Ciência e tecnologia

O Coliseu de Roma ganhou um gêmeo digital feito com quase 38 bilhões de pontos de laser e 208 mil fotos, e agora cada rachadura pode ser comparada ao longo dos anos

O Coliseu de Roma, com quase 2 mil anos, agora tem uma cópia digital que guarda a forma e a história de cada pedaço. O projeto foi apresentado em São Paulo, numa conferência da Fapesp. Os slides mostram a escala: quase 38 bilhões de pontos de laser e 208 mil fotos.

Coliseu em nuvem de pontos a laser: o anfiteatro inteiro visto de cima, colorido em verde, amarelo e vermelho, com as arquibancadas e os arcos externos

O Coliseu inteiro em nuvem de pontos a laser. Imagem: Parque Arqueológico do Coliseu, slide da palestra de Marcello Balzani na Conferência FAPESP (vídeo da Agência FAPESP).

Visto assim, o Coliseu parece feito de luz: verde nas paredes de fora, laranja e vermelho nas arquibancadas e no subterrâneo. Cada ponto dessa imagem é uma medida de laser. E há bilhões deles.

O modelo foi mostrado em 25 de setembro, em São Paulo, pelo arquiteto italiano Marcello Balzani, professor da Universidade de Ferrara. A Agência Fapesp publicou o relato nesta terça (29), e a palestra inteira está no vídeo oficial da conferência.

Resumo: a equipe do Parque Arqueológico do Coliseu escaneou o monumento com laser e fotos e montou um modelo em que cada parede, arco e abóbada tem ficha própria, com material, época e estado de conservação. A ideia é acompanhar, com o tempo, cada rachadura e cada deformação.

O que é o gêmeo digital do Coliseu?

É mais do que um desenho em 3D. O método se chama HBIM, sigla em inglês para modelagem da informação de edificações históricas. A forma do prédio vem do laser e das fotos. Em cima dela, a equipe pendura dados de arqueologia, arquitetura, restauro e engenharia.

Balzani resumiu o tamanho da conquista numa frase: pela primeira vez, depois de quase 2 mil anos, o Coliseu tem uma descrição e uma imagem completa.

Quantos pontos o laser registrou?

A Fapesp escreveu que o levantamento a laser produziu cerca de 109 bilhões de pontos. No slide que Balzani projetou, 109 é o número de estações de laser da parte externa. Os pontos aparecem separados por área.

Somamos as três áreas do slide. Foram 17,16 bilhões de pontos na parte externa, 5,81 bilhões nas arquibancadas e 14,86 bilhões no subterrâneo: 37,83 bilhões ao todo, em 825 estações de laser. O subterrâneo, cheio de corredores, pediu sozinho 703 estações.

Gráfico de barras com os pontos a laser do Coliseu: 17,16 bilhões na parte externa, 5,81 bilhões nas arquibancadas e 14,86 bilhões no subterrâneo, total de 37,83 bilhões
Os pontos a laser de cada parte do monumento e o total. Gráfico: Watts & Wild, com os números do slide apresentado na conferência.

208 mil fotos, 15 mil delas de drone

O slide dos números lista 208.530 fotografias usadas para montar o modelo, técnica chamada fotogrametria. Dessas, 15.169 foram feitas por drone. Segundo o relato da Fapesp, as gaivotas que sobrevoam o monumento atrapalharam o trabalho no ar.

Tudo foi feito com o Coliseu aberto. Balzani contou que o monumento recebe perto de 30 mil visitantes por dia. Durante o levantamento, havia ainda 20 canteiros de manutenção funcionando ao mesmo tempo.

27.664 peças, cada uma com ficha

No modelo, o Coliseu é dividido em 27.664 objetos digitais, segundo o slide. Cada um é uma parede, um arco, um pilar ou uma abóbada. Os dados ligados a cada peça vão de material e técnica de construção até a época em que ela surgiu.

Isso resolve um problema real. Um buraco numa parede pode ser da obra original, do terremoto, de uma peça arrancada depois ou de uma reforma medieval. O modelo permite ligar cada marca às hipóteses e aos documentos sobre ela.

