Recifes de ostra valem US$ 12 trilhões por ano se forem recuperados, diz estudo: 85% já sumiram
Se todos os recifes de ostra dos dez países com mais potencial fossem restaurados, eles entregariam até US$ 12 trilhões por ano em serviços como filtrar a água e proteger a costa. O cálculo saiu nesta quarta-feira (7) na Frontiers in Marine Science. O Brasil não está entre os dez.
Recife de ostras aflorando na maré baixa perto do píer de pesca de Hunting Island, na Carolina do Sul (EUA). A foto não é do estudo. Foto: Jstuby, Wikimedia Commons, domínio público, recortada.
Recifes de ostra totalmente restaurados nos dez países de maior potencial valeriam US$ 12 trilhões por ano, segundo o estudo de Wu e Convertino, publicado em 7 de outubro de 2026 na Frontiers in Marine Science. O valor é uma estimativa de potencial, não uma receita que alguém recebe hoje.
O autor correspondente, Matteo Convertino, professor associado da Universidade Tsinghua, diz que a conta vale para os dez países com mais "ecopotencial" no mundo. Segundo o comunicado da Frontiers, cerca de 85% dos recifes de ostra foram perdidos no último século, sobretudo em estuários e deltas de rios.
O que é o "produto bruto do ecossistema"
Os autores usaram o conceito de produto bruto do ecossistema, o equivalente ecológico do produto interno bruto. Ele soma o que o recife entrega: ostras para comer, filtragem da água, proteção do litoral, reciclagem de nutrientes na cadeia alimentar e sequestro de carbono.
Os recifes também servem de comida, abrigo e berçário para peixes e invertebrados. É uma estimativa de valor, calculada com médias globais de parâmetros do ambiente.
Quais são os dez países e quanta costa cabe nessa conta
Os dez países de maior potencial são EUA, Austrália, Chile, China, Japão, Coreia do Sul, Argentina, França, Alemanha e Itália. Neles, cerca de 295 mil km², ou 6% das zonas costeiras analisadas, foram considerados adequados para recifes de ostra.
Os recifes conhecidos ocupam hoje só 10% dessa área, sobretudo em lagoas, baías, estuários e deltas. E apenas 23% dela tem algum tipo de proteção marinha.
| Número do estudo | Valor | A que se refere |
|---|---|---|
| Valor potencial por ano | US$ 12 trilhões | Dez países, com todos os recifes restaurados |
| Recifes perdidos | 85% | No último século, no mundo, sobretudo em estuários e deltas |
| Área adequada | 295 mil km², 6% da costa | Nos dez países |
| Já ocupada por recifes | 10% | Da área adequada |
| Sob alguma proteção marinha | 23% | Da área adequada |
| Locais que precisam de restauração | 90% | Dos locais adequados |
| Locais que precisam de proteção | 80% | Dos locais adequados |
Arte: Watts & Wild, com dados do comunicado da Frontiers de 7 de outubro de 2026 e do artigo de Wu e Convertino.
Como os pesquisadores chegaram aos números
A equipe importou milhares de registros georreferenciados de recifes de ostra de duas bases públicas. Depois usou um algoritmo de aprendizado de máquina para prever onde o ambiente serve para o recife: temperatura da água, salinidade, luz, nutrientes e oxigênio entram na conta.
Todo local com pontuação de adequação de 65% ou mais foi classificado como adequado. Os autores cruzaram essa nota com a medida dos serviços que um recife ali prestaria e chamaram o resultado de ecopotencial: quanto maior, maior o benefício.
Filtragem, carbono e nitrogênio em números
Se toda a área com ecopotencial positivo fosse ocupada por recifes, eles filtrariam 77,58 quatrilhões de litros de água nos EUA, 69,92 quatrilhões na Austrália e 46,58 quatrilhões no Chile, segundo os cálculos dos autores.
Os recifes também poderiam sequestrar até 12,3 milhões de toneladas de carbono por ano. Só nos EUA, o valor somado de remover nitrogênio, sequestrar carbono e purificar a água foi estimado em US$ 25,1 bilhões por ano.
O que falta para os recifes voltarem?
A equipe estima que 90% dos locais adequados precisam de restauração e 80% de proteção por medidas de conservação. A estrutura da foto acima, montada por voluntários no litoral da baía de Delaware, é um exemplo de trabalho desse tipo.
Para Convertino, "a situação atual das ostras está muito aquém do ideal, mas há uma enorme oportunidade, considerando os benefícios".
O aquecimento do mar muda o mapa dos recifes
O pesquisador espera que o valor global caia abaixo dos US$ 12 trilhões, porque o aquecimento global em geral piora o habitat das ostras. Alguns países, porém, podem ganhar recifes com condições mais favoráveis ao crescimento e à dispersão das ostras: Austrália, Indonésia, Coreia do Sul, Japão e França.
O Brasil ficou de fora da lista dos dez
O comunicado e o texto do estudo não citam o Brasil. Dois vizinhos sul-americanos, Argentina e Chile, estão entre os dez. A lista é de potencial calculado pelo modelo, não de quem tem mais ostra hoje.
Outro ecossistema marinho sob pressão do calor aparece na matéria sobre coral doente, que mostrou o risco de morte de corais doentes nas ondas de calor do mar.
O que o estudo não prova
Os US$ 12 trilhões valem só se os dez países restaurarem totalmente seus recifes. Hoje, esses recifes ocupam 10% da área adequada, então o valor é um teto de potencial e não o que os recifes rendem agora.
Os autores avisam que são estimativas feitas com médias globais de parâmetros-chave, e que o resultado muda com as populações de ostras e com a crise climática. O método é de dados e estatística: o trabalho modela onde os recifes caberiam, sem medir cada um em campo.
O artigo completo está aberto na Frontiers in Marine Science, com DOI 10.3389/fmars.2026.1900813.
Fontes: Frontiers, comunicado de 7 de outubro de 2026, no EurekAlert. Wu e Convertino, Frontiers in Marine Science, 13:1900813, 2026.



