Uma baleia-jubarte fotografada em 2003 no Banco dos Abrolhos, na Bahia, reapareceu em 2025 em Hervey Bay, na Austrália, a 15,1 mil quilômetros, a maior distância já documentada entre dois registros da mesma jubarte
Um estudo publicado em maio de 2026 na Royal Society Open Science cruzou 19.283 fotos de cauda feitas entre 1984 e 2025 e achou duas jubartes que passaram entre o Brasil e o leste da Austrália. Uma saiu de Abrolhos, na Bahia; a outra fez o caminho inverso e apareceu no litoral paulista.
Pontos de foto das duas jubartes do estudo. As linhas tracejadas marcam a distância mínima entre os registros; a rota real não foi rastreada. Distâncias: Castro Ayala e colegas (2026), Royal Society Open Science. Arte: Watts & Wild, com contornos do Natural Earth.
Um estudo publicado em maio de 2026 conta a história: em 2003, uma baleia-jubarte foi fotografada no Banco dos Abrolhos, no sul da Bahia, no meio de um grupo agitado de nove adultos.
Em setembro de 2025, 22 anos depois, a mesma cauda apareceu em Hervey Bay, no estado de Queensland, na costa leste da Austrália. Dessa vez, o animal estava sozinho.
Entre os dois pontos há pelo menos 15,1 mil quilômetros. É a maior distância já documentada entre dois registros de uma mesma jubarte, informa a Universidade Griffith, da Austrália. O caso está no artigo de Cristina Castro Ayala, Stephanie Stack e mais nove autores, publicado em 20 de maio de 2026.
Abrolhos é o principal berçário de jubartes do Brasil, como descreve a Universidade Griffith, e o centro da temporada das jubartes na Bahia. A baleia recordista foi registrada pela primeira vez justamente nesse pedaço de mar.
Como uma baleia da Bahia foi parar na Austrália? O caminho exato não é conhecido: existem só as duas fotos, a de 2003 e a de 2025. Os autores ligam os dois casos a uma hipótese: a de que baleias de populações diferentes se cruzam nas áreas de alimentação da Antártida e algumas voltam por outro caminho.
Como os cientistas sabem que é a mesma baleia?
Cada jubarte tem, na parte de baixo da cauda, um padrão de marcas que muda de um animal para outro. Quando a baleia mergulha e levanta a cauda, esse desenho fica à mostra para quem está com a câmera pronta.
A técnica se chama foto-identificação. Ela dispensa coleira ou aparelho no animal: basta uma boa foto da cauda, que pode ser comparada anos depois com outra, feita em qualquer lugar do mundo.
19.283 fotos, de 1984 a 2025, passaram por um programa e por olhos humanos
O estudo reuniu 19.283 fotos de cauda de alta qualidade, feitas no leste da Austrália e na América Latina ao longo de quatro décadas. Parte veio de pesquisadores. A outra parte chegou de cidadãos comuns, que enviaram imagens à plataforma internacional Happywhale.
Todas passaram por um programa de reconhecimento automático de imagens. Cada possível par apontado pela máquina foi conferido depois, um a um, a olho, antes de entrar no artigo.
Só duas baleias em quase 20 mil cruzaram entre os dois berçários
A busca rendeu pouco, e esse é o ponto. Em mais de quatro décadas de registros, cobrindo quase 20 mil jubartes identificadas, apenas duas apareceram nas duas regiões. Isso equivale a 0,01% dos animais identificados.
Os autores leem o número como sinal de raridade. Pelos intervalos entre as fotos, de 6 e de 22 anos, eles escrevem que os deslocamentos parecem eventos raros, talvez únicos na vida de cada baleia, e não uma mudança regular de rota migratória.
A outra jubarte saiu da Austrália e apareceu no litoral paulista
A segunda baleia fez o caminho inverso. Foi fotografada em Hervey Bay em 2007, voltou a ser vista no mesmo lugar em 2013 e, em 2019, surgiu no litoral de São Paulo.
A distância mínima entre Hervey Bay e o ponto paulista é de cerca de 14,2 mil quilômetros. A Universidade Griffith faz uma comparação: é mais ou menos a distância entre Sydney e Londres.
Pela primeira vez, a troca aparece nos dois sentidos
É isso que dá nome ao artigo. Até ele, nenhum registro mostrava jubartes passando entre as áreas de reprodução do leste da Austrália e do Brasil nas duas direções, uma daqui para lá e outra de lá para cá.
Os cientistas chamam essas populações de estoques reprodutivos: o do Brasil é o estoque A, e o do leste australiano, o E1. Movimentos entre estoques diferentes são raríssimos, afirmam os autores no resumo do estudo.
