Animais e natureza

Rastreamento por satélite do Ibama e do Projeto Tamar mapeia as rotas da tartaruga-de-couro, a maior tartaruga marinha do mundo, desde a Reserva Biológica de Comboios, no Espírito Santo, até o Atlântico Sul

Desde 2024, sete fêmeas por temporada recebem transmissor de satélite na Reserva Biológica de Comboios, no Espírito Santo. Os sinais já mostraram rotas que vão do Rio da Prata a Tristão da Cunha, no Atlântico Sul.

Tartaruga-de-couro adulta na praia, espécie que o rastreamento por satélite do Ibama e do Projeto Tamar acompanha no litoral brasileiro

Tartaruga-de-couro adulta na praia, a espécie que o Ibama e o Projeto Tamar rastreiam por satélite no litoral brasileiro. Foto de Alastair Rae, Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.

Desde 2024, o rastreamento por satélite do Ibama e da Fundação Projeto Tamar acompanha fêmeas de tartaruga-de-couro na Reserva Biológica de Comboios, no Espírito Santo. O monitoramento, batizado Caminhos de Gigantes, já registrou rotas até a foz do Rio da Prata e perto do arquipélago de Tristão da Cunha, no Atlântico Sul.

A Reserva Biológica de Comboios, no litoral norte do Espírito Santo, é o único ponto do Brasil onde a tartaruga-de-couro sobe à praia todos os anos para desovar, ao lado do Delta do Parnaíba, no Piauí.

Desde 2024, a Fundação Projeto Tamar equipa fêmeas da espécie com transmissores de satélite nessa reserva, sob supervisão do Centro Tamar e do ICMBio, dentro de uma condicionante de licenciamento ambiental do Ibama para a pesquisa sísmica na Bacia de Campos.

Sete fêmeas por temporada recebem o transmissor desde 2024. Os sinais já mostraram tartarugas passando pela foz do Rio da Prata, entre Argentina e Uruguai, e por uma área oceânica perto de Tristão da Cunha, no Atlântico Sul, segundo o Ibama e o Projeto Tamar.

O que é a tartaruga-de-couro, a maior tartaruga marinha do mundo

A tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) é a maior tartaruga marinha do planeta e não tem um casco rígido como as demais espécies. A carapaça é coberta por pele fina e resistente, sustentada por sete quilhas que percorrem o dorso, segundo o ICMBio.

Fêmeas adultas no Brasil medem entre 124,7 e 182 centímetros de comprimento de carapaça e pesam cerca de 500 quilos, com nadadeiras dianteiras que podem passar de dois metros. A espécie vive a maior parte do tempo em mar aberto e se alimenta de águas-vivas.

Onde a espécie desova no litoral brasileiro

No Brasil, a tartaruga-de-couro só desova de forma regular em dois pontos: o litoral norte do Espírito Santo e o Delta do Parnaíba, no Piauí. A temporada vai de setembro a março, com pico de posturas entre novembro e janeiro, segundo o ICMBio.

É nessa reserva que o Ibama, o ICMBio e o Projeto Tamar concentram o rastreamento por satélite iniciado em 2024, no mesmo trecho de praia que recebe as fêmeas todos os anos. A tartaruga-de-couro segue classificada como Criticamente em Perigo no Brasil, segundo o ICMBio.

Fêmea de tartaruga-de-couro deposita ovos na areia durante a desova, em Tortuguero, na Costa Rica
Fêmea de tartaruga-de-couro deposita os ovos na areia durante a desova. Foto de Bernard Dupont, Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.

Como funciona o projeto Caminhos de Gigantes, do Ibama

O Caminhos de Gigantes nasceu como uma exigência do licenciamento ambiental federal conduzido pelo Ibama para a pesquisa sísmica marinha na Bacia de Campos. Segundo o órgão, a ideia é entender como a tartaruga-de-couro interage com a exploração e a produção de petróleo e gás no mar.

A execução ficou a cargo da Fundação Projeto Tamar, com supervisão do Centro Tamar e do ICMBio, e tecnologia da empresa Appix Tecnologia e Informação. Cada transmissor fica preso ao casco da fêmea e envia a posição por satélite enquanto ela nada pelo oceano.

Quantas fêmeas já receberam transmissor de satélite em Comboios

Sete transmissores foram instalados em novembro de 2024, na primeira temporada do projeto, quando 15 fêmeas foram identificadas e marcadas na Reserva de Comboios. A média histórica gira em torno de dez fêmeas por temporada reprodutiva, segundo o Projeto Tamar.

