Em Abrolhos, na Bahia, as baleias-jubarte chegam a partir de junho para dar à luz e amamentar os filhotes nas águas quentes do arquipélago, numa temporada que o ICMBio acompanha até novembro
Todos os anos, milhares de baleias-jubarte deixam as águas geladas da Antártida e nadam mais de 6 mil quilômetros até o Banco de Abrolhos, no sul da Bahia. Ali, no maior berçário da espécie no Atlântico Sul, as fêmeas dão à luz um único filhote e passam meses amamentando antes da volta.
Baleia-jubarte registrada em Abrolhos, no litoral sul da Bahia. Foto: Jonathan Wilkins/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).
Todo ano, entre junho e novembro, o arquipélago baiano de Abrolhos vira o maior berçário de baleias-jubarte do Atlântico Sul: milhares de fêmeas deixam a Antártida, nadam mais de 6 mil quilômetros e chegam à Bahia para dar à luz e amamentar os filhotes, segundo o ICMBio e o Instituto Baleia Jubarte
Entre o fim do outono e o fim da primavera, o mar em volta do arquipélago de Abrolhos, na costa sul da Bahia, muda de dono. Milhares de baleias-jubarte deixam as águas frias da Antártida e nadam até essa faixa rasa e quente do Atlântico para se reproduzir.
Segundo o guia do visitante do ICMBio, que administra o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, as primeiras jubartes chegam em meados de junho e a presença delas se estende até novembro. Agosto e setembro concentram o maior número de avistamentos.
O Instituto Baleia Jubarte, organização que estuda a espécie na região desde 1988, descreve o mesmo fenômeno de um jeito um pouco diferente: para ele, a temporada vai de julho a novembro. As duas fontes oficiais concordam no ponto central, que é novembro como o mês em que a temporada termina.
Sim, a temporada segue até novembro. O ICMBio situa a chegada das baleias em meados de junho, enquanto o Instituto Baleia Jubarte marca o início em julho; ambos apontam novembro como o fim do período, quando as jubartes retomam a migração de volta à Antártida com os filhotes já mais fortes para a viagem.
O que faz de Abrolhos um berçário para as baleias
O Banco de Abrolhos, formação de recifes de coral e ilhas entre o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo, reúne as condições que uma fêmea de jubarte precisa para parir: água quente, pouca profundidade e relativa proteção contra predadores como as orcas.
O Instituto Baleia Jubarte classifica a região como a mais importante área de reprodução da espécie no Atlântico Sul Ocidental. É lá que a maior parte das jubartes do litoral brasileiro concentra o acasalamento, a gestação final e o nascimento dos filhotes.
Esse tipo de refúgio sazonal não é exclusivo das baleias: outro ponto do litoral brasileiro vira palco parecido na época da desova de tartarugas marinhas, quando fêmeas também retornam à mesma praia para procriar.
Uma viagem de mais de 6 mil quilômetros
Segundo o ICMBio, as baleias chegam a Abrolhos depois de cerca de quatro meses se alimentando nas águas da Antártida, no verão do hemisfério sul. A rota entre as duas regiões soma milhares de quilômetros, percorridos sem parar para comer: a jubarte praticamente jejua durante toda a temporada reprodutiva.
Esse jejum prolongado é possível porque a espécie acumula uma camada grossa de gordura durante os meses de fartura na Antártida, reserva que sustenta tanto a própria baleia quanto a produção do leite, riquíssimo em gordura, que alimenta o filhote recém-nascido.
Por que agosto e setembro concentram mais avistamentos?
De acordo com o ICMBio, é nesses dois meses que o maior número de jubartes está presente simultaneamente na região, período em que se sobrepõem baleias que chegaram mais cedo, com filhotes já nascidos, e outras que ainda estão terminando a gestação.
É também quando os passeios de observação embarcada, autorizados pelo ICMBio e organizados a partir de Caravelas, cidade baiana que serve de porta de entrada para o parque marinho, registram o maior número de saídas ao mar.
Um único filhote, amamentado por meses
A fêmea de jubarte tem gestação de aproximadamente 11 meses e dá à luz normalmente um único filhote por vez. Nas águas calmas de Abrolhos, mãe e cria passam boa parte do dia em repouso, alternando mergulhos curtos com momentos na superfície.
O leite da jubarte tem um teor de gordura muito acima do leite humano, o que faz o filhote ganhar peso rápido nas primeiras semanas de vida. Esse ganho de massa é essencial para acompanhar a mãe na travessia de volta à Antártida.
A relação entre baleias e o litoral também aparece em outros flagrantes recentes, como o do pescador peruano que resgatou uma baleia presa em rede de pesca, subindo no dorso do animal para cortar a malha sem tanque de oxigênio.
Quantas baleias passam por Abrolhos
O Instituto Baleia Jubarte estima que a população global da espécie já passa de 35 mil indivíduos em todos os oceanos. É uma recuperação expressiva diante das cerca de 150 mil baleias estimadas antes do início da caça comercial, no século 17, que quase levou a jubarte à extinção no Atlântico Sul.
Parte dessa recuperação é atribuída ao trabalho de monitoramento feito em Abrolhos desde o fim dos anos 1980. Outros bichos do litoral brasileiro também vêm sendo acompanhados de perto, como mostram os golfinhos flagrados por drone perto da Praia de Gaibu, em Pernambuco.
As regras para observar as baleias de perto
Quem visita o parque durante a temporada precisa seguir normas do ICMBio pensadas para não estressar os animais: distância mínima de 100 metros das baleias e proibição de mergulhar junto delas, mesmo em passeios autorizados.
Essas regras valem tanto para embarcações de turismo quanto para pesquisadores, e existem justamente porque mãe e filhote são mais vulneráveis a perturbações nos primeiros meses de vida, quando a cria ainda está aprendendo a nadar e a mergulhar por conta própria.
Recifes de coral que também são parte do parque
Além do berçário de baleias, o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos abriga os maiores e mais ricos recifes de coral do Atlântico Sul, com formações típicas em forma de "chapeirão" que não existem em nenhum outro lugar do mundo.
Essa combinação de recifes preservados e presença sazonal das jubartes é um dos motivos pelos quais o governo brasileiro apresentou, em 2026, a candidatura do parque para entrar na lista de Patrimônio Mundial Natural da Unesco.
As datas da temporada não são um calendário fechado
Nem o ICMBio nem o Instituto Baleia Jubarte tratam as datas da temporada como uma regra rígida de calendário. Ambas as fontes descrevem junho ou julho como início aproximado e novembro como o mês em que a presença das jubartes cai, não como marcos fixos de um dia específico.
Há registros não confirmados de jubartes avistadas já no fim de maio em pontos do litoral brasileiro. Mas nenhum documento do ICMBio ou do Instituto Baleia Jubarte antecipa oficialmente o início da temporada em Abrolhos para antes de junho.
O que muda quando novembro chega
Conforme a temporada avança para o fim, em novembro, os filhotes já nasceram, ganharam peso e reforço muscular suficientes para enfrentar a viagem de volta. É nesse momento que mãe e cria retomam a migração rumo à Antártida, seguindo o mesmo trajeto de milhares de quilômetros percorrido meses antes, agora em sentido contrário.
Para quem pretende conhecer o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, a recomendação das duas fontes oficiais é a mesma: os meses entre julho e outubro seguem sendo a janela mais segura para topar com um grupo de baleias na água. Você já viu uma jubarte de perto, ou pretende ver nesta temporada? Conte para a gente nos comentários.