Modelo digital HBIM do Coliseu visto de cima, com as paredes e arcos em bege e branco, as arquibancadas em cinza e a arena parcialmente coberta em verde
O modelo HBIM, em que cada parede, arco e abóbada é um objeto com ficha própria. Imagem: Parque Arqueológico do Coliseu, slide da palestra de Marcello Balzani na Conferência FAPESP (vídeo da Agência FAPESP).

O mapa dos materiais

A nuvem de pontos também foi separada por material. O slide mostra o travertino, a pedra clara das fachadas, e ainda tijolo, concreto, argamassa e elementos modernos, cada um numa cor.

A inteligência artificial entrou aqui, para reconhecer e classificar os materiais. Mas Balzani ressaltou que a máquina não dispensa arqueólogos, historiadores e engenheiros, que continuam validando o que ela aponta.

Slide com o Coliseu em nuvem de pontos cinza e azul e a lista de materiais separados: travertino, tijolo, concreto, argamassa e elementos modernos
A nuvem de pontos separada por material: em azul, o travertino. Imagem: Parque Arqueológico do Coliseu, slide da palestra de Marcello Balzani na Conferência FAPESP (vídeo da Agência FAPESP).

Uma arena para 50 mil pessoas

O Coliseu começou a ser erguido por volta de 70 a 72 d.C., no governo de Vespasiano, e foi inaugurado em 80 d.C. por Tito. São 1.946 anos desde a inauguração. Cabiam ali cerca de 50 mil espectadores.

Roma tinha entre 750 mil e 1 milhão de habitantes na época. Pela nossa conta, uma única sessão reunia de 5% a 6,7% da cidade inteira. Os combates de gladiadores parecem ter parado por volta de 404 e 405, e os espetáculos com animais seguiram até 523.

O terremoto de 1349 e o risco de hoje

Em 9 de setembro de 1349, há 677 anos, uma sequência de fortes tremores nos Apeninos derrubou parte importante do anel externo, principalmente do lado sul. Roma fica perto dos Apeninos Centrais, uma das principais zonas de terremoto da Itália.

Por isso o modelo virou ferramenta de prevenção. Balzani contou que o Ministério da Cultura da Itália encarregou outra equipe de usar os dados para montar um modelo de vulnerabilidade da estrutura.

O que o modelo não faz sozinho

Balzani fez questão de separar o trabalho de uma maquete bonita. Hoje dá para gerar na internet um Coliseu virtual em poucos minutos, disse ele, mas isso não é o monumento real e não serve para conservar nada.

O valor está na medida repetida. Uma fissura pode ganhar nova medição e ser comparada com o registro anterior. Os números da equipe incluem 395 pranchas só do quadro de rachaduras. O modelo aponta onde olhar, mas a decisão continua com os especialistas.

Quase 2 mil anos, agora com cópia

O Coliseu sobreviveu a terremoto, saque de pedras e séculos de reforma. Agora cada marca dessa história tem endereço num banco de dados. Você visitaria o Coliseu virtual antes de ir a Roma?

Aqui no site, tem também a imagem do James Webb que liga galáxias ao eclipse de Sobral, a cor média do universo, medida em 200 mil galáxias e a programação do Museu Goeldi na Primavera dos Museus.

Perguntas rápidas

O que é o gêmeo digital do Coliseu?

É um modelo 3D do monumento que funciona como banco de dados. Cada parede, arco e abóbada vira um objeto com informações sobre material, técnica de construção, época e estado de conservação. São 27.664 objetos, segundo a apresentação do arquiteto Marcello Balzani.

Como o Coliseu foi escaneado?

Com laser e fotos. O slide da equipe lista 825 estações de laser, perto de 38 bilhões de pontos, e 208.530 fotografias, das quais 15.169 feitas por drone. Tudo foi feito com o monumento aberto ao público.

Para que serve o modelo?

Para acompanhar o monumento ao longo do tempo. Uma rachadura pode ganhar nova medição e ser comparada com o registro anterior. O Ministério da Cultura da Itália já pediu a outra equipe um estudo de vulnerabilidade da estrutura com esses dados, contou Balzani.

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