Ciência

Animais podem ter surgido centenas de milhões de anos antes do que os fósseis mostram

Os fósseis dizem que os primeiros animais aparecem há cerca de 574 milhões de anos. Uma equipe da Universidade de Oxford refez a conta do relógio molecular com limites mais antigos e chegou a 800 a 700 milhões de anos. Não há fóssil que prove isso.

Fóssil de Dickinsonia costata em rocha marrom, com régua no canto, usado para ilustrar a origem dos animais

Dickinsonia costata, organismo da biota de Ediacara, com régua para dar a escala. É um dos fósseis mais antigos associados a animais. Foto: Verisimilus, Wikimedia Commons, licença CC BY 2.5, recortada.

A origem dos animais pode ter acontecido entre 800 e 700 milhões de anos atrás, cerca de 200 milhões de anos antes do que as estimativas anteriores indicavam. É o que propõe um estudo liderado pela Universidade de Oxford, publicado na revista Science Advances e divulgado em 2 de outubro de 2026.

O que a equipe de Oxford encontrou

O primeiro autor é Orin Lole Durbin, que fez o trabalho como estudante de graduação em Oxford e hoje está na Virginia Tech. O autor sênior é Ross Anderson, professor associado do Museu de História Natural de Oxford. Também participaram pesquisadores de Berkeley, da ETH Zürich e de Yale.

O problema que eles atacam é antigo. Os animais parecem surgir de repente no registro fóssil, pouco antes do Cambriano, que vai de 539 a 487 milhões de anos atrás. Outras evidências sugerem que a história deles começou muito antes.

O fóssil de animal mais antigo tem cerca de 574 milhões de anos

Segundo o artigo, os fósseis grandes que são inequivocamente de animais vêm da biota de Ediacara, datada de cerca de 574 milhões de anos. Os microfósseis também só trazem animais definitivos a partir do Ediacarano.

Os sinais químicos contam outra história. Moléculas de gordura preservadas em rochas antigas, os biomarcadores, são compatíveis com esponjas pelo menos 650 milhões de anos atrás. Os autores calculam que os animais surgiram ao menos 75 milhões de anos antes de virarem fóssil. Para um fóssil bem mais jovem e já famoso, veja o de 309 milhões de anos que duas estagiárias batizaram com o nome das mães.

Por que um depósito na China virou o limite máximo

Para datar uma origem, o relógio molecular precisa de dois tipos de âncora: uma data mínima, a de um fóssil que já existia, e uma data máxima, um momento em que o grupo ainda não existia. A segunda é mais difícil, porque depende de provar a ausência.

Na prática, a ausência vinha do depósito Weng'an, na China, com cerca de 590 milhões de anos. Ele guarda microrganismos em detalhe extraordinário, e nenhum é definitivamente um animal. Os cientistas concluíram que os animais só poderiam ter surgido depois dele.

O que os microfósseis da Mongólia mudaram

A equipe estudou os microfósseis do Kheseen, na Mongólia, que são mais de 40 milhões de anos mais novos que os de Weng'an. Os dois depósitos compartilham algumas espécies, e o Kheseen está igualmente bem preservado.

Ele também não traz animais, embora se saiba que eles já existiam na época. Para Anderson, isso derruba o argumento: "Os microfósseis do Kheseen são tão bem preservados quanto os de Weng'an, e mesmo assim os animais continuam ausentes, embora saibamos que existiam naquele momento", disse, segundo o release.

Como o relógio molecular recalcula a origem dos animais

O relógio molecular compara as diferenças genéticas entre espécies vivas e, com datas de fósseis como referência e taxas de evolução, estima quando viveram os ancestrais. Os pesquisadores trocaram o limite de Weng'an por depósitos de 850 a 730 milhões de anos.

São a Formação Svanbergfjellet (Noruega), o Grupo Bitter Springs (Austrália) e o Grupo Chuar (Arizona, EUA). Todos poderiam preservar animais, e nenhum trouxe um fóssil de animal até hoje. Com esses limites, a origem recuou cerca de 200 milhões de anos, para 800 a 700 milhões.

MarcoIdadeFonte
Primeiros fósseis inequívocos de animais (biota de Ediacara)cerca de 574 milhões de anosArtigo na Science Advances
Depósito Weng'an, na China, usado como limite máximocerca de 590 milhões de anosRelease de Oxford
Sinais químicos compatíveis com esponjaspelo menos 650 milhões de anosRelease de Oxford
Início do Criogeniano, a era da "Terra bola de neve"cerca de 720 milhões de anosRelease de Oxford
Nova estimativa para a origem dos animais800 a 700 milhões de anosRelease de Oxford

Arte: Watts & Wild, com dados do release da Universidade de Oxford (2 de outubro de 2026) e do artigo da Science Advances.

Contra o fóssil mais antigo de animal, de cerca de 574 milhões de anos, a nova janela fica de 126 a 226 milhões de anos mais cedo (800 menos 574, e 700 menos 574).

Animais antes da Terra bola de neve?

O Criogeniano começou há cerca de 720 milhões de anos, e nele as geleiras cobriram boa parte do planeta, nos episódios chamados de Terra bola de neve. Uma origem entre 800 e 700 milhões de anos põe os animais antes dessas glaciações ou no meio delas.

O artigo diz que não dá mais para descartar as hipóteses que ligam a diversificação dos animais a essas glaciações. Para saber se o frio ajudou ou atrapalhou, faltam dados.

Sem fóssil de animal anterior ao Ediacarano, a data segue estimativa

Durbin avisa que ainda não há prova direta. Segundo ele, os fósseis de corpo de animais anteriores ao Ediacarano continuam fora do alcance, e a análise não prova que animais existiam há 800 milhões de anos.

O que a pesquisa faz é enfraquecer um dos principais argumentos para limitar a origem ao Ediacarano e mostrar até onde o relógio molecular pode recuar. O artigo ressalva que as causas e a trajetória da evolução animal seguem incertas até que a paleontologia e a geoquímica deem confiança aos limites máximos. O estudo completo está na Science Advances, sob o DOI 10.1126/sciadv.aeg6289.

Fontes: Universidade de Oxford, release de 2 de outubro de 2026, republicado no Phys.org. Durbin et al., Science Advances, 2026, DOI 10.1126/sciadv.aeg6289.

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