Tempo e clima

Fumaça das queimadas tem efeito escondido: ozônio corta em 24% a absorção de carbono da Amazônia

Quando a Amazônia pega fogo, o carbono que sai da queima é só metade da conta. Um estudo da Universidade de Exeter, da ETH Zurique e da Universidade James Cook, divulgado hoje, calcula a outra metade: o ozônio da fumaça que deixa a mata em pé absorvendo menos CO2.

Imagem de satélite da NASA mostra plumas de fumaça de queimadas sobre a floresta amazônica, com rios sinuosos e nuvens

Plumas de fumaça de queimadas sobre a Amazônia em 22 de fevereiro de 2024, vistas pelo satélite da NASA. Imagem de arquivo. Imagem: NASA/MODIS Land Rapid Response Team, Wikimedia Commons, domínio público, recortada.

O ozônio formado pela fumaça das queimadas reduz a capacidade da floresta amazônica de absorver CO2 em um valor equivalente a cerca de 24% do carbono emitido pelos próprios incêndios. A conta é de um estudo na revista Communications Earth & Environment, divulgado em 7 de outubro de 2026 pela Universidade de Exeter, no Reino Unido.

Os autores dizem que o efeito é maior nas grandes secas e que o El Niño forte que se forma neste ano pode repetir o dano de 2024. Na seca de 2023/24, segundo o comunicado, o prejuízo causado pelo ozônio quase dobrou em relação à média da década anterior.

Como o fogo estraga a floresta que não queimou

O ozônio de superfície nasce quando poluentes de fontes como as queimadas reagem sob a luz do sol. Ele faz mal à saúde e atrapalha as plantas: danifica as folhas das árvores que sobreviveram ao fogo e reduz a capacidade delas de continuar absorvendo carbono.

Por isso o fogo cobra duas vezes. Primeiro libera CO2 ao queimar a biomassa. Depois, a fumaça vira ozônio e a mata que ficou em pé tira menos CO2 do ar.

O que a equipe mediu

Os pesquisadores usaram quase três décadas de observações, de 1997 a 2024, e um modelo global de vegetação para seguir o dano do ozônio junto com a atividade do fogo e a seca. A autora principal é Flossie Brown, da ETH Zurique.

O resultado de 24% é um potencial de redução na absorção líquida anual de carbono, segundo o artigo. A Amazônia guarda cerca de 120 bilhões de toneladas de carbono, de acordo com o estudo, então uma perda desse tipo pesa na conta do clima mundial.

Estudos anteriores, também citados no artigo, já estimavam que o ozônio de queimadas reduz a produtividade das plantas amazônicas em cerca de 15%. O que faltava era medir o que isso significa para o CO2 na atmosfera, comparado com a emissão direta do fogo.

Por que a seca e o El Niño pioram o quadro

O efeito é mais forte nas secas grandes. Três das secas mais extremas dos últimos 30 anos na Amazônia (1997/98, 2015/16 e 2023/24) vieram junto com episódios de El Niño, a fase quente de um ciclo natural do clima.

Brown disse que as secas estudadas deixaram, cada uma, uma assinatura própria e que o grupo teme ver a história se repetir, já que um El Niño de força parecida parece estar se formando de novo. Sobre esse fenômeno em 2026, veja a matéria sobre a previsão de El Niño forte.

Onde o dano é pior: o Arco do Desmatamento

Quase todo fogo na Amazônia é aceso por gente, seja na limpeza de terra para pasto e lavoura, seja em queima agrícola que escapa para a mata em pé. Segundo o comunicado, o pior dano de ozônio fica no Arco do Desmatamento, onde a área agrícola avança sobre a floresta.

O professor Stephen Sitch, de Exeter, disse que isso torna o dano extra do ozônio em grande parte evitável. Para ele, cortar o desmatamento e a degradação reduz a emissão direta do fogo e protege a floresta dessa fonte secundária e invisível de perda de carbono.

O que isso muda para o Brasil

A conta de carbono da Amazônia costuma olhar o que o fogo emite. O estudo mostra que falta um item: o carbono que a mata deixa de absorver depois. O coautor Alexander Cheesman, da Universidade James Cook, disse que poluição do ar, desmatamento e clima não podem ser tratados como problemas separados.

O assunto já aparece em outras matérias do site, como o limite de 20% de desmatamento apontado por Carlos Nobre, a contagem de focos de calor no Amazonas em setembro e o que fazer quando a fumaça chega longe do fogo.

O que o estudo ainda não garante

Os 24% vêm de um modelo de computador alimentado por dados de observação, não de uma medição direta em cada árvore. O próprio artigo diz que a confiança é menor para 2023/24, porque faltam medidas de ozônio na superfície e estimativas independentes para aquele período.

Há outro cuidado. O artigo observa que, na simulação, o dano do ozônio em 2024 ficou abaixo do de 1998, ano de El Niño forte, apesar de mais ozônio e mais emissão de fogo. O comunicado fala em quase dobrar em relação à década anterior, e as duas comparações usam bases diferentes.

A previsão de que o El Niño de 2026 repita o estrago de 2024 é um alerta dos autores, não um resultado medido. O trabalho teve financiamento do Conselho de Pesquisa do Ambiente Natural do Reino Unido, e o comunicado indica o site do projeto TropOz para mais informações.

Fontes: Universidade de Exeter, comunicado no EurekAlert, 7 de outubro de 2026; Communications Earth & Environment, artigo "Fire-derived ozone intensifies carbon loss in Amazon forests under extreme droughts"; projeto TropOz.

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