Animais e natureza

O lobo-guará, maior canídeo selvagem da América do Sul, depende da lobeira, fruta do Cerrado estudada pela Embrapa, para se alimentar e espalhar as sementes da planta pelo bioma

O lobo-guará, maior canídeo silvestre da América do Sul, come a lobeira, fruta nativa do Cerrado da mesma família do tomate, e devolve as sementes praticamente intactas pelas fezes. A relação é estudada pela Embrapa e por universidades brasileiras, que já mediram o papel do lobo na dispersão da planta pelo bioma.

lobo-guará e lobeira: lobo-guará caminhando sobre grama, com a pelagem alaranjada e as pernas longas e escuras características da espécie.

O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) é o maior canídeo selvagem da América do Sul e vive principalmente no Cerrado. Foto: Jonathan Wilkins/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) não é lobo nem raposa, mas o maior canídeo selvagem da América do Sul. Boa parte da sua sobrevivência no Cerrado depende de uma fruta pouco conhecida fora da região: a lobeira. Segundo pesquisas da Embrapa e da USP, o animal come o fruto e devolve as sementes pelas fezes, ajudando a espalhar a planta.

A relação é um caso de mutualismo, quando duas espécies se beneficiam uma da outra. A lobeira alimenta o lobo-guará, e o lobo-guará dispersa as sementes da lobeira, aponta a pesquisadora Aline Carneiro Veloso em dissertação de mestrado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) sobre o tema.

O que é o lobo-guará

O lobo-guará é o maior canídeo selvagem da América do Sul, com pernas compridas e finas, pelagem alaranjada e uma espécie de juba escura ao longo do dorso. Apesar do nome, ele não é parente próximo do lobo-cinzento nem da raposa.

A espécie vive sobretudo no Cerrado brasileiro, mas também ocorre em áreas de Mata Atlântica, Pampa e Pantanal, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). É um animal solitário, de hábitos noturnos e crepusculares.

A lobeira, fruta símbolo do Cerrado

A lobeira (Solanum lycocarpum) é um arbusto que pode chegar a 5 metros de altura, da mesma família botânica do tomate e do jiló, segundo publicação da Embrapa Florestas. No Brasil, também é chamada de fruta-do-lobo, jurubebão ou fruto-de-lobo, dependendo da região.

O fruto lembra um tomate grande, de casca verde-amarelada e polpa esponjosa. Ele é comum em pastos, beiras de estrada e áreas abertas do Cerrado, e costuma frutificar durante boa parte do ano.

Fruto verde da lobeira ainda preso ao galho, com folhas largas ao redor.
O fruto da lobeira lembra um tomate grande e é um dos itens vegetais mais consumidos pelo lobo-guará. Foto: Evaldo Resende/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Quanto da dieta do lobo-guará é lobeira?

O lobo-guará é onívoro e generalista: come desde pequenos mamíferos e insetos até frutos e tubérculos, conforme o que está disponível no ambiente. Estudos de longo prazo mostram a dieta dividida quase meio a meio entre itens animais e vegetais.

A lobeira aparece como um dos itens vegetais mais frequentes na dieta em diversas pesquisas, incluindo o trabalho de 27 meses do biólogo José Carlos Motta Junior, do Instituto de Biociências da USP, financiado pela Fapesp em oito áreas de São Paulo e Minas Gerais.

Como o lobo-guará espalha as sementes da lobeira

Depois de comer o fruto, o lobo-guará elimina boa parte das sementes pelas fezes ainda íntegras, porque o trato digestivo do animal não as destrói por completo. Isso faz dele um dispersor eficiente da planta.

O lobo-guará percorre longas distâncias durante a noite em busca de alimento e território, o que espalha as sementes da lobeira por uma área bem maior do que a planta conseguiria alcançar sozinha, segundo a pesquisa de Motta Junior.

Sementes que passam pelo lobo germinam mais

Um estudo de mestrado da UFU, conduzido por Aline Carneiro Veloso em uma reserva de Cerrado em Minas Gerais entre 2017 e 2018, comparou sementes retiradas de fezes de lobo-guará com sementes de frutos colhidos diretamente da planta.

As sementes que passaram pelo sistema digestivo do lobo-guará apresentaram taxas de germinação maiores do que as retiradas direto do fruto, segundo a dissertação. O resultado reforça o papel do animal como agente de regeneração da lobeira no Cerrado.

A hipótese do fruto contra o verme-do-rim, sem confirmação

O lobo-guará é hospedeiro frequente do Dioctophyme renale, um verme parasita que se instala no rim e pode ser fatal para o animal. Alguns pesquisadores levantaram a hipótese de que a lobeira teria ação vermífuga natural contra esse parasita.

Essa hipótese, porém, já foi questionada por outros autores e não tem confirmação definitiva na literatura científica. O que está mais estabelecido é o papel da fruta como alimento e como veículo de dispersão de sementes, não como remédio comprovado.

Lobo-guará entre árvores de uma área mais fechada de vegetação, olhando para o lado.
O lobo-guará é solitário e percorre grandes distâncias à noite, o que ajuda a espalhar as sementes da lobeira por áreas maiores. Foto: Clodomiro Esteves Junior/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Por que essa relação importa para o Cerrado

O Cerrado é um bioma marcado pela perda de vegetação nativa para a agropecuária, o que reduz o habitat tanto do lobo-guará quanto da lobeira. A relação entre os dois ajuda a manter a regeneração natural da vegetação em áreas fragmentadas.

Quando o lobo-guará desaparece de uma região, a dispersão da lobeira também fica prejudicada, o que pode afetar a capacidade do Cerrado de se recompor depois de queimadas ou desmatamento, segundo a pesquisa da UFU.

O lobo-guará é uma espécie ameaçada?

O lobo-guará é classificado como Vulnerável, categoria de ameaça definida pelo ICMBio. O órgão coordenou entre 2012 e 2017 o primeiro ciclo do Plano de Ação Nacional para a Conservação do Lobo-guará (PAN-Lobo-guará), com 68% das ações concluídas.

Desde 2018, a espécie passou a integrar o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Canídeos Silvestres (PAN-Canídeos), conduzido pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap), ligado ao ICMBio.

Outros bichos que dependem de uma planta específica no Brasil

O lobo-guará não é o único animal brasileiro com uma relação estreita com uma planta do seu bioma. No Pantanal, por exemplo, o veado-campeiro também usa a vegetação nativa em momentos importantes do seu ciclo de vida, como a troca da galhada.

Outros grandes mamíferos do Cerrado e de biomas próximos, como a onça-pintada flagrada sozinha em Iguaçu, também dependem da vegetação nativa preservada para caçar e se deslocar entre fragmentos de mata.

Como diferenciar a lobeira de outras plantas do Cerrado

A lobeira costuma ser confundida com outras solanáceas nativas por quem não é da região, mas o fruto grande, redondo e de casca aveludada ajuda a identificá-la. As folhas também são largas e acinzentadas, cobertas por uma leve penugem.

Quem se interessa por como identificar espécies parecidas no campo também pode conferir a diferença entre o cateto e o queixada, dois porcos-do-mato que costumam ser confundidos um com o outro.

O que fica registrado sobre o lobo-guará e a lobeira

A relação entre o lobo-guará e a lobeira segue sendo estudada por pesquisadores da Embrapa, da USP e de universidades como a UFU, que já documentaram a fruta como item importante da dieta e o lobo como dispersor eficiente das sementes.

O equilíbrio entre os dois segue dependendo da preservação do Cerrado, bioma que perde área para a agropecuária todos os anos. Você conhecia essa relação entre o lobo-guará e a lobeira? Conte nos comentários.

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