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Veredas do Cerrado guardam 6 vezes mais carbono que a Amazônia baixa e podem cobrir 16,7 milhões de hectares

Uma equipe cavou 4 metros dentro de campos úmidos perto da Chapada dos Veadeiros e achou turfa com cerca de 20 mil anos. A conta de carbono que saiu dali põe o Cerrado ao lado das turfeiras da Indonésia e do Congo. Só que esse estoque é frágil.

Palmeiras buriti e arbustos verdes numa das veredas do Cerrado, em Minas Gerais, sob céu azul com nuvens

Buritis numa vereda em João Pinheiro (MG), em dezembro de 2007. Foto: Denis A. C. Conrado, Wikimedia Commons, licença CC BY, recortada.

As veredas do Cerrado guardam cerca de seis vezes mais carbono que uma área igual de terras baixas da Amazônia, segundo o primeiro estudo a estimar esses estoques, na revista New Phytologist. O mapa de satélite indica que elas podem ocupar até 16,7 milhões de hectares, 2% do território brasileiro.

O trabalho é de Larissa Verona, hoje técnica no Cary Institute of Ecosystem Studies (EUA), e de Rafael Oliveira, da Unicamp, com outros autores. A Mongabay Brasil contou o caso em 7 de outubro de 2026.

O que é uma vereda e por que ela guarda turfa

Vereda é o campo úmido do Cerrado onde a água subterrânea chega à superfície. O solo fica encharcado o ano todo, a matéria orgânica se decompõe devagar e vira turfa. Os buritis, palmeiras de copa alta, são a marca da paisagem.

O resumo do artigo diz que turfeiras alimentadas por água subterrânea em regiões tropicais de estação seca eram mal conhecidas. Em florestas chuvosas, a chuva alta e constante explica a turfa. No Cerrado, a chuva vem em estação marcada, e o lençol é que mantém o solo molhado.

Buritis altos e arbustos verdes ao fundo de um campo úmido sob céu azul com nuvens, numa vereda de Minas Gerais
Outro trecho de vereda em João Pinheiro (MG), em dezembro de 2007. Foto: Denis A. C. Conrado, Wikimedia Commons, licença CC BY, recortada.

Quatro metros de turfa nas veredas do Cerrado mudam a conta

Verona e a equipe coletaram turfa em seis pontos dentro e perto do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Chegaram a 4 metros de profundidade, mais do que esperavam.

Estudos anteriores no Cerrado desciam até 1,6 metro, e a maior parte olhava só os primeiros 20 a 100 centímetros. Por isso, diz a Mongabay, os autores concluem que os estoques do bioma podem ter sido subestimados em 55% a 90%. A turfa mais antiga tinha carbono com mais de 20 mil anos.

O que o artigo mediu, em seis números

Número do estudoO que significaDe onde vem
Cerca de 1.200 toneladas de carbono por hectareEstoque médio das veredas, no solo e na vegetaçãoResumo do artigo na New Phytologist
Cerca de 20 mil anosIdade do carbono acumulado, datada por radiocarbonoResumo do artigo na New Phytologist
Até 16,7 milhões de hectaresÁrea que veredas e campos úmidos podem ocupar, pelo mapa de satéliteResumo do artigo e Mongabay
6 vezesCarbono guardado, por área igual, frente às terras baixas da AmazôniaMongabay, citando o estudo
4 vezesCarbono das veredas frente à vegetação seca do CerradoMongabay, citando o estudo
Cerca de 70%Parte das emissões anuais de CO2 e metano que ocorre na estação secaResumo do artigo na New Phytologist

Arte: Watts & Wild, com dados do artigo de Verona e colegas (New Phytologist, 2026) e da reportagem da Mongabay Brasil de 7 de outubro de 2026.

A conta da redação: de onde sai a ordem de grandeza

Multiplicando 1.200 toneladas de carbono por hectare por 16,7 milhões de hectares, o resultado é cerca de 20 bilhões de toneladas de carbono. É uma conta de ordem de grandeza, porque o estoque médio vale para as veredas e a área do mapa inclui também campos úmidos.

