O mico-leão-dourado, que quase sumiu da Mata Atlântica fluminense nos anos 1970 com apenas 200 indivíduos, chega a 4.800 na natureza, segundo o censo de 2023 da Associação Mico-Leão-Dourado
A Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD) confirma a recuperação da espécie símbolo da Mata Atlântica fluminense. Mas o número mais citado por aí, de 1,6 mil animais, é uma estimativa antiga: o censo mais recente já é bem maior, e a floresta fragmentada ainda limita o quanto a população pode crescer.
Mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia), espécie endêmica da Mata Atlântica fluminense. Crédito: Wikimedia Commons, CC BY 2.0 (Bart van Dorp).
A Associação Mico-Leão-Dourado, parceira do ICMBio na gestão das reservas União e Poço das Antas, divulgou em 2023 o censo mais recente da espécie: cerca de 4.800 micos-leões-dourados vivem hoje na bacia do rio São João, no interior do Rio de Janeiro. A fragmentação da mata segue como o maior obstáculo.
O mico-leão-dourado é encontrado hoje em fragmentos de Mata Atlântica dos municípios de Silva Jardim, Casimiro de Abreu e Rio Bonito, no interior fluminense. A população selvagem soma cerca de 4.800 indivíduos, segundo o censo mais recente da Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD).
A página da própria AMLD registra: "no último censo realizado pela AMLD, divulgado em 2023, a população na natureza foi estimada em 4.800 indivíduos". A entidade coordena a conservação do mico desde 1992, em parceria com o governo federal por meio do ICMBio.
O número de 1,6 mil animais que ainda circula por aí é antigo, de uma estimativa de cerca de uma década atrás. O censo mais recente, de 2023, encontrou uma população bem maior: cerca de 4.800 micos-leões-dourados vivendo soltos na Mata Atlântica fluminense.
Nos anos 1970, restavam pouco mais de 200 micos-leões-dourados na natureza
A espécie chegou perto da extinção no início dos anos 1970. Segundo a AMLD, o mico-leão-dourado ficou "quase extinto nos anos 1970, quando foi reduzido a uma população de apenas 200 indivíduos", vítima do desmatamento da Mata Atlântica fluminense.
Foi esse quase desaparecimento que levou à criação da Reserva Biológica de Poço das Antas, hoje administrada pelo ICMBio, e ao início de um dos programas de conservação de primatas mais longos do Brasil.
O censo de 2023 usou o canto do próprio animal para contar a população
Para estimar quantos micos-leões-dourados existem na mata, a equipe de campo da AMLD reproduz a vocalização característica da espécie em pontos amostrais espalhados pela floresta, técnica conhecida como playback, e registra as respostas dos grupos que vivem por perto.
O levantamento cobriu a bacia do rio São João, principal área de ocorrência da espécie, que reúne trechos de mata dentro das reservas do ICMBio e em dezenas de propriedades privadas da região.
As reservas do ICMBio protegem só uma parte do território da espécie
Parte da população vive dentro da Rebio União e da Rebio Poço das Antas, ambas administradas pelo ICMBio no interior do Rio de Janeiro. O restante ocupa fragmentos de mata em fazendas e reservas particulares vizinhas.
Essa mistura de terras públicas e privadas é o que sustenta a espécie hoje, já que nenhuma das reservas isoladamente tem tamanho suficiente para abrigar toda a população que existe na região.
O que diferencia o mico-leão-dourado de outros micos brasileiros
O mico-leão-dourado tem pelagem laranja-avermelhada e uma juba densa em volta do rosto, que lembra a crina de um leão, além de mãos longas e finas adaptadas para catar insetos em troncos e cascas de árvores.
A espécie é endêmica da Mata Atlântica de baixada do Rio de Janeiro, ou seja, não existe soltura natural da espécie em nenhum outro lugar do planeta além dessa faixa estreita de floresta fluminense.
Um surto de febre amarela chegou a derrubar a população em um terço
Antes de voltar a crescer, a espécie sofreu um baque grave: um surto de febre amarela reduziu a população de cerca de 3.700 animais, estimados em 2014, para cerca de 2.500 em 2019, segundo a AMLD.
A queda de quase um terço em cinco anos mostra como a recuperação do mico-leão-dourado ainda é frágil e pode ser revertida por um único evento sanitário na região.
A fragmentação da floresta segue sendo o maior desafio da espécie
Mesmo com o crescimento populacional confirmado pelo censo de 2023, a AMLD aponta a fragmentação florestal como o principal obstáculo à conservação: o maior bloco de mata contínua da região soma apenas 15.696 hectares.
Para garantir a viabilidade da espécie a longo prazo, a área de floresta conectada precisaria chegar a 25 mil hectares, quase o dobro do que existe hoje na bacia do rio São João.
Corredores de floresta tentam reconectar os fragmentos que restaram
Para reduzir essa distância, a AMLD mantém um programa de restauração florestal que já recuperou mais de 440 hectares de mata, plantados justamente para religar pedaços de floresta hoje isolados uns dos outros.
Entre 1985 e 2021, a cobertura florestal da região cresceu cerca de 2 mil hectares, um avanço lento, mas que ajuda a explicar por que a população de micos-leões-dourados também voltou a subir.
O tráfico de animais silvestres continua sendo uma ameaça à espécie
Além da perda de habitat, a AMLD cita o tráfico de animais silvestres entre as ameaças que ainda pesam sobre o mico-leão-dourado, mesmo décadas depois do auge da captura ilegal que quase levou a espécie à extinção.
O ICMBio também atua na fiscalização e no resgate de outras espécies vítimas do tráfico na Mata Atlântica, como mostrou a matéria do Watts & Wild sobre a retirada de 69 ararinhas-azuis de um criadouro clandestino levadas a um centro de conservação em Pernambuco.
O crescimento da população não significa que o mico-leão-dourado deixou de estar ameaçado
A espécie segue classificada como ameaçada de extinção, mesmo com o salto de 200 indivíduos nos anos 1970 para os cerca de 4.800 de hoje. O próprio recuo causado pela febre amarela em 2017 mostra como a recuperação pode ser interrompida.
É um alívio parecido, mas não igual, ao de outros casos acompanhados pelo Watts & Wild, como o da onça Manchita, flagrada cruzando a fronteira para uma unidade de conservação no Brasil. Um sinal positivo isolado não fecha o caso de uma espécie inteira.
O que ainda falta para o mico-leão-dourado sair do risco de extinção
Segundo a AMLD, o principal caminho agora é reconectar os fragmentos de mata que restam na bacia do rio São João, ampliando a área de floresta contínua disponível para os grupos se deslocarem sem atravessar estradas ou pasto aberto.
A fragmentação de habitat também é o que mais ameaça outros animais brasileiros, caso do tamanduá-bandeira, um dos animais mais atropelados nas rodovias do Cerrado paulista, num problema parecido em outro bioma.
Uma recuperação que já dura mais de cinco décadas de trabalho
Do quase desaparecimento nos anos 1970 até os 4.800 indivíduos contados em 2023, a história do mico-leão-dourado passa por décadas de reservas do ICMBio, reflorestamento e monitoramento constante feito pela AMLD na Mata Atlântica fluminense.
A espécie segue como um dos símbolos mais conhecidos da conservação no Brasil, mas o histórico de altos e baixos mostra que a recuperação depende de floresta de pé, não só de um bom resultado de censo. Você já viu um mico-leão-dourado na natureza? Conte nos comentários.



