Três cães-selvagens-africanos com coleira GPS andaram 4.126 quilômetros pela Zâmbia em nove meses, deram meia-volta ao chegar perto de cidades e só pararam num vale a 419 quilômetros de casa
Os cientistas acompanharam por coleira GPS dois grupos de irmãos que saíram da mesma matilha. Eles cruzaram áreas sem proteção, voltaram pelo mesmo caminho ao topar com cidades e contornaram represas. Uma das fêmeas morreu num laço de caça. Veja a rota, os números e o que ela revela.
Cão-selvagem-africano na área de Lupande, perto do South Luangwa, na Zâmbia, em julho de 2023. A foto não é do estudo. Foto: Timothy A. Gonsalves, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Três machos de cão-selvagem-africano andaram 4.126 quilômetros pela Zâmbia depois de deixar a matilha em julho de 2025. Em linha reta, só se afastaram 419 quilômetros: o caminho real foi quase dez vezes maior, com voltas, recuos e desvios de cidades.
Os dados estão num artigo publicado em setembro na revista Ecology, assinado por 28 pesquisadores. O primeiro autor é Scott Creel, da Montana State University, que estuda a espécie na Zâmbia com o Zambian Carnivore Programme. O texto completo está aberto no PubMed Central.
Quem são os três cães-selvagens
Os três eram irmãos de 3 anos da matilha Mayukuyuku, do Parque Nacional de Kafue. A matilha tinha 18 adultos e jovens, e os dispersores vinham de uma ninhada de 19 filhotes que chegaram à idade adulta.
Na espécie, em geral só um macho e uma fêmea dominantes se reproduzem. Com tantos irmãos da mesma idade e pouca chance de acasalar, a saída era esperada. Primeiro saíram quatro irmãs; duas semanas depois, os três machos.
A rota: meia-volta a cada cidade
Os dois grupos chegaram à periferia de três cidades grandes: Kabwe, com 288.598 habitantes, Kitwe, com 665.961, e Ndola, com 627.503. Em todas as vezes, deram meia-volta e seguiram na direção de onde tinham vindo.
Depois de subir até Ndola, os machos refizeram quase exatamente o próprio rastro por 200 quilômetros, rumo ao sul. Evitaram a Great North Road, a estrada que liga a capital Lusaka, de 2,2 milhões de habitantes, às cidades industriais do norte.
Ao passar de novo por Kabwe, contornaram a cidade pelo leste. Em seguida toparam com duas represas grandes, impossíveis de atravessar num trecho de 20 a 30 quilômetros, e deram a volta nas duas.
O reencontro e a morte no laço
Em 18 e 19 de setembro de 2025, os irmãos se reencontraram numa área sem proteção, a 72 quilômetros de Kitwe. As fêmeas tinham andado 1.404 quilômetros; os machos, 1.203. Segundo o estudo, cães-selvagens se acham pelo cheiro com grande facilidade.
Os grupos se separaram de novo no dia seguinte. As fêmeas chegaram a uma mata perto de Kabwe em 10 de outubro, com 1.899 quilômetros percorridos. Pelos movimentos repetidos até um mesmo ponto, os pesquisadores concluíram que uma das irmãs sem coleira ficou presa num laço.
Em 23 de outubro, a fêmea com coleira também morreu, provavelmente num laço: a coleira tinha sido cortada a faca.
Com a morte dela, o contato com a última irmã se perdeu. Os pesquisadores não sabem onde ela está.
Quase o encontro com outro grupo
Em 9 de novembro, os machos chegaram às áreas de manejo de caça de Chisomo e Petauke, ligadas ao Parque Nacional South Luangwa. O vale do Luangwa tem, segundo o estudo, uma das maiores e mais densas populações de cães-selvagens do continente.
Ali, eles passaram a 1,6 quilômetro de quatro fêmeas que tinham saído de outra matilha, a Kasweta. As matilhas de origem dos dois grupos ficavam a 546 quilômetros uma da outra, em linha reta. Os machos já tinham 2.356 quilômetros nas patas; as fêmeas, 1.538.
Os grupos não ficaram juntos. Os machos andaram mais 107 quilômetros para o sudoeste e, em 1º de abril de 2026, estavam fixados na área de Luano, no alto da escarpa do Grande Vale do Rift.
Maior que o caso de 2021
Em outubro de 2021, a fêmea EWD-1355 saiu com duas irmãs da matilha Luamfwa, no South Luangwa. As três passaram de 2.300 quilômetros, até Moçambique e de volta, em 11 meses. Em junho de 2022, EWD-1355 morreu num laço de arame armado para caça.
Segundo o artigo, aquela foi a segunda maior dispersão já registrada da espécie. Só perdia para 3.892 quilômetros percorridos de Loliondo, na Tanzânia, ao Parque Nacional Tsavo West, no Quênia. Os 4.126 quilômetros dos machos Mayukuyuku passam das duas marcas.
Somados, os quatro deslocamentos descritos no estudo dão 9.863 quilômetros. Para comparar, os autores lembram que a rodovia I-90 cruza os Estados Unidos inteiros em 4.860 quilômetros.
Andar muito não é o mesmo que ligar populações
Esse é o principal alerta dos autores. Tanta caminhada rendeu pouca troca genética entre as populações, porque cães-selvagens em geral brigam, muitas vezes até a morte, quando encontram desconhecidos. Chegar é só metade do problema; ser aceito numa matilha nova é difícil e perigoso.
Fora das áreas protegidas, os cães andam 1,7 vez mais rápido e em linha 2,4 vezes mais reta, segundo dados anteriores do mesmo grupo citados no artigo. Os riscos ali são laços de caça, atropelamento e conflito com criadores de gado.
Ainda assim, os autores veem motivo para otimismo. Cerca de 40% da Zâmbia tem alguma forma de proteção para a fauna, e os deslocamentos entre sete parques nacionais confirmam dados genéticos de que as populações do país seguem conectadas.
O que o estudo não diz
O artigo é um relato de campo, com poucos animais acompanhados por coleira. Ele não mede quantos dispersores morrem no caminho nem garante que os machos vão formar uma matilha nova em Luano.
A lista vermelha da IUCN, consultada na base GBIF, classifica o cão-selvagem-africano como em perigo. Outros bichos seguidos por coleira e satélite estão no site: a rota da tartaruga-de-couro. Entre os canídeos do Brasil, veja o cachorro-vinagre no Pantanal e o lobo-guará e a lobeira do Cerrado.
Perguntas rápidas
Quantos quilômetros os cães-selvagens andaram?
Os três machos da matilha Mayukuyuku somavam 4.126 quilômetros de caminho em 1º de abril de 2026, segundo o estudo publicado na revista Ecology. Em linha reta, pararam a 419 quilômetros do ponto de partida.
Por que os cães-selvagens saem da matilha?
Na matilha, em geral só um macho e uma fêmea dominantes se reproduzem. Os jovens de 2 e 3 anos saem em grupo em busca de uma chance de reproduzir, sobretudo quando há muitos irmãos do mesmo sexo e da mesma idade.
O cão-selvagem-africano está ameaçado?
Sim. A lista vermelha da IUCN classifica a espécie como em perigo. O estudo aponta os laços de caça, os atropelamentos e o conflito com criadores de gado como os grandes riscos fora das áreas protegidas.
O cão-selvagem-africano vive no Brasil?
Não. A espécie vive só na África. No Brasil, o parente selvagem que caça em grupo é o cachorro-vinagre, que também é raro.



