Ciência

Por que existem estações do ano? Não é a distância do Sol, explica a NASA: em janeiro a Terra fica mais perto dele e é verão no Brasil, inverno no Hemisfério Norte, porque quem manda é o eixo inclinado em 23,4 graus

Em janeiro a Terra está mais perto do Sol do que em julho, e mesmo assim é verão no Brasil e inverno no Hemisfério Norte. A pegadinha desmonta uma ideia que muita gente carrega desde a escola: quem manda nas estações do ano é a inclinação do eixo, não a distância.

Planeta Terra visto do satélite GOES-13 no solstício de dezembro de 2011, com a América do Sul no centro, quando as estações do ano se invertem entre os hemisférios

A Terra em 22 de dezembro de 2011, dia do solstício de dezembro, quando é verão no Hemisfério Sul. Imagem de nuvens do satélite GOES-13 sobre mapa em cores reais do MODIS. Crédito: NOAA/NASA GOES Project, imagem da NASA, recortada.

As estações do ano existem porque o eixo da Terra é inclinado, e não porque a distância até o Sol muda. É o que explica a NASA, no Space Place, o site de ciência da agência para o grande público, e na ficha oficial do planeta.

A pegadinha do janeiro mais perto do Sol

Dá para ouvir a ideia em qualquer roda de conversa: faz calor porque a Terra chegou mais perto do Sol. A NASA reconhece que a lógica faz sentido, mas escreve sem rodeio que ela está incorreta.

A órbita da Terra não é um círculo perfeito, é um pouco torta, e por isso a distância muda ao longo do ano. O ponto mais próximo do Sol, o periélio, acontece em janeiro, e o mais distante, o afélio, fica em julho.

Quantos quilômetros separam janeiro de julho

A NASA dá os números em milhas: 91,4 milhões no periélio e 94,5 milhões no afélio. Convertidos pela redação, com 1 milha igual a 1,609 km, dá cerca de 147,1 milhões de km em janeiro e 152,1 milhões de km em julho.

Duas barras quase do mesmo tamanho comparam a distância da Terra ao Sol em janeiro, 147,1 milhões de km, e em julho, 152,1 milhões de km, nas estações do ano
A diferença entre o ponto mais perto e o mais longe é pequena perto do trajeto inteiro. Ilustração: Watts & Wild com dados da NASA (Space Place); conversão de milhas para quilômetros feita pela redação.

A diferença passa de 3 milhões de milhas, uns 5 milhões de km, pouco mais de 3% da distância. Parece enorme até a gente olhar o trajeto inteiro: perto dele, diz a NASA, a variação não pesa muito no tempo que sentimos.

Janeiro e julho lado a lado

O argumento da distância esbarra num fato simples. No Hemisfério Norte é inverno em janeiro, justamente quando a Terra está mais perto do Sol, e verão em julho, quando está mais longe.

Para o Hemisfério Sul, onde fica a maior parte do Brasil, a conta é a mesma, só que invertida. A tabela junta as duas pontas do ano.

Época do anoA Terra no espaçoDistância do SolHemisfério Sul (Brasil)Hemisfério Norte
JaneiroPeriélio, o ponto mais pertocerca de 147,1 milhões de kmVerãoInverno
JulhoAfélio, o ponto mais longecerca de 152,1 milhões de kmInvernoVerão

Arte: Watts & Wild, com dados da NASA (Space Place). Quilômetros convertidos das milhas da NASA pela redação.

Quem manda nas estações do ano é a inclinação do eixo

O eixo é uma linha imaginária que atravessa a Terra de cima a baixo. O planeta gira em torno dele uma vez por dia, e é por isso que todo canto da superfície ganha um pedaço de dia e um de noite.

Só que esse eixo não fica em pé. Segundo a NASA, ele é inclinado 23,4 graus em relação ao plano da órbita. Enquanto a Terra dá a volta no Sol, o eixo aponta sempre para a mesma direção, e por isso regiões diferentes recebem os raios do Sol de forma mais direta em épocas diferentes.

