Animais e natureza

Um filhote resgatado na Bolívia passou anos num santuário até um teste de DNA mostrar o que ele era: o tilcayo, o primeiro felino novo em 100 anos

Nesta quinta-feira (17), a revista Current Biology publicou a descrição do tilcayo, felino das florestas altas da Bolívia que a ciência classifica como a primeira nova espécie de gato selvagem em mais de cem anos.

Leopardus guttulus vivo, parente do felino tilcayo descoberto na Bolívia

Leopardus guttulus, espécie irmã do tilcayo dentro do mesmo grupo de gatos-do-mato sul-americanos. Foto: Groumfy69/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

Saiu nesta quinta-feira (17), na revista científica Current Biology: o Leopardus tilcayo é oficialmente um felino novo para a ciência, encontrado nas florestas de altitude dos Andes bolivianos. Quem contou a história em detalhes foi o jornal O Tempo: a equipe é internacional, mas quem lidera é brasileiro, o geneticista Eduardo Eizirik, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), ao lado da bióloga boliviana Paola Nogales-Ascarrunz.

O nome tilcayo vem de uma palavra usada por comunidades locais da região dos Yungas para se referir a felinos pequenos, e substitui o rótulo genérico de gato-do-mato que os moradores davam ao animal antes de ele virar objeto de estudo. É a primeira vez desde 1923 que cientistas descrevem oficialmente uma espécie inteiramente nova dentro da família dos felinos, o que torna a descoberta rara mesmo para os padrões da zoologia.

O tilcayo é uma espécie de felino nova para a ciência, descrita oficialmente em 17 de setembro de 2026 na Current Biology. Testes genéticos mostraram que o animal, encontrado na Bolívia, se separou dos demais gatos-do-mato há cerca de 1,5 milhão de anos e forma uma linhagem própria, reconhecida agora pelos pesquisadores.

Quem é o tilcayo, o novo felino das florestas da Bolívia

O tilcayo é um felino pequeno, menor que um gato doméstico comum, com pelagem rajada de manchas escuras sobre fundo claro. Segundo o estudo, o animal mede 45 centímetros de corpo mais 25 centímetros de cauda e pesa por volta de 1,4 quilo, medidas obtidas a partir do exemplar analisado pelos pesquisadores.

Ele vive exclusivamente na ecorregião dos Yungas, a faixa de floresta nublada que corre pela encosta oriental dos Andes bolivianos, entre 400 e 3.500 metros de altitude. Essa faixa estreita de mata isola geneticamente o tilcayo dos demais gatos-do-mato da América do Sul, o que ajudou a equipe a identificá-lo como uma linhagem à parte.

Filhote de Leopardus tigrinus, parente do tilcayo dentro do mesmo grupo de gatos-do-mato
Filhote de Leopardus tigrinus, uma das espécies do mesmo grupo que a pesquisa reorganizou. Foto: Valdeir Barreto Santos/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

De filhote resgatado a nova espécie: a história por trás da descoberta

O exemplar que permitiu identificar a nova espécie vive há cerca de uma década no santuário Senda Verde, perto de La Paz, para onde foi levado ainda filhote por um morador da região que o confundiu com um gatinho doméstico. Foi lá que a bióloga Paola Nogales-Ascarrunz, hoje uma das autoras do estudo, viu o animal pela primeira vez enquanto atuava como voluntária.

"Dessa vez é um gato, isso é realmente novo, e não acontecia há cem anos", disse Nogales-Ascarrunz à revista National Geographic, ao comentar a raridade de descrever uma espécie inteira de felino. Foi esse encontro que deu início à coleta de material genético que, anos depois, embasou o artigo publicado na Current Biology.

Santuário Senda Verde, na Bolívia, onde vive o exemplar de tilcayo estudado
O santuário Senda Verde, na Bolívia, onde vive o tilcayo estudado pelos pesquisadores. Foto: Paul B from London, London/Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

Por que o tilcayo é considerado uma espécie nova de felino?

