Coral doente tem quase 4 vezes mais risco de morrer na onda de calor do mar
Quando a água dos recifes da Flórida passou de 31 °C e ficou assim por 41 dias seguidos em 2023, nem todo coral sofreu igual. Pesquisadores da Universidade da Geórgia mediram quem morreu primeiro: o tecido que já tinha lesão de doença.
Coral branqueado em viveiro perto de Tavernier, na Flórida, em 30 de julho de 2023. A foto não é do estudo. Foto: Symbiosis, Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0, recortada.
Coral com lesão de doença teve risco 3,8 vezes maior de morrer na onda de calor marinha de 2023 na Flórida do que o tecido saudável da mesma colônia. O resultado é de um estudo da Universidade da Geórgia (EUA), publicado na revista Coral Reefs, e vale para o coral-chifre-de-alce (Acropora palmata).
O tecido saudável vizinho de uma lesão também sofreu: teve risco 1,5 vez maior que o tecido distante, segundo o artigo na Coral Reefs. Os autores dizem que as duas ameaças, em escalas diferentes, agiram em conjunto e somaram a mortalidade.
O que a equipe mediu nos recifes da Flórida
A equipe fotografou colônias de coral-chifre-de-alce em recifes das Florida Keys e seguiu, nas imagens, cada pedaço de tecido ao longo do tempo. Segundo o artigo, 50 colônias foram acompanhadas em julho de 2023. Outras 35 foram seguidas entre julho e novembro de 2022, antes da onda de calor.
Depois, um modelo estatístico de risco de morte (o modelo de Cox) comparou o tecido com lesão, o tecido vizinho e o tecido saudável longe da doença. A doença em questão é a varíola branca, que deixa manchas brancas de formato irregular onde o esqueleto aparece.
Um verão que passou de 31 °C por 41 dias
O verão de 2023 foi o mais quente já registrado nos recifes das Florida Keys. A temperatura da superfície do mar ficou acima de 31 °C por 41 dias, mais que em qualquer ano anterior da região, segundo o artigo.
O calor foi a causa principal das mortes. Mesmo assim, Camilla Nivison, autora correspondente e doutoranda da Escola de Ecologia Odum, diz que enfrentar várias ameaças ao mesmo tempo dificulta a sobrevivência do coral. O comunicado da universidade, assinado por Savannah Peat, saiu no Phys.org em 5 de outubro de 2026.
Quanto o risco do coral doente sobe
| Tipo de tecido | Risco de morrer no calor | Comparado com |
|---|---|---|
| Saudável, longe da lesão | base (1,0) | ponto de partida |
| Saudável, vizinho da lesão | 1,5 vez maior | tecido saudável da mesma colônia |
| Com lesão de doença | 3,8 vezes maior | tecido saudável da mesma colônia |
Arte: Watts & Wild, com dados do resumo do artigo publicado na Coral Reefs em 2026.
As bordas do recife salvaram mais corais
A segunda descoberta é de lugar. Nas medições feitas no próprio recife, o coral sobreviveu mais na borda. A hipótese dos autores é que o recife desvia a água e a corrente fica mais rápida ali, o que ajuda a levar embora os resíduos do metabolismo do coral e a trazer alimento.
Hoje restam poucas colônias vivas. Segundo o mapa do artigo, em agosto de 2025 não havia colônia viva entre as 8 de Horseshoe e as 7 de Looe Key. Em Elbow, a maioria das 13 estava viva, e em Sombrero, cerca de metade das 2.
O que isso muda para quem restaura corais
Os autores sugerem concentrar a restauração nas bordas dos recifes, onde a chance de sobreviver é maior. O professor emérito James Porter, coautor, disse que melhorar a qualidade da água local também aumenta a sobrevivência do coral.
Porter lembrou ainda que o coral-chifre-de-alce já foi o mais comum do Caribe. O artigo o descreve como funcionalmente extinto em todo o recife da Flórida.
E nos corais do Brasil?
O coral-chifre-de-alce não é o coral dos recifes de Abrolhos, na Bahia. Lá, o principal construtor é o coral-cérebro Mussismilia braziliensis, que só ocorre na Bahia e no Espírito Santo. A ficha da espécie no sistema SALVE, do ICMBio, aponta como principal ameaça os eventos extremos de aquecimento da água, com branqueamento e mortalidade.
Nenhum dado desse estudo mede a doença em corais brasileiros, então o número de 3,8 vezes não vale para eles. A NOAA mantém uma página de status do branqueamento global, atualizada em 2 de junho de 2026. Para conhecer o mar da mesma região, leia sobre a temporada das baleias-jubarte em Abrolhos.
O que o estudo não mostra
Foram poucas colônias de uma única espécie, em recifes de uma região só, e os autores falam em hipótese quando explicam o efeito da corrente. A ficha do ICMBio consultada traz a marca de "não publicada", então serve como referência da ameaça, não como laudo.
O estudo também não diz que a doença sozinha mataria o coral: o calor foi a causa principal. O texto completo está aberto, sob licença CC BY 4.0, no site da Coral Reefs.
Fontes: Coral Reefs, 2026, DOI 10.1007/s00338-026-02928-6. Universidade da Geórgia, via Phys.org, 5 de outubro de 2026. ICMBio, ficha de Mussismilia braziliensis no SALVE. NOAA Coral Reef Watch.



