Ciência e tecnologia

Porcos largados numa ilha gelada do Pacífico há mais de 200 anos, só para servir de comida a náufragos, criaram sozinhos uma característica que hoje faz cientistas disputarem os descendentes deles

Soltos em 1807 como reserva de comida para marinheiros naufragados, os porcos da Ilha Auckland ficaram isolados por quase dois séculos e hoje são disputados por cientistas do mundo todo.

Porcos: porco selvagem da linhagem da Ilha Auckland, isolada desde 1807

Porco selvagem descendente da linhagem da Ilha Auckland, isolada desde 1807. Foto: eyrezer/Wikimedia Commons (CC BY 4.0).

Em 1807, o capitão Abraham Bristow deixou porcos na Ilha Auckland, a 465 quilômetros da Nova Zelândia, como reserva de comida para náufragos. Isolados por quase dois séculos sem predador, os animais evoluíram sozinhos. Hoje, cientistas usam os descendentes em pesquisas de transplante de órgãos de porco para humanos.

Em 1807, o capitão baleeiro Abraham Bristow deixou um grupo de porcos domésticos na Ilha Auckland, um arquipélago isolado a cerca de 560 quilômetros ao sul da Nova Zelândia. A ideia era simples: virar comida de emergência para marinheiros que naufragassem naquelas águas geladas.

A escolha não foi única: o mesmo tipo de soltura de emergência ocorreu em outras partes do arquipélago ao longo do século 19, Segundo o Terra baseada em levantamento do site espanhol Xataka, publicada em 17 de setembro de 2026.

Os porcos largados como reserva alimentar sobreviveram sozinhos por quase dois séculos, sem predador e sem contato com outros rebanhos, e desenvolveram um perfil genético raro. Hoje, cientistas da Nova Zelândia e da Alemanha usam os descendentes desses animais em pesquisas avançadas de transplante de órgãos de porco para humanos, o xenotransplante.

O naufrágio do General Grant provou o valor dos porcos soltos em 1866

Reforços de porcos aconteceram várias vezes ao longo do século 19 na Ilha Auckland, além da soltura original do capitão Bristow. Quando o navio General Grant naufragou nas redondezas em 1866, os sobreviventes passaram 18 meses no arquipélago até serem resgatados.

Os porcos selvagens ajudaram a manter essas pessoas vivas durante o período de isolamento, segundo o mesmo levantamento do Terra. O episódio virou um dos exemplos mais citados de como a soltura de emergência cumpriu a função original.

Vista de satélite da Ilha Auckland, a 560 quilômetros da Nova Zelândia
Vista de satélite da Ilha Auckland, a cerca de 560 quilômetros ao sul da Nova Zelândia. Foto: NASA/Wikimedia Commons (domínio público).

Isolados por quase 200 anos, os porcos criaram um corpo bem diferente do doméstico

Sem predador natural e sem contato com outros rebanhos, a população da Ilha Auckland evoluiu sozinha por quase dois séculos. Os animais se alimentavam de raízes, larvas encontradas sob pedras, vegetação nativa e restos de aves marinhas trazidos pela maré.

O resultado é um porco pequeno e resistente: cerca de 90 quilos, bem abaixo dos 300 a 700 quilos de um porco doméstico comum, segundo dados reunidos pela revista PopSci. Só os mais fortes sobreviveram ao clima e à comida escassa da ilha.

Em 1999, 17 porcos saíram da ilha para não desaparecer

A Rare Breeds Conservation Society, uma sociedade neozelandesa de conservação de raças raras, capturou 17 porcos da Ilha Auckland em 1999, dentro de um plano de restauração ambiental do arquipélago que previa a remoção dos animais silvestres do local.

Os animais ficaram em quarentena na cidade de Invercargill, no sul da Nova Zelândia, e se reproduziram bem em cativeiro. Essa reserva captiva é a origem direta dos porcos usados hoje nas pesquisas científicas mais recentes.