O novo recorde supera o anterior em 15%
A distância entre Abrolhos e Hervey Bay passa em 15% o maior deslocamento de uma jubarte documentado até então, segundo a Pacific Whale Foundation, instituição de dois dos autores.
A Universidade Griffith fala em recordes no plural: as duas baleias do estudo marcaram as maiores distâncias já confirmadas entre avistamentos de uma mesma jubarte, em qualquer lugar do mundo.
Abrolhos e Hervey Bay estão quase em lados opostos do planeta
Medida pela superfície da Terra, a maior distância possível entre dois pontos é meia volta ao mundo, cerca de 20 mil quilômetros. Os 15,1 mil quilômetros do recorde equivalem a três quartos desse limite.
A conta fica mais concreta com o mapa do Brasil. Em linha reta, do Cabo Orange, no Amapá, à foz do Arroio Chuí, no Rio Grande do Sul, as duas pontas do nosso litoral, são cerca de 4,2 mil quilômetros, em cálculo do Watts & Wild com coordenadas aproximadas.
A distância do recorde equivale a três vezes e meia essa reta.
Os 15,1 mil quilômetros são a distância mínima entre os dois pontos de foto, e qualquer caminho real no mar é mais longo. O artigo lembra que a foto-identificação registra só o começo e o fim da viagem. O trajeto real e a distância nadada seguem desconhecidos.
A baleia foi rastreada por satélite?
Não, e essa é a diferença entre as duas técnicas. O rastreamento por satélite desenha o trajeto dia a dia, mas depende de um aparelho preso ao animal. É o método usado para mapear as rotas da tartaruga-de-couro desde o Espírito Santo.
A foto-identificação não mostra o percurso, só os pontos de chegada. Em troca, alcança décadas: a imagem de 2003 só ganhou sentido em 2025, quando outra câmera, do outro lado do mundo, registrou a mesma cauda.
A hipótese dos autores passa pelas áreas de alimentação antárticas
As jubartes do hemisfério sul se reproduzem em águas quentes e se alimentam nos mares frios perto da Antártida. Os autores afirmam que os dois casos apoiam a chamada hipótese da Troca no Oceano Austral.
A ideia é que baleias de populações diferentes se encontram nas mesmas áreas de alimentação e que algumas, na volta, seguem outro caminho. Podem acabar numa nova área de reprodução, talvez pelo resto da vida, na descrição da Universidade Griffith.
Gelo marinho e krill entram como possíveis explicações
No artigo, a recuperação das populações de jubarte e a variação do ambiente aparecem como fatores que podem abrir espaço para essas trocas entre oceanos. A Griffith cita ainda mudanças no oceano Austral ligadas ao clima.
Entre elas estão alterações no gelo marinho e na distribuição do krill antártico, o pequeno crustáceo que é a principal comida da jubarte. Essas mudanças podem estar tornando as travessias mais prováveis, diz a universidade, em tom de hipótese.
Por que duas baleias importam para populações inteiras
Mesmo raras, essas trocas contam para a saúde das populações no longo prazo, afirmou Stephanie Stack, doutoranda da Griffith e coautora principal. Um animal que muda de área pode ajudar a manter a diversidade genética entre grupos distantes.
Também pode levar novos estilos de canto de uma região para outra. O canto da jubarte se espalha de forma cultural entre oceanos, parecido com uma moda musical entre pessoas, compara a pesquisadora.
Fotos enviadas por cidadãos comuns entram na conta
Parte das imagens veio de gente que fotografa baleias por conta própria e manda para a Happywhale. Para Cristina Castro Ayala, da Pacific Whale Foundation, cada foto ajuda a entender a biologia das baleias e, neste caso, revelou um dos movimentos mais extremos já registrados.
Stack resumiu assim: as duas baleias foram fotografadas com décadas de intervalo, por pessoas diferentes, em lados opostos do mundo, separados por dois oceanos. Mesmo assim, foi possível ligar a viagem de cada uma.
Os autores encerram o resumo defendendo mais colaboração global em plataformas de foto-identificação para detectar e medir essas trocas raras. Uma cauda fotografada hoje em Abrolhos pode ganhar outro endereço daqui a 20 anos.
Leia também: jubartes em número incomum no litoral do Rio de Janeiro em 2026.
Se uma jubarte vista na Bahia pode terminar do outro lado do mundo, qual das caudas fotografadas neste inverno em Abrolhos será a próxima a aparecer longe daqui? Quem já viu uma jubarte levantar a cauda no nosso litoral pode contar onde foi nos comentários.