Um eixo que nunca troca de lado

Imagine a Terra em dois pontos da volta, em lados opostos do Sol. O eixo continua apontando para o mesmo lado nos dois, e é isso que inverte o jogo.

Esquema com a Terra à esquerda perto de junho e à direita perto de dezembro, com o eixo inclinado 23,4 graus sempre para o mesmo lado, nas estações do ano
Esquema fora de escala: o eixo da Terra aponta sempre para o mesmo lado enquanto o planeta dá a volta no Sol. Ilustração: Watts & Wild com dados da NASA (Space Place e Earth Facts).

Perto de junho, o Polo Norte está inclinado para o Sol e o Hemisfério Norte vive o verão. Perto de dezembro é a vez do Polo Sul. Como os polos ficam em pontas opostas, as estações andam trocadas entre os dois lados do planeta.

Por que dezembro é verão aqui e inverno lá em cima

A maior parte do Brasil fica ao sul do Equador. Em dezembro, com o Polo Sul inclinado para o Sol, é verão por aqui e inverno no Hemisfério Norte, onde ficam os Estados Unidos e a Europa. Seis meses depois, a situação se inverte.

A ficha da NASA resume a mecânica: com o Sol mais alto no céu, o aquecimento é maior, e a luz que chega menos direta produz o inverno. Na primavera e no outono, os dois hemisférios recebem aproximadamente a mesma quantidade de calor.

A primavera do Brasil, agora

Estamos na primavera, e na primavera, segundo a NASA, os dois hemisférios recebem quase o mesmo calor do Sol. A diferença de verdade só volta a pesar quando um dos polos se inclina de novo para ele.

O Inmet já publicou o prognóstico da primavera de 2026: chuva acima da média no Sul e em parte do Centro-Oeste e do Sudeste.

O tombo que deixou a Terra torta

Falta a pergunta de fundo: por que o eixo é inclinado? A NASA conta que, há muito tempo, quando a Terra era jovem, acredita-se que algo grande bateu nela e a tirou do prumo. Esse algo tem nome: Theia.

O choque abriu um buraco na superfície e jogou poeira e entulho em órbita. Para a maioria dos cientistas, esse material acabou virando a Lua. A NASA diz ainda que a Lua estabiliza a oscilação do planeta, o que deixou o clima menos variável por milhares de anos.

A Lua, aliás, também engana o olhar, como mostra a explicação sobre por que ela parece maior no horizonte. E a luz do Sol tem outros truques, como o pôr do sol azulado de Marte.

O que a NASA simplifica e o que ainda é hipótese

O Space Place é o site da NASA para o público geral, então a explicação é enxuta. A colisão com Theia aparece como algo em que se acredita, não como fato fechado, e o destino do entulho como o que a maioria dos cientistas pensa.

A NASA afirma que a variação de distância pesa pouco, mas não diz em quanto ela pesa no clima. Os quilômetros e a diferença de pouco mais de 3% são contas da redação sobre as milhas da NASA, e a inclinação de 23,4 graus vem da ficha oficial do planeta.

Como responder na próxima vez que ouvirem a pegadinha

Se alguém disser que o calor vem de a Terra estar mais perto do Sol, a pergunta que desmonta a ideia cabe numa frase: então por que janeiro é inverno no Hemisfério Norte?

O resto é desenho de oficina: um eixo torto, uma volta de 365,25 dias, e o Sol batendo mais direto ora de um lado, ora do outro. Quem vive no Brasil sente o resultado todo Natal de calor.

Fontes: NASA Space Place, What Causes the Seasons?. NASA Science, Earth Facts. NASA Image and Video Library, GOES-13 em 22 de dezembro de 2011.

Espaço de anúncio

Mais do Watts & Wild

Mais em Ciência e tecnologia →

A natureza do Brasil, uma vez por dia

Sem spam. Só o que viralizou no Brasil, checado e explicado, direto no seu e-mail.