Fauna selvagem encolheu 73% em 52 anos e a América Latina perdeu 95%: o que o Planeta Vivo diz sobre o Brasil
A fauna selvagem do mundo encolheu 73% em média entre 1970 e 2022, e na América Latina e no Caribe a queda chega a 95%, segundo o Relatório Planeta Vivo 2026, divulgado nesta quinta-feira (8). O número mede a abundância das populações, não a contagem de animais.
Ariranha no Peru, em setembro de 2014. Foto de arquivo, ilustrativa da fauna sul-americana: a espécie não aparece no resumo do relatório. Foto: Dirk Meyer, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.
As populações de vertebrados selvagens diminuíram 73% em média entre 1970 e 2022, segundo o Relatório Planeta Vivo 2026. O estudo é da Sociedade Zoológica de Londres (ZSL) para o WWF Internacional, e a Agência Brasil o noticiou na manhã desta quinta (8).
A conta vale para mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios. Por região, a América Latina e o Caribe aparecem no topo da lista de perdas: 95% de queda no mesmo período, segundo o site do relatório.
O que significa cair 73%
Não quer dizer que sobraram 27% dos animais do planeta. O Índice Planeta Vivo acompanha 35.803 populações de 5.790 espécies e calcula a mudança média no tamanho delas. A própria Agência Brasil explica que a medição trata da abundância das populações, e não do número absoluto de indivíduos.
Na prática, uma população de onças que perdeu metade dos bichos e uma de peixes que perdeu 90% entram na média com o mesmo peso. Populações grandes e pequenas contam igual, e as que crescem puxam a média para cima.
A redação refez a conta do ritmo: queda de 2,5% ao ano, composta por 52 anos, deixa o índice perto de 27% do valor de 1970. Fecha com os 73% divulgados.
A América Latina perdeu 95%, mas o número tem moldura
A região do relatório é a classificação do IPBES, a plataforma científica da ONU para biodiversidade, e junta América Latina e Caribe. O Brasil não aparece isolado nos dados que a redação abriu, então os 95% não valem como número do país.
O diretor de conservação da ZSL, Andrew Terry, ressalvou que as regiões partem de momentos diferentes. Na América do Norte, disse ele, a queda mais forte veio antes dos anos 1970, e o ritmo desacelerou depois. Os trópicos ricos em espécies, como esta região, perdem mais dentro da janela medida.
Água doce, terra e mar perdem em velocidades diferentes
O índice global é a média de três outros. O de água doce caiu 85%, o equivalente a 3,6% ao ano, o pior dos três. O terrestre caiu 69% (2,3% ao ano) e o marinho, 59% (1,7% ao ano).
O relatório cita barragens e desvios de rios como barreiras que bloqueiam rotas de migração dos peixes. É uma pressão que atinge bacias inteiras de uma vez.
O que derruba a fauna selvagem, segundo o WWF
Perda e degradação de habitat lideram a lista de causas, seguidas de exploração excessiva, mudanças climáticas, poluição, espécies invasoras e doenças, segundo o site do relatório. Para Kirsten Schuijt, diretora-geral do WWF Internacional, os sistemas que movem o crescimento econômico aceleram a degradação da natureza.
O relatório associa a reversão a mudanças em energia, alimentação e finanças. A Agência Brasil lembra que cerca de US$ 58 trilhões do PIB global de 2023 vieram de trabalhos que dependem da natureza.
Onde o Brasil aparece no relatório
O exemplo brasileiro que a Agência Brasil destaca é positivo: a população de onças-pintadas na Mata Atlântica cresceu 280% entre 2019 e 2025, depois de uma ação coordenada entre governo, terceiro setor e produtores locais.
A página de recuperação do relatório conta o caso de outro ângulo. Em 2009 estimava-se que 9 a 11 onças-pintadas viviam na região do Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, e em 2022 a média da população ali chegou a 25 animais. Os dois recortes são do WWF e medem coisas distintas, então a redação não os soma.
O leitor do site já viu casos parecidos de perto: a onça Manchita, que cruzou sozinha a fronteira rumo ao Iguaçu, e o mico-leão-dourado, que subiu de 200 para 4.800 indivíduos na Mata Atlântica fluminense, são espécies que reagem a ação contínua.
Metade das populações está estável ou cresce
Cerca da metade das populações do índice está estável ou aumentando. As perdas, porém, superam os ganhos no resultado geral.
Entre os casos de recuperação, o relatório cita o tigre selvagem, que passou de 3.200 para cerca de 5.700 indivíduos entre 2010 e 2025. A tartaruga-verde, em 2025, saiu da categoria Ameaçada para Pouco Preocupante, após 50 anos de trabalho em mais de 80 países de desova.
Extinção e perda de ecossistemas, no Brasil e fora
O Brasil também lida com extinções declaradas: a lista oficial do Ministério do Meio Ambiente reconhece nove espécies da fauna como extintas ou regionalmente extintas. A pressão sobre ecossistemas inteiros aparece em outros números, como os 85% dos recifes de ostra que já sumiram.
O que os 73% não provam sozinhos
O índice não é comparável com as edições anteriores, porque o relatório incorpora novos dados a cada ciclo: nesta edição entraram 967 populações de 295 espécies novas, e 669 foram atualizadas, segundo a Agência Brasil. Os 73% não indicam, portanto, que a perda piorou ou melhorou desde 2024.
O próprio Terry afirma que os índices refletem também a capacidade de monitoramento de cada região. O Brasil não ganhou número próprio na matéria da Agência Brasil nem no resumo do site: quem quiser o dado nacional precisa abrir o relatório completo, disponível para baixar no site do WWF.
Fontes: Agência Brasil, 8 de outubro de 2026. Relatório Planeta Vivo 2026, página oficial (WWF/ZSL). Relatório Planeta Vivo 2026, natureza em recuperação.