Para provar que o tilcayo era mesmo um bicho à parte, a equipe sequenciou o genoma completo dele e comparou o material com amostras de outros gatos-do-mato guardadas em museus da Europa e dos Estados Unidos, além de animais vivos na América do Sul. O resultado mostrou que o tilcayo forma um ramo genético isolado há cerca de 1,5 milhão de anos, tempo que os pesquisadores consideram suficiente para justificar o status de espécie própria.

O trabalho também reorganizou a árvore genealógica desse grupo de felinos: o que os cientistas tratavam como uma única espécie amplamente distribuída se revelou, na prática, um conjunto de pelo menos cinco linhagens distintas, entre elas o Leopardus guttulus, o L. emiliae, o L. pardinoides e o L. tigrinus, além de uma nova subespécie identificada nos Yungas do Peru, segundo o Bem Paraná.

O tamanho e o habitat do gato mais novo da ciência

Com o porte reduzido e a cauda proporcionalmente longa, o tilcayo passa despercebido mesmo para quem vive perto da floresta nublada boliviana. A faixa de altitude em que ele circula, entre 400 e 3.500 metros, inclui tanto trechos de mata mais baixa quanto encostas próximas do limite da vegetação arbórea nos Andes.

Esse tipo de floresta de altitude, isolada por vales profundos, favorece a formação de espécies exclusivas: populações que ficam separadas por gerações acabam desenvolvendo características próprias, como aconteceu com o tilcayo em relação aos parentes mais próximos, que vivem nas terras baixas da Amazônia e do Cerrado.

Floresta dos Yungas perto de Coroico, na Bolívia, região onde vive o tilcayo
A floresta dos Yungas, na Bolívia, habitat natural do tilcayo. Foto: Jenny Mealing/Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

O que a descoberta muda para a proteção dos felinos selvagens

Ao reconhecer o tilcayo como espécie própria, os pesquisadores também redesenham o mapa de conservação de toda a família dos gatos-do-mato sul-americanos: cada uma das cinco linhagens agora reconhecidas passa a ter um território restrito, o que reduz a área de ocorrência de cada espécie individualmente e pode elevar o grau de ameaça de algumas delas, aponta a reportagem da NBC News.

Para o tilcayo, isso significa que toda a população conhecida da espécie está concentrada numa faixa estreita de floresta andina em um único país, a Bolívia, o que torna qualquer perda de habitat nessa região um risco direto para a sobrevivência do animal.

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Ainda não existe foto livre do bicho, nem número da população selvagem

O artigo publicado na Current Biology descreve a nova espécie e reconstrói sua história evolutiva, mas trata a estimativa do tamanho da população selvagem de tilcayos e a avaliação formal de risco de extinção como etapas seguintes, a cargo de órgãos de conservação, e não como parte da descrição científica em si.

Também não existe ainda uma fotografia do próprio tilcayo com licença aberta disponível para uso livre: as imagens oficiais do estudo pertencem aos autores da pesquisa e à revista científica, por isso as imagens aqui são de uma espécie próxima, o Leopardus guttulus, e de registros do habitat e do santuário onde vive o exemplar estudado. É um lembrete de que a ciência segue encontrando coisas novas em lugares que pareciam já mapeados, como mostrou também a descoberta recente de uma cratera nova na Lua.

Bolívia se torna o único país do mundo com o tilcayo à solta

Com a descrição publicada, a Bolívia passa a abrigar, sozinha, toda a área de distribuição conhecida de uma espécie de felino que a ciência não sabia que existia até este ano. O achado reforça o papel dos Yungas bolivianos como um dos pontos de maior diversidade de mamíferos da América do Sul, num momento em que a devastação de florestas de altitude segue avançando na região.

A história do tilcayo também é a história de um gato que passou anos sendo apenas mais um bicho de estimação resgatado antes de virar capa de revista científica. Você acha que existem outras espécies desconhecidas escondidas em florestas isoladas, esperando para serem descobertas?

Vale dos Yungas, na Bolívia, região de floresta de altitude onde vive o tilcayo
Um vale dos Yungas bolivianos: mata de altitude isolada por montanhas, o único lugar do mundo com tilcayo à solta. Foto: Das Morton/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
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