Ciência

Nobel de Física 2026: quem ganhou e como a descoberta aparece no seu dia a dia

O físico belga Francis Halzen, da Universidade de Wisconsin-Madison, ganhou o Nobel de Física desta terça-feira (6). O prêmio reconhece o IceCube, um observatório de um quilômetro cúbico de gelo no Polo Sul que captura neutrinos vindos do espaço. Partículas assim atravessam o seu corpo agora.

Laboratório do IceCube no Polo Sul à noite, iluminado de vermelho, sob a Via Láctea e uma aurora verde, no ano do Nobel de Física 2026

Laboratório do IceCube na noite polar, em agosto de 2021, sob a Via Láctea e uma aurora. Foto: John Hardin, Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0, recortada.

Francis Halzen ganhou sozinho o Nobel de Física 2026, por “contribuições decisivas para o Observatório de Neutrinos IceCube e a descoberta de neutrinos de alta energia de origem astrofísica”. A Academia Real Sueca de Ciências anunciou o prêmio em 6 de outubro de 2026, segundo o comunicado oficial.

Halzen nasceu em 1944 em Tienen, na Bélgica, doutorou-se em 1969 na KU Leuven e é professor em Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos. O prêmio é de 12 milhões de coroas suecas.

Quem é Halzen e o que ele propôs

Halzen e o colega John G. Learned apresentaram em 1988, numa conferência na Polônia, o conceito de um observatório de neutrinos no gelo do Polo Sul. Learned trabalhava num projeto parecido na água do oceano, no Havaí.

Segundo a Academia, a visão e a liderança científica de Halzen foram fundamentais para o IceCube. Mark Pearce, presidente do Comitê Nobel de Física, disse que ele liderou uma equipe internacional que entregou “um instrumento fantástico” e abriu caminho para “um novo tipo de astronomia”.

O que o IceCube faz no Polo Sul

Prédio azul do laboratório do IceCube ao fundo de uma planície de neve com bandeiras de sinalização espetadas no gelo, sob céu azul
Laboratório do IceCube na superfície do gelo, no Polo Sul, em janeiro de 2023. Os sensores ficam de 1.450 a 2.450 metros abaixo. Foto: Christopher Michel, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.

O IceCube é um quilômetro cúbico de gelo com 5.160 sensores de luz, distribuídos em 86 cabos, entre 1.450 e 2.450 metros de profundidade. Ficou pronto em 2011.

Quando um neutrino bate num núcleo atômico do gelo, gera uma partícula carregada que emite luz azul. Os sensores registram o clarão, e o trajeto da luz mostra de que direção o neutrino veio. Halzen descreve os sensores como uma lâmpada ao contrário: eles captam luz e a transformam em sinal elétrico.

O gelo do Polo Sul tem vantagens, segundo a Academia: escuridão constante na profundidade, poucas substâncias radioativas, nenhum terremoto e uma estação de pesquisa já instalada. A desvantagem é o frio, que limita o trabalho de campo ao verão antártico, de novembro a fevereiro.

Os neutrinos que atravessam você agora

É aqui que a física do prêmio encosta no seu dia. A Academia calcula que 65 bilhões de neutrinos do Sol passam a cada segundo pela unha do seu dedo mindinho, sem que você perceba. Eles atravessam a Terra e o corpo humano quase sempre sem interagir.

O material oficial do Nobel não cita nenhum aparelho do cotidiano que dependa da descoberta do IceCube. O que ele aponta é conhecimento: neutrinos de energia extrema chegam sem desvio e sem perder energia, e por isso levam informação que outras partículas não levam.

Por que o Nobel de Física 2026 fala de raios cósmicos

O cosmos é cruzado por prótons que chegam com energia muito maior que a de qualquer acelerador na Terra. A origem desses raios cósmicos é um dos segredos mais bem guardados do universo, nas palavras da Academia. Os campos magnéticos curvam o caminho dos prótons, então não dá para voltar à origem seguindo a trajetória.

Os processos que aceleram os prótons também geram neutrinos de alta energia, e neutrinos não são desviados. Rastrear os mais energéticos pode apontar onde ficam esses aceleradores. Eles também cruzam as nuvens de poeira que escondem alguns fenômenos. Sobre outra pista de longe, veja como astrônomos mediram a cor média do universo.

O que o IceCube já encontrou

O observatório registra mais de 100 milhões de partículas atmosféricas por dia sobre a Antártida. Os neutrinos cósmicos precisam ser separados desse ruído. Em 2013, a equipe relatou a primeira evidência e, alguns anos depois, tinha dados para ter certeza da descoberta.

MarcoDataO que a fonte diz
Ideia apresentada1988Halzen e John G. Learned apresentam o conceito de um observatório no gelo do Polo Sul, numa conferência na Polônia
Primeiros sensores no gelo1992Pesquisadores baixam sensores de luz na geleira do Polo Sul pela primeira vez
IceCube completo2011Um quilômetro cúbico de gelo com 5.160 sensores de luz em 86 cabos
Primeira evidência de neutrinos cósmicos2013A equipe relata indícios; poucos anos depois, a certeza da descoberta
Fontes candidatasAnos recentes79 neutrinos apontam para a galáxia NGC 1068, prova ainda insuficiente; neutrinos também vistos na Via Láctea

Arte: Watts & Wild, com dados do comunicado e da informação popular do Nobel de Física 2026, de 6 de outubro de 2026.

Entre as fontes candidatas está a galáxia ativa NGC 1068, também chamada M77: 79 neutrinos registrados parecem vir da direção dela. A própria Academia diz que a prova ainda não basta para cravar a galáxia como fonte. Neutrinos de alta energia também foram vistos vindo da Via Láctea.

Próximos passos: o IceCube-Gen2

Segundo a Academia, outros telescópios de neutrinos estão em desenvolvimento no hemisfério norte, mas na água, em locais como o Lago Baikal, o Mediterrâneo, o Mar do Sul da China e a costa oeste do Canadá. No Polo Sul, planeja-se o IceCube-Gen2, com oito quilômetros cúbicos de gelo.

O prêmio de Medicina foi anunciado na segunda-feira (5) e é tema da matéria sobre o Nobel de Medicina 2026 e a optogenética.

O que o anúncio ainda não responde

O prêmio reconhece a construção do instrumento e a descoberta dos neutrinos cósmicos, não a identificação das fontes. Segundo a Academia, a evidência para NGC 1068 ainda não é robusta, e quanto mais neutrinos forem capturados, maior a chance de achar a origem deles.

O comunicado de imprensa e a informação popular do Nobel saíram em 6 de outubro de 2026 no site do prêmio. O material científico completo, com os detalhes técnicos, está no site da Academia, em kva.se.

Fontes: NobelPrize.org, comunicado de imprensa do Nobel de Física 2026. NobelPrize.org, informação popular: Ice at the South Pole reveals cosmic particle accelerators.

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