pobre em minerais. E essa pobreza, explicam os autores, puxa a corrente de efeitos que acaba na cor.
Folha que demora a apodrecer
Com tão poucos sais dissolvidos, há também pouca variedade de bactérias. Folhas e galhos que caem na água se desfazem muito devagar. Em vez de sumirem, viram uma grande quantidade de matéria orgânica dissolvida, cheia de ácidos orgânicos.
São principalmente os ácidos húmicos e fúlvicos que, nas palavras da revisão, deixam o rio ácido e produzem a cor de chá característica. É também o que explica o nome de água preta. Funciona como um saquinho de chá enorme, com a floresta fazendo o papel da erva.
Quanto o rio Negro tem cor de chá: o que diz a medição
A revisão reúne medições do carbono orgânico dissolvido, a sopa de matéria orgânica que tinge a água. Em algumas áreas, a concentração chega a 12 miligramas por litro. A maior parte desse material tem assinatura de substância húmica, vinda da floresta e do solo.
De perto, a água não é preta. Na foto acima, tirada numa praia do rio, ela aparece transparente e avermelhada sobre a areia clara, e escurece onde fica mais funda.
E por que o Solimões é barrento
O vizinho segue a receita oposta. Pesquisadores da Fiocruz Amazônia, do Inpa e da Universidade do Estado do Amazonas descreveram a divisão num estudo publicado no Malaria Journal, em 2023. Os rios de água branca nascem nos Andes e carregam muito sedimento em suspensão.
Além do Solimões, entram nesse grupo o Madeira, o Purus e o Juruá. Têm pH perto do neutro e aquele tom de café com leite. Já os de água preta, como o Negro, levam pouca lama e muita matéria orgânica dissolvida, e são ácidos.
Os três tipos de rio da Amazônia
| Tipo de rio | Cor | Por quê | Exemplos |
|---|---|---|---|
| Água branca | Barrenta, cor de café com leite | Muito sedimento vindo dos Andes; pH perto do neutro | Solimões, Madeira, Purus, Juruá |
| Água preta | Chá escuro | Ácidos húmicos e fúlvicos dissolvidos; pouca lama; água ácida | Rio Negro, o maior deles |
| Água clara | Esverdeada ou transparente | Pouco sedimento; pH perto do neutro | Tapajós |
Arte: Watts & Wild, com a classificação descrita por pesquisadores da Fiocruz Amazônia, do Inpa e da UEA no Malaria Journal (2023).
O terceiro tipo: água clara
Existe ainda um terceiro grupo, que costuma ficar fora da conversa. Os rios de água clara, como o Tapajós, aparecem esverdeados ou transparentes. Carregam pouco sedimento, têm alguma matéria orgânica dissolvida e pH perto do neutro, segundo o mesmo estudo.
A cor do rio e a malária
O estudo de 2023 não parou na classificação. Os pesquisadores cruzaram a cor dos rios com os casos de malária em 50 municípios do Amazonas, de 2003 a 2019. Lugares perto de rios de água preta tiveram mais malária do que os da beira de rios de água branca.
É uma associação estatística, não uma prova de causa. O mosquito transmissor se reproduz na água, e o estudo testou hipóteses sobre as características de cada tipo de rio.
Vida adaptada à água ácida
A química da água preta é dura para muitos peixes, e é justamente esse o assunto da revisão do Inpa: como os peixes conseguem absorver sais de uma água tão ácida e tão pobre. Os botos da foto acima nadam nessa mesma água escura, que fica avermelhada perto da superfície.
A cor e a seca
Na estiagem, o rio baixa, como mostram a cota desta semana em Manaus, a terceira maior seca registrada e o decreto de estiagem do Amazonas. O carbono dissolvido também varia com a estação: foi mais alta na estação chuvosa do que na seca, nos dados reunidos pelos autores.
O que ainda não dá para afirmar sobre a cor dos rios
As concentrações citadas vêm de medições reunidas pela revisão e mudam de lugar para lugar. A ligação com a malária é uma correlação em 50 municípios. Nenhuma das fontes mede a cor do rio nesta semana.
Fontes: Gonzalez, Patrick e Val, Ion uptake in naturally acidic water, Journal of Comparative Physiology B, 2024. Estudo da Fiocruz Amazônia, Inpa/UEA e parceiros sobre a cor dos rios e a malária, Malaria Journal, 2023.