A Mongabay escreve que o estudo estima até 20 bilhões de toneladas de dióxido de carbono. Carbono e CO2 são unidades diferentes: uma tonelada de carbono equivale a cerca de 3,67 toneladas de CO2. Vale conferir a unidade no artigo antes de citar o total.

Mãos segurando cinco frutos de buriti, de casca vermelha em escamas, a palmeira típica das veredas
Frutos de buriti no Tocantins. A palmeira é marca das veredas. Foto: Leovigildo Santos, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0, recortada.

Um estoque antigo, mas instável

A espectroscopia por infravermelho mostrou que o carbono das veredas é menos estável que o de outras turfeiras tropicais. Cerca de 70% das emissões anuais de CO2 e metano medidas pela equipe aconteceram na estação seca, com pico em setembro.

Para os autores, drenagem, estiagens mais longas e incêndios mais frequentes ameaçam soltar um reservatório antigo de carbono. A própria equipe viu o fogo de perto: em fevereiro de 2024, um raio provável iniciou um incêndio na estrada da Chapada dos Veadeiros minutos depois de uma chuva.

Em 2026 o fogo está menor no bioma. O INPE contou 25.632 focos entre janeiro e 23 de setembro, 42% abaixo da média dos cinco anos anteriores. O risco apontado pelos pesquisadores é de longo prazo e depende do solo secar.

Reserva legal de 20% e a água que aflora

O Código Florestal manda preservar 80% da vegetação nativa em propriedades privadas na Amazônia e 20% no Cerrado, lembra a Mongabay. Verona espera que o estudo leve legisladores a rever essa proporção. O estudo também achou veredas com, em média, quatro vezes mais carbono que a vegetação seca do Cerrado.

Já a Lei de Proteção da Vegetação Nativa protege qualquer ponto onde a água subterrânea aflore. Oliveira diz que, no Cerrado, o Ibama costuma ignorar isso: “Estamos fazendo vista grossa.” O Ibama não respondeu à Mongabay.

No fim de 2025, segundo Oliveira, Mato Grosso aprovou uma lei que abre as áreas úmidas dos rios Araguaia e Guaporé à drenagem agrícola. Para ele, são as regiões que o artigo mostra como importantes para o carbono.

O que um especialista de fora achou

Susan Page, professora da Universidade de Leicester (Reino Unido) e especialista em turfeiras tropicais, não participou do estudo. Ela disse que o trabalho traz “várias percepções novas” e que os estoques do Cerrado ficaram fora das estimativas nacionais e globais até agora.

Gustavo Oliveira, da Universidade Clark (EUA), também de fora, chamou as conclusões de “absolutamente importantes”, mas disse que não bastam para mudar a política. Para ele, é preciso olhar também os subsídios que empurram a agricultura no bioma.

O Cerrado perdeu cerca de 55% da vegetação nativa nos últimos cinquenta anos, escreve a Mongabay. O DETER do INPE segue registrando alertas de desmatamento no bioma em 2026. Na Amazônia, o carbono também sofre com a fumaça: veja o efeito do ozônio na absorção de carbono.

O que o estudo ainda não fecha

O mapa das veredas veio de modelo com imagens de satélite, validado em quase 150 pontos de turfa registrados. Os autores dizem que ainda faltam testes de campo. O próprio resumo reconhece que o acúmulo de turfa e a extensão das veredas seguem incertos.

As seis coletas de solo ficaram na região da Chapada dos Veadeiros, e a medição de gases durou um ano. Para estimar quanto as veredas emitem de fato, os pesquisadores dizem que seria preciso uma série mais longa. Os 16,7 milhões de hectares são área potencial, não vereda confirmada.

O artigo tem licença aberta CC BY 4.0 e pode ser lido pelo DOI 10.1111/nph.71027.

Fontes: Verona et al., New Phytologist, 2026 (DOI 10.1111/nph.71027). Registro Crossref do artigo, com resumo e licença. Mongabay Brasil, 7 de outubro de 2026.

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