Nobel de Química 2026 vai para Henri Kagan e Kenso Soai por reações que criam só um lado das moléculas
A Real Academia Sueca de Ciências anunciou nesta quarta, 7 de outubro, o Nobel de Química para o francês Henri Kagan e o japonês Kenso Soai. Eles descobriram efeitos não lineares e autocatálise na síntese assimétrica, o que explica como uma reação química pode produzir só um dos dois lados de uma molécula.
Henri Kagan (de casaco marrom, à direita) em evento na Escola Politécnica de Palaiseau, França, em 2014. Foto: Ecole polytechnique, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0, recortada, com o crachá de outra pessoa desfocado. A imagem não é do anúncio de hoje.
O Nobel de Química 2026 vai para Henri B. Kagan e Kenso Soai pela descoberta de efeitos não lineares e da autocatálise na síntese orgânica assimétrica. Segundo o comunicado da Academia, o prêmio é de 12 milhões de coroas suecas, divididas em partes iguais entre os dois.
Quem são os dois premiados
Kagan nasceu em 1930, em Boulogne-Billancourt, na França, fez doutorado em 1960 no Collège de France e é professor emérito da então Universidade Paris-Sud. Soai nasceu em 1950, em Hiroshima, no Japão, doutorou-se em 1979 na Universidade de Tóquio e é professor emérito da Universidade de Ciência de Tóquio, segundo o Nobel.
O problema das moléculas com duas mãos
Aminoácidos, como as mãos, existem em duas versões que são imagem no espelho uma da outra. Os químicos chamam o par de enantiômeros. Nas proteínas do corpo, só uma delas aparece. Nos açúcares do DNA, também.
Em laboratório, as reações que formam essas moléculas davam sempre as duas versões em partes iguais. Para o comunicado, é aí que está o mistério de mais de um século: como a natureza ficou com um lado só, a chamada homoquiralidade.
Heiner Linke, presidente do Comitê Nobel de Química, resumiu: Kagan e Soai deram a solução para um enigma químico com mais de cem anos. As reações que eles criaram, disse, são espetaculares.
Por que isso pesa na farmácia
Num remédio, em geral só uma das versões da molécula faz o efeito desejado. A outra pode ser inútil ou causar efeitos indesejados. O resumo para o público do Nobel lembra o caso da talidomida, nos anos 1960, quando milhares de crianças nasceram com malformações. Ao analisar o que houve, pesquisadores concluíram que o dano veio do espelho da substância ativa.
Kagan e o efeito que não anda em linha reta
No começo dos anos 1980, os químicos usavam catalisadores com um metal e uma molécula quiral para guiar a reação. A regra aceita era linear: quanto mais pura a molécula do catalisador, mais pura a do produto.
Kagan desconfiou. Se o metal prende duas moléculas quirais, uma mistura de esquerda e direita gera três catalisadores: direita-direita, esquerda-esquerda e esquerda-direita. O misto trabalha bem mais devagar, e por isso o excesso de um lado no produto sai maior que no catalisador.
Em 1986, ele descreveu três reações com esse efeito, que ganhou o nome de efeito não linear. Hoje, diz a Academia, o efeito ajuda químicos a entender como uma reação acontece e a refiná-la para obter produtos mais puros.
Soai e a reação que se copia sozinha
Soai notou que, numa reação com forte efeito não linear, o catalisador e o produto tinham estrutura parecida. A ideia: uma reação em que o produto faz o próprio catalisador, a autocatálise.
Em 1995, ele publicou uma substância, o 5-pirimidil alcanol, que se produzia sozinha. Partiu de 2% de excesso de um lado e chegou a 87%. Faltavam oito anos para a versão final: em 2003, uma reação em que um pequeno excesso, nascido do acaso, tomou conta de tudo e chegou a 99,99% de um dos lados.
Quando Soai repetia o experimento, o lado vencedor podia ser o outro. Quem ganhava dependia do acaso nos primeiros instantes. Para a Academia, a reação de Soai é um dos experimentos mais elegantes já feitos em química.
Uma ideia que começou numa uva e passou por Pasteur
A cadeia que levou ao prêmio começa em meados do século 19, quando Louis Pasteur examinou cristais de ácido tartárico, substância do vinho. Ele separou os cristais com pinça e viu que um tipo girava a luz polarizada para a direita e o outro para a esquerda.
Em 1953, o físico teórico Charles Frank, da Universidade de Bristol, propôs um modelo com três condições para uma reação gerar um só lado: catalisador quiral, reforço de um lado e um catalisador que se produz sozinho. Kagan cumpriu a segunda condição, em 1986, e Soai a terceira. Prêmios de 2001 e 2021 já tinham reconhecido a primeira linha de trabalho, a das reações assimétricas.
Outros dois Nobel da semana
O de Química é o terceiro anunciado em 2026. Antes saíram o Nobel de Medicina, para a optogenética e o Nobel de Física, para a caça a neutrinos no gelo.
O que a reação de Soai não prova
A Academia diz que a reação de Soai é artificial e diferente da química da vida. Ela não conta como a vida de fato escolheu um lado. O que fez foi acender o interesse de pesquisadores que tentam repetir o feito com aminoácidos e açúcares, para entender a origem da vida.
Esta matéria se baseia no comunicado e no resumo para o público do Nobel. Os artigos científicos de 1986, 1995 e 2003 não foram lidos pela redação. A foto de Kagan é de um evento de 2014 e não mostra o anúncio de hoje; uma foto de Soai de uso livre não foi encontrada.
Fontes: Real Academia Sueca de Ciências, comunicado, 7 de outubro de 2026. Nobel Prize, informação popular, 2026. Henri B. Kagan, fatos. Kenso Soai, fatos.