Porcos da linhagem da Ilha Auckland em reserva na Nova Zelândia
Porcos da linhagem da Ilha Auckland hoje vivem em reservas como o Willowbank Wildlife Reserve, na Nova Zelândia. Foto: Daderot/Wikimedia Commons (CC0).

Por que os porcos da Ilha Auckland não pegam as doenças dos porcos comuns?

O isolamento de quase dois séculos deixou os porcos da Ilha Auckland livres de doenças comuns em criações domésticas. Estudos publicados na revista científica Microorganisms mostram que a população é totalmente livre do PERV-C, um tipo de retrovírus endógeno do porco que preocupa quem trabalha com transplante de órgãos.

Além disso, os animais têm um número anormalmente baixo de cópias desse retrovírus espalhadas pelo próprio genoma e não carregam outras oito doenças de porco investigadas pelos pesquisadores. Por isso os cientistas chamam a linhagem de um dos porcos mais livres de doenças do mundo.

Living Cell Technologies usou os porcos em testes contra o diabetes tipo 1

Ainda nos anos 1990, a empresa neozelandesa então chamada Diatranz começou a investigar células de ilhotas pancreáticas de porco como tratamento para o diabetes tipo 1, encapsuladas em um polímero derivado de alga marinha. O trabalho ficou parado por um tempo por causa de preocupações sanitárias.

Depois de comprovar que a linhagem da Ilha Auckland era segura o bastante, a sucessora da empresa, a Living Cell Technologies, e mais tarde a NZeno, avançaram para testes clínicos de transplante dessas células em pacientes humanos com diabetes.

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Nos testes clínicos, nenhum vírus de porco passou para o paciente humano

Segundo o artigo científico publicado na Microorganisms e citado pela PopSci, nos primeiros testes clínicos de transplante de células de ilhota pancreática de porco em pacientes com diabetes, nenhum vírus porcino foi transmitido aos receptores humanos, incluindo o PERV.

Esse resultado reforça por que a linhagem da Ilha Auckland virou uma base tão procurada para novas pesquisas: quanto mais limpo o genoma do animal doador, menor o risco de uma infecção cruzada entre porco e ser humano.

O xenotransplante de porco já bateu recordes e também já matou um paciente

O caso mais conhecido de xenotransplante veio da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, que em janeiro de 2022 transplantou um coração de porco geneticamente modificado, da empresa Revivicor, em um paciente vivo. Ele sobreviveu dois meses após a cirurgia.

A autópsia identificou citomegalovírus porcino como um dos fatores da morte, um lembrete de por que os cientistas buscam animais doadores o mais livres de vírus possível, como os descendentes dos porcos da Ilha Auckland. O mercado de xenotransplante é estimado em US$ 24,5 bilhões até 2029, segundo o mesmo levantamento.

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O plano é acabar com os porcos selvagens que ainda restam na ilha

Nem todos os porcos da Ilha Auckland viraram cobaia de pesquisa: a maior parte ainda vive solta no arquipélago, hoje reserva natural protegida, e continua destruindo vegetação nativa e roubando ovos de albatrozes, pinguins e petréis das tocas dessas aves.

O Departamento de Conservação da Nova Zelândia estuda um plano de erradicação por armadilha, veneno e disparo por helicóptero, mas o projeto ainda depende de financiamento e esbarra no tamanho e no isolamento da ilha, sem qualquer infraestrutura no local.

Hoje os herdeiros dos porcos náufragos vivem dois destinos opostos

De um lado, a linhagem em cativeiro segue como base genética para pesquisas de transplante de órgãos e tratamento de diabetes, sob acompanhamento de universidades da Alemanha e da Nova Zelândia. Do outro, a população selvagem da ilha aguarda a decisão sobre erradicação, como mostra o caso de outro mistério da natureza que intrigou cientistas.

Dois séculos depois de virar comida de emergência para náufragos, os porcos da Ilha Auckland se tornaram peça científica rara. Você acha que vale usar animais assim em pesquisas de transplante para humanos? Deixe sua opinião nos comentários.

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