Na temporada de 2025, o segundo ano do rastreamento, mais sete fêmeas novas ganharam transmissor, com o último instalado no início de dezembro. Ao todo, cerca de 14 fêmeas desovam por temporada na reserva, e a maioria ainda não carrega nenhum aparelho.

O que os sinais já revelaram sobre as rotas da espécie

Um dos primeiros exemplares marcados, ainda na temporada 2024/2025, emitiu sinais próximos à foz do Rio da Prata, entre a Argentina e o Uruguai, bem ao sul de onde nasceu. O mesmo animal foi depois localizado perto do arquipélago de Tristão da Cunha, no meio do Atlântico Sul.

Essas distâncias mostram que a espécie cruza o Atlântico Sul em pleno oceano aberto, longe de qualquer praia. Alexsandro Santos, coordenador de pesquisa e conservação do Projeto Tamar no Espírito Santo, diz que o rastreamento ajuda a mapear as áreas mais usadas pelas fêmeas.

Quantas vezes a tartaruga-de-couro desova em cada temporada

Cada fêmea de tartaruga-de-couro desova, em média, seis vezes numa mesma temporada, com cerca de 80 ovos por ninhada, segundo o Projeto Tamar. É um número bem menor do que o de outras tartarugas marinhas, que podem desovar até 13 vezes.

O ciclo de incubação e a corrida dos filhotes até o mar seguem o mesmo padrão descrito no ciclo de desova das tartarugas marinhas no Brasil. Assim como nas demais espécies, cada ninho vira uma corrida em grupo dos filhotes até a arrebentação, sob o olhar das equipes do Tamar.

Filhotes de tartaruga-de-couro saem do ninho e seguem para o mar, em Aruba
Filhotes de tartaruga-de-couro saem do ninho e seguem em grupo até o mar. Foto de Elise Peterson, Wikimedia Commons, CC BY 3.0.

Quanto tempo leva até a tartaruga-de-couro virar adulta?

A tartaruga-de-couro só atinge a maturidade sexual depois dos 20 anos de idade, e cada fêmea volta a desovar apenas a cada dois ou três anos. É um ciclo de vida lento, que torna qualquer perda de fêmea adulta ainda mais grave para a população.

Das milhares de crias que saem do ninho, apenas uma em cada mil sobrevive até a fase adulta, entre predadores, redes de pesca e a própria travessia do oceano. Por isso cada fêmea marcada com transmissor carrega um valor extra para a pesquisa.

Como o público pode acompanhar os dados em tempo real

O Projeto Tamar mantém a plataforma telemetria.tamar.org.br aberta a qualquer pessoa, com atualização diária da posição de cada tartaruga marcada. Não é preciso cadastro nem pagamento para ver o mapa das rotas.

A iniciativa segue o mesmo espírito de transparência de outros monitoramentos de fauna marinha no país, como o acompanhamento anual da temporada de baleias-jubarte no Parque Nacional de Abrolhos. Ambos dependem de anos de dados para mostrar mudanças de comportamento.

Assim como o censo do mico-leão-dourado na Mata Atlântica, esse tipo de acompanhamento só ganha valor quando repetido por vários anos seguidos.

Menos da metade das fêmeas da reserva tem transmissor

Nas duas temporadas de rastreamento, 14 fêmeas ao todo receberam transmissor, um número parecido com a média de 14 animais que desovam por ano só na Reserva de Comboios. Isso significa que a maior parte das fêmeas da reserva, em anos anteriores, nunca foi rastreada por satélite.

O projeto também tem só dois anos de dados, pouco tempo diante de um ciclo reprodutivo que se repete a cada dois ou três anos por fêmea. As rotas até agora documentadas cobrem apenas as duas primeiras temporadas de monitoramento contínuo.

Situação atual do monitoramento na Reserva de Comboios

A temporada de desova 2026 começa em setembro, dentro do mesmo calendário que a espécie segue no Espírito Santo. Se o projeto continuar no mesmo ritmo dos dois primeiros anos, novas fêmeas devem ganhar transmissor até dezembro.

Os dados já registrados seguem abertos no site do Projeto Tamar, ajudando a entender por que a maior tartaruga marinha do mundo desova em tão poucos pontos do Brasil. Você já visitou a Reserva de Comboios ou acompanhou o mapa de rotas da tartaruga-de-couro? Conte nos comentários.

